urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante Tenho Tempo... Irene Lisboa &quot;A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa.&quot; Irene Lisboa (Solidão) LiveJournal / SAPO Blogs Jorge da Cunha 2019-08-26T23:56:22Z urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:25984 2019-08-27T00:42:00 Irene Lisboa - Um dos grandes enigmas da literatura portuguesa 2019-08-26T23:56:22Z 2019-08-26T23:56:22Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 256px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="L10.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B40173392/21540793_0mRUu.jpeg" alt="L10.jpg" width="256" height="362" /></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; font-size: 12pt; color: #000000;">Toma lá que te dou eu,</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; font-size: 12pt; color: #000000;">rapariga da fortuna,</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; font-size: 12pt; color: #000000;">uma mão cheia de nada,</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; font-size: 12pt; color: #000000;">outra de coisa nenhuma.</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;">                          (Popular)</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;">(...) Irene Lisboa nasceu no dia 25 de dezembro de 1892 no Casal da Murzinheira, concelho de Arruda dos Vinhos. Anos mais tarde, já quase no fim da sua vida, em 1955, publicou <em>Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma</em>, livro composto por 26 contos onde se insere o texto que agora propomos analisar: “<em>O caixão de cristal” (...) </em>Este texto foi anteriormente inserido na obra <em>13 Contarelos </em>(1926), ao qual Irene Lisboa chamou <em>Número 13</em>, número curioso na simbologia, assim como é curioso ser este o texto número treze, tendo em conta a temática abordada. Apesar do livro ser destinado às camadas jovens, este conto requer uma reflexão complexa, pois leva-nos a um imaginário ligado à morte, que dificilmente pode ser compreendido por um público mais jovem, mas, como ela disse algures, tentemos.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;">Irene Lisboa é um dos grandes enigmas da literatura do século XX, de quem José Gomes Ferreira disse ser a maior escritora de todos os tempos, mas pouco lida pelo público, apesar do tempo que já passou após a sua morte (60 anos) e de ter sido apreciada por grandes críticos, investigadores, poetas e escritores (ver, por exemplo, a revista Relâmpago, 2012, 2013).</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;"><em>Uma mão cheia de nada, outra de coisa </em><em>nenhuma </em>é uma obra que apresenta, na globalidade dos seus textos, um narrador autodiegético, feminino, em que o recurso ao registo oral é uma constante, observado sobretudo através das repetições e interrogações, bem como de um discurso direto aparentemente descuidado, mas que se revela de uma profundidade simbólica intensa.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;">Os diálogos aí apresentados são pois testemunho dessa aparente desordem e da busca constante pela oralidade, bem como os percursos profundos e constantes por aquilo que é comum, quotidiano, frágil, fragmentário, apresentado num registo em que o imaginário entra numa certa inocência e independência subjetivas, muitas vezes encontradas apenas no registo lírico, aqui transposto para o modo narrativo. Estes diálogos não apresentam os traços comuns deste tipo de discurso (sem os dois pontos e o travessão inicial). Esta espécie de subversão do discurso direto não deixa de ser um traço estilístico inovador para a época. Uma outra inovação é o facto de Irene Lisboa ter trazido para a literatura juvenil um tipo de texto também pouco comum, mais exigente do ponto de vista sintático, semântico, simbólico e, no dizer de José Régio, poético, por isso se dizia em cima que dificilmente este público o conseguirá compreender a este nível mais profundo, porém o contacto com textos de qualidade que não estupidificam e acrescentam e despertam outros mundos é indiscutível, por ser formativo e útil na provocação da criatividade e do sentido crítico.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;">“O caixão de cristal” apresenta um discurso sobre o destino. As sensações aí descritas conjugam a dicotomia entre a vida e a morte, o prazer e a dor, ou seja, os temas clássicos da literatura.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;">Este conto começa por fazer alusão a um fragmento do texto <em>Sapatinhos de cetim, </em>de Adolfo Coelho. A narradora apresenta-nos um falso dever: “Eu devia ser lançado ao mar num caixão de cristal”. Este fragmento justifica esta narrativa. Contudo, a narradora socorre-se de outras referências, nomeadamente da literatura oral. Há aqui a alusão a um saber prévio, a um saber popular ancestral transmitido de geração em geração: “Tanta coisa sabia, de ter ouvido em terra, aos serões”. Observamos ainda, para além da voz da narradora e do saber tradicional oral, a voz do murmúrio: “Pelo mar fora, sempre de olhos abertos, um murmurinho muito doce me embala”, que é um murmúrio que se vê e sente mais do que se ouve.  </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;">São apresentados os seguintes pontos que resumem esta narrativa: 1) O medo entra-lhe no coração com o seu inexplicável “impulso salvador”: “Entrou-me o medo no coração (…) um impulso salvador e escapei-me”; 2) a narradora encontra-se num estado de encantamento permanente: “Nada me cansava; tudo maravilhas”; 3) dá ênfase à especificidade das figuras que despertam o olhar: ”Três donzelas de luto estavam ao mirante”; 4) conjeturas feitas pela narradora através de interrogações, tais como: “Teriam madrasta ou pai tirano. Sequestradas dos seus namorados, quem sabe?”; 5) a impossibilidade de estabelecer uma relação amorosa, dada a incomunicabilidade em que a narradora se encontra, e isso causa-lhe dor: “(…) e eu que o não podia ouvir! Que pensar daquilo tudo? Se ao menos me pudesse erguer!” Esta impossibilidade de estabelecer uma relação com o objeto amoroso causa dor: “Senti tamanha dor que dos olhos começou a correr o pranto”. Esta situação leva-nos ao ponto 6, início do processo de rutura com a vida: “Empalideceram-me as mãos e cerrei os olhos. Amor! ainda me dizia, já devagar, o coração”.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;">Por último, a narradora apresenta-nos uma expressão: “Eu era oferecida em holocausto à lua”, em que se observa uma forte intensidade dramática, pois a personagem principal é oferecida, como que em sacrifício, à lua, mas é oferecida pelas nereidas já morta, ou seja: “(…) as adoradoras do pálido astro”, isto é,  a lua. Esta morte é consentida, o que nos leva a concluir que foi uma morte maravilhosa, pois a personagem não deixa de sentir: “Senti-me descair, descair”, até ao fundo do mar, sendo a morte encarada aqui como um estado eterno: “ (…) e lá fiquei”.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;">A lua é aqui vencida pelo mar apesar de aquela ser encarada como uma “maravilha inigualável”. Podemos levantar algumas hipóteses que justificam a recusa da lua e a aceitação do mar. A narradora recusou a lua porque: 1) esta representa a falsidade, a sua luz é apenas o reflexo da luz do sol; 2) representa instabilidade: tem quatro fases, muda de forma constantemente; 3) representa o feminino e a narradora procura o masculino, isto é, o ser amado. E escolhe o mar porque: 1) este simboliza a dinâmica da vida, isto é: apesar desta morte, a narradora continua a viver eternamente; 2) este simboliza a incerteza, a dúvida, a indecisão, o renascimento. São posições em que a narradora/personagem/autora sente que pode evoluir, crescer, pois a dúvida leva ao conhecimento, ao constante desassossego.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;">Finalmente, falta-nos fazer alusão a uma expressão que aparece seis vezes ao longo deste conto: “Quem jamais teve esta sensação?” É uma interrogação que nos aparece com uma função mais de espanto do que de incerteza. A narradora pretende talvez manter viva, ao longo do texto, através da repetição, como se de uma reza se tratasse, a focalização do leitor na morte: morte/dor, mas também morte/prazer. Este pedido, súplica, relação com o leitor faz-se de forma muito íntima, mesmo sentimental: há o vivido pela personagem, mas também há a relação com o leitor para que este não deixe de observar e sentir o que está a ser contado.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;">Obras consultadas:</span></p> <p><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;"><strong>Chevalier</strong>, J. & Gheebrant (1994). <em>Dicionário dos símbolos</em>. Lisboa: Editorial Teorema.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;"><strong>Florêncio</strong>, V. (1994). <em>A literatura para crianças e jovens em Irene Lisboa</em>. Porto: Edições Asa.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;"><strong>Lisboa</strong>, Irene (1984). <em>Uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma</em>. Porto: Edições Figueirinha.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;"><strong>Relâmpago</strong>(2012/13). <em>Revista de poesia </em>– <em>Irene Lisboa, n.º 31, 32</em>.</span></p> <p style="text-align: right;"><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;">Texto publicado no <em>Jornal Chafariz de Arruda</em></span></p> <p style="text-align: right;"><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times, serif; color: #000000;">Jorge da Cunha</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:25844 2019-06-07T11:36:00 Prémio Literário Irene Lisboa - Arruda dos Vinhos 2019-06-07T10:38:21Z 2019-06-07T10:38:21Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 679px; padding: 10px 10px;" title="IL.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gc2172ad3/21474447_bAmap.jpeg" alt="IL.jpg" width="679" height="960" /></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:25385 2019-06-06T20:06:00 EJAF - Escola Amiga da Criança - Arruda dos Vinhos 2019-06-06T19:18:31Z 2019-06-06T19:18:31Z <p class="sapomedia images"><span style="font-size: 12pt;"> "Escontro com as palavras de... Irene Lisboa" foi um dos dois projetos apresentados a concurso pelo Externato João Alberto Faria e distinguidos com o Selo Escola Amiga da Criança.</span></p> <p class="sapomedia images"> </p> <p class="sapomedia images"><img style="width: 1280px; padding: 10px 10px;" title="ESCOLA AMIGA.