"A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa." Irene Lisboa (Solidão)

25
Jan 18

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Aquela menina muito infeliz, nem bem ela sabia porquê...

Era eu aquela menina.

Não tinha mãe, mercê de um pobre romance, destes do campo. Nem primas nem tias. Não tinha ninguém, nem o veio a ter.

Era eu.

Aquela menina...

Dizei-me porquê, por que esquisito sim e por que esquisito não me estou lembrando eu agora dela?

Ó senhores, ó senhores!

Lá fora pela noite dentro, crescendo, anda a tormenta.

O vento e a chuva, a chuva e o vento...

Anda lá fora um espírito revolto. Que beleza tão triste! Os pastores à chuva e ao vento com as suas capas que são uns sudários.

Cá dentro, numa casa de tábua e pedra, nesta serra coberta de névoas, tão bela e tão estranha a qualquer hora, aqui densa, além diáfana, e ouvindo águas e vento, a abrir um livro de versos novos, reparo, coisas que acontecem, se não premeditadas! reparo nos seus espaços brancos.

Ó senhores, ó senhores! tanta chuva e tanto vento.

Que tentação, enchê-los... Sem nada ter que dizer.

Mas este branco, este espaço e liberdade...

Há algum sim e algum não?

Ó tentação... tu és, tu hás... Anda, tentação.

E assim com esta pobre, fugidia razão me lembrei, me pus a lembrar da menina que noutras eras e climas, banida e cismática, sem parentes, doente de fantasias e já só, muito só...

 

Era uma menina que olhava a lua, de cabeça nos braços.

Estou-te vento, menina, pois estou.

Vento e chuva, chuva e vento... Noites de maio caliginosas.

Outros tempos, outras noites, outros lugares.

Ai, longa vida, como passaste.

Menina solitária e afligida, assim ficaste.

Ó senhores, ó senhores!

Lá está ela sumidinha e viva, sempre viva, existida. Virada para a lua, de cabeça nos braços.

Era uma lua estival, perdida, sem par.

Ó mistério!

Nas laudas brancas dos livros, talvez de versos e talvez de prosa, ela também escrevia.

Mas que escreveria? Quem no sabe já?

Bufa o vento, clamoroso, arrebatado. Coitados dos pastores sem choça. Terríveis noites de maio.

Outros lugares e outras eras.

Lá, tão longe, só luar, luar... Ó noites claras, também tristes e também longas.

Lá estavas tu, eu lá estava, encravada nelas, de cabeça nos braços.

Meu reino exíguo e pobre. Sem amores. Nem parentes nem amigos. Só cheia de sonhos, de coisas e mistérios já agora indecifráveis.

Os espaços brancos, a liberdade a par dos versos dos outros...

Aquela menina, que era eu, com bela letra, gostosa, já também escrevia neles. Os queria preencher.

Que tentação!

Chuva e vento derramados. Uma bate e a outra bufa. Coitados dos pastores, de capa molhada, de roda de uma fraga, a praguejar. E os rebanhos coatos.

Tremem os vidros e latem os cães, de espaço.

Pobre menina, onde ficaste?

Amarrada a um peitoril, de cabeça nos braços. Que noites de lua! Outros lugares e outras eras.

Cresce a noite, vai crescendo, cresce.

Bufa o vento, etc. Sempre o mesmo. Noites pávidas.

E o mesmo sempre naqueles tempos: solidão, luar, espaços brancos tentadores nos livros dos outros, de prosa e verso.

Ó senhores, ó senhores!

Que revolta tão inútil a do vento. E que clamores! Vento e chuva, chuva e vento...

Ameaças, ameaças.

 

 

Portugal

Aldeias, 1950,

Noite de 19 de maio

 Poema publicado no jornal Tentativa, n.º 10, ano 2, 1950 (Atibaia, Estado de São Paulo, Brasil).

 

Nota: Por impossibilidade de editar de outra forma ou de assinalar com o respetivo parênteses reto, as linhas que começam com letra minúscula fazem parte do verso anterior. Sim, há versos que ocupam duas ou mais linhas.

publicado por Jorge da Cunha às 14:46

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