
"A vida dela é que continua misteriosa...
"Como bem diz a autora da tese [Maria Helena Ribeiro da Cunha], “a personalidade introvertida de Irene Lisboa dificultou um conhecimento mais amplo da sua vida particular, e até mesmo de conhecimentos ligados à sua atividade”.
"Que sei eu, por exemplo, que fui amigo dela, da vida de Irene Lisboa? E que sabe a Rosalia – para além de lhe ter passado livros à máquina?
"Nada. Talvez vagamente, como toda a gente, que teve amores com José Osório de Oliveira [filho de Ana de Castro Osório] – história que muito a envergonhava sobretudo nos últimos anos da existência.
"Nesse capítulo também o José Rodrigues Miguéis me contou uma vez que, entre ele e a Irene, teria havido o esboço de um pequenino romance de amor irrealizado. – Resisti – dizia, feliz. – Estive quase a cair durante uma viagem de comboio (para a Suíça, suponho) mas resisti. E tornaram-se grandes amigos.
"Pouco antes da Irene morrer, o Zé Miguéis foi visitá-la e choraram, a olhar um para o outro, como dois anjos.
“A personalidade introvertida de Irene Lisboa” – escreveu Maria Helena Ribeiro da Cunha.
"Não. Irene Lisboa não era propriamente uma introvertida no sentido vulgar desta palavra... Só ocultava dos outros o que poderia humilhá-la. E a condição de mulher em 1920-40 ainda era uma fonte de humilhações doces.
"Daí o “protesto viril” de certas páginas de Irene Lisboa."
José Gomes Ferreira (2018).
Dias Comuns IX – Derrota pairante.
D. Quixote, pp. 126 e 127.