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G09179f55/21473976_U12dv.jpeg" alt="ESCOLA AMIGA.jpg" width="1280" height="960" /></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:25108 2019-05-12T12:47:00 Contarelos, Irene Lisboa 2019-05-12T12:00:38Z 2019-05-12T12:00:38Z <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Mais dois livros de Irene Lisboa, da coleção <em>Contarelos,</em> editados pela Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos: <em>A vidinha da Lita</em> e <em>O diário do João</em>. O segundo tem na capa uma ilustração de Márcia Ferreira (aluna do EJAF) e o primeiro é todo ilustrado por Ana Maria Ramos, ambas artistas de Arruda dos Vinhos. A coleção contempla seis livros, já foram editados cinco. No próximo ano será editado o último.</span></p> <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="IMG_6287.jpg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Be81750c6/21449709_nOQWL.jpeg" alt="IMG_6287.jpg" /></p> <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="IMG_6288.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bf918317b/21449710_ODdGZ.jpeg" alt="IMG_6288.jpg" /></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:24902 2019-03-25T18:47:00 Irene Lisboa e a Escola Ativa 2019-03-25T19:01:46Z 2019-03-25T19:01:46Z <p class="sapomedia images" style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A Associação Caminhando, sediada no concelho de Arruda dos Vinhos, na Freguesia de Cardosas, promove uma palestra intitulada "Irene Lisboa e a escola ativa", no dia 30 de abril de 2019, pelas 19.30h. Tentaremos perceber se as teorias propostas por esta pedagoga há mais de meio século estão assim tão distantes das que hoje se propõem nos sistemas educativos mais avançados da Europa.</span></p> <p class="sapomedia images"><img style="width: 509px; padding: 10px 10px;" title="1.jpeg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bef17e742/21396534_2z9gn.jpeg" alt="1.jpeg" width="509" height="720" /></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:24681 2019-03-11T20:23:00 Irene Lisboa, professora, educadora, pedagoga... 2019-03-11T20:39:57Z 2019-03-29T14:55:42Z <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="XXXXXXX.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gb418d582/21381262_lfGzI.jpeg" alt="XXXXXXX.jpg" width="1024" height="341" /></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 14pt;"><strong>Irene Lisboa</strong></span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 14pt;"><strong>Esboço para uma biografia pedagógica</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Irene Lisboa (1892/1958) estuda e escreve a sua obra num contexto político e educativo, por um lado, instável (1.ª República) e, por outro, autocrata e corporativista (Estado Novo). Entretanto, vão surgindo na Europa, também em Portugal, pedagogos que pretendem reformar, diríamos, revolucionar a educação. Portugal tem o seu primeiro laboratório de pedagogia e psicologia experimentais em 1913, na Universidade de Coimbra, de orientação claparèdiana, implementado por Alves dos Santos (1866/1924) e antes, em 1911, uma lei que prevê a implementação da educação infantil (pré-escolar). </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Na Europa, essa revolução vai sendo feita com Decroly (1871/1932), Claparède (1873/1940), Rosa Sensat (1873/1961),Montessori (1870/1952), Dewey (1859/1952, EUA), Luquet (1876/1965), Piaget (1896/1980), entre outros, que observam, experimentam e produzem conhecimento. Já em Portugal, os que se aventuram nessas lides inovadoras (César Porto (1873/1944), Adolfo Lima (1874/1943), Delfim Santos (1907/1966), António Sérgio (1883/1969), Bento de Jesus Caraça (1901/1948), entre outros), durante a ditadura salazarista, mesmo um pouco antes, talvez com início em 1926, acentuando-se a partir de 1933, pagam, alguns, caro a ousadia da inovação, mesmo durante a 1.ª República. É na categoria de inovadora que devemos inserir a professora e pedagoga Irene Lisboa. Professora primária, educadora diplomada (a primeira do sistema público de educação, juntamente com Ilda Moreira), e especialista em ciências da educação, luta sempre pela dignificação da educação em Portugal, e, apesar de ser banida do sistema pela repressão fascista, nunca deixa de escrever (até 1940 com o pseudónimo de Manuel Soares para os textos pedagógicos) e dar conferências, em que apresenta, quando não é impedida, a sua visão documentada, também na prática, de uma educação ativa, nova, em que o aluno seria o centro da aprendizagem (ainda hoje não é uma realidade), em oposição à velha escola sentada, passiva, verbalista, que tão bem conhecemos, e que Irene Lisboa há quase um século já combatia. Ela introduz, esclarece, complementa e adapta à realidade portuguesa as mais inovadoras teorias pedagógicas e métodos que ainda hoje são considerados úteis: Montessori, Decroly, Dalton, trabalho de projeto e de grupo... A sua visão apela a uma escola onde se ensina menos e aprende mais. É nesta condição de inovadora, persistente e destemida que deve ser considerada, estudada e destacada no contexto da história da educação em Portugal.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">É na Escola Normal de Lisboa (Escola Superior de Educação) que Irene começa a dar os primeiros sinais de inconformismo, a levar a cabo algumas ações mais radicais e a sofrer as consequências dessa irreverência (entra em 1911 e sai diplomada em 1914). Ali, em 1913, funda <em>Educação Feminina</em>. Esta publicação teve vida curta (7 números e 6 meses), seria proibida pelