"A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa." Irene Lisboa (Solidão)

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Ago 18

Textos publicados no Jornal Chafariz de Arruda, junho e agosto de 2018

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Irene Lisboa

Parte 1: Vida

Por Jorge da Cunha

 

Durante o presente ano, e depois quando for oportuno, a começar já com este texto e o seguinte, que servirão de introdução, o tema a abordar será Irene Lisboa, uma vez que, este ano, se assinalam os 60 anos da sua morte.

Assim, começaremos por apresentar umas breves notas bioblibliográficas desta autora, que foi considerada pelos grandes escritores, poetas e académicos portugueses como uma das maiores escritoras do século XX. José Gomes Ferreira, em 1978, na “Breve introdução à poesia de Irene Lisboa”, referiu em letras maiúscula, como se gritasse: “PARA MIM É A MAIOR ESCRITORA DE TODOS OS TEMPOS PORTUGUESES”. Também Manuel Poppe, jornalista do Diário Popular, em 23 de novembro de 1973, escreveu: “Lembro-me muitíssimo bem de ouvir a José Régio o seguinte comentário acerca de Voltar atrás para quê?: ‘Se esta mulher se chamasse Tchekhov, o seu livro impunha-se em qualquer parte do mundo!’ Se esta mulher se chamasse Tchekhov...” Ora, não se chama Tchekhov, mas Irene Lisboa. Por isso, convido-vos a conhecê-la um pouco melhor.

Irene do Céu Vieira Lisboa nasceu no dia de Natal de 1892, no casal da Murzinheira, Arranhó, concelho de Arruda dos Vinhos. Este casal e a Quinta de Monfalim eram propriedade da sua madrinha, D. Maria Guilhermina. Ali viveu com a sua mãe, Maria Joaquina (17 anos) até aos três anos. Depois, foi levada para Monfalim, com a irmã Rita, onde vivia a madrinha e o pai, Luís Emílio Vieira Lisboa (62 anos). Aos seis anos entra no Convento do Sacramento, em Lisboa. Da mãe, pouco mais se soube, apenas que deixou mais 4 filhos: Romana, Vitória, José Mateus e António. No Colégio do Sacramento, esteve Irene até ao 11 anos, frequentando depois, até aos 13, o Colégio Inglês. Em 1905, o pai juntou-se com D. Maria da Saudade, de quem teve 6 filhos. Os dois anos seguinte foram dramáticos para Irene Lisboa. Foi tirada do colégio e levada para Monfalim. Esteve quase ao abandono. Aos 15 anos, foi viver com a madrinha para Lisboa e entrou no Liceu Maria Pia. Aqui conheceu Ilda Moreira, de quem foi amiga o resto da vida. Em 1911, ingressou na Escola Normal Primária de Lisboa, onde tirou o curso de professora. Em 1915, terminou o curso da Escola Normal. Em 1920, Irene e Ilda tomaram posse de duas turmas de ensino infantil na Escola da Tapada na Ajuda. Os alunos, muito pobres, tinham entre 5 e 7 anos. Estas duas classes, pioneiras do ensino pré-primário público em Portugal, serviam de modelo a um ensino moderno e inovador. Entretanto, em 1929, Irene Lisboa foi, como bolseira, para Genebra estudar psicologia e pedagogia. Esteve ainda em Bruxelas e Paris a estudar metodologias pedagógicas. Regressou a Lisboa em 1932. Em virtude de terem sido extintas as secções infantis, em 1936, Irene concorreu ao lugar de Inspetora para o Ensino Infantil, tendo ficado com o lugar de Inspetora-Orientadora em itinerância. Por ter sido demasiado inovadora para as mentes pequenas de então, Irene Lisboa foi, primeiro, transferida para um lugar administrativo na Junta de Educação Nacional; depois, em 1940, com 48 anos, deram-lhe duas opções: ficar com um lugar como professora na Escola Normal de Braga, ou reformar-se. Optou pela segunda situação, recusando o degredo e negando dobrar-se perante um sistema acéfalo, ou não fosse ela Irene Lisboa. Em 1940 visitou a terra da sua infância e adolescência (Arruda e Sobral), ficando numa casa alugada em Monfalim. Foi então que começou a escrever Voltar a trás para quê? Nessas férias, percorreu os lugares, serras e festas e recolheu fragmentos, depois utilizados em muitos dos seus textos. Leia-se, por exemplo, “Férias no campo”, em que a autora nos apresenta um relato de lugares, pessoas e costumes.

E era a este campo da sua infância, trazido pelo “vento da Murzinheira”, que ela regressava constantemente.

 

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Irene Lisboa

Parte 2: Vida (cont.) e obra

 

Uma procissão é afinal um ato grave, lento e doloroso! Na Arruda, como a procissão saísse pelo entardecer e as ruas fossem estreitas, a multidão soturna e recolhida, subindo devagar, ainda me impressionava mais (Irene Lisboa, Apontamentos, 1943).

 

No anterior texto, tínhamos ficado no momento da vida de Irene Lisboa em que, passados muitos anos, regressou, de férias, a estas terras encantadas entre Arruda e Sobral.

Este início dos anos 40 do século XX, já reformada sem ainda ter 50 anos, foi de grande produção literária. Foi nestes anos 40 que visitou a Serra da Estrela pela primeira vez, local bastante frequentado pela autora a partir daí. Também os anos 50 foram bastante produtivos a nível literário e o prenúncio do fim desta escritora arrudense. No início desta década, Irene foi operada, pela segunda vez, a um cancro no duodeno no Hospital de São José em Lisboa, nunca deixando de escrever.

A serra, o campo, a cidade e tudo o que os envolve por dentro, tudo o que é quotidiano, insignificante, nada... foi motivo e reflexão e autorreflexão por parte da autora. Irene Lisboa morreu então numa quarta-feira, no dia 25 de novembro de 1958.

Nos fins dos anos 80 e inícios dos anos 90, do séc. XX, Paula Morão começou a estudar a obra de Irene. Iniciou-se então a reedição da sua obra pela Editorial Presença, com prefácios de Paula Morão.

No dia 13 de janeiro de 2013, os restos mortais de Irene Lisboa foram trasladados do Cemitério da Ajuda (Lisboa) para o Cemitério de Santo António (Arruda dos Vinhos).

Em 2014, a obra de Irene Lisboa passa a ser estudada por todos os alunos do Município de Arruda dos Vinhos, desde o pré-escolar ao ensino secundário (com protocolo assinado entre a Câmara Municipal, o Agrupamento de Escolas e Jardins de Infância de Arruda e o Externato João Alberto Faria).

Em 2018, 60 anos depois da sua morte, a Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos deu inicio à publicação de uma coleção de 6 livros para a infância e juventude com textos, alguns inéditos, de Irene Lisboa. Chamou a esta coleção Contarelos, afinal é o nome da sua primeira obra editada em 1926.

 

Bibliografia:

Literatura, poesia, crónica...

  1. Treze contarelos (1926)
  2. Um dia e outro dia... Diário de uma mulher (1936)*
  3. Outono havias de vir latente triste (1937)*
  4. Solidão: Notas do punho de uma mulher (1939)*
  5. Folhas volantes (1940)
  6. Começa uma vida (1940)*
  7. Lisboa e quem cá vive (1940)
  8. Esta cidade! (1942) *
  9. Apontamentos (1943)*
  10. Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma (1955)**
  11. Voltar atrás para quê? (1956)*
  12. O pouco e o muito – Crónica urbana (1956)*
  13. Título qualquer serve (1958)*
  14. Queres ouvir? Eu conto (1958)**
  15. Crónicas da serra (1959)*
  16. A vidinha da Lita (1971)
  17. Solidão II (1974)*
  18. Folhas soltas da Seara Nova, 1929/1955 – Antologia (Paula Morão)
  19. Rosalina (2018)
  20. O peru voador e Pesadelo de uma manhã de agosto... (2018)
  21. Dizia o rio e Soldado de chumbo... cavalo de pau (2018)

Nota:

Os títulos assinalados com 1 asterisco encontram-se publicados na Presença, com organização e prefácios de Paula Morão; os assinalados com 2 asteriscos também se encontram publicados nesta editora. Os 3 últimos são edições da Câmara Municipal de Arruda e pertencem à coleção Contarelos. Noutra altura, apresentaremos a bibliografia pedagógica da autora.

 

Estes são apenas alguns pormenores da vida desta mulher invulgar, injustamente esquecida por este confuso tempo cheio de equívocos: uma autora com uma admirável, rara e humanitária obra literária e pedagógica que incomodou o Estado Novo.

Dando já o mote para o próximo texto, diríamos que a sua obra pedagógica, se fosse estudada, ou apenas lida, continuaria a incomodar as estruturas educacionais nacionais: “A escola não pode ser um meio artificial, conhecendo a vida apenas por meio de livros. A escola deve ser uma parte verdadeira do mundo, em que a criança se possa descobrir a si mesma” (Irene Lisboa (1942), Modernas tendências da educação).

publicado por Jorge da Cunha às 13:33

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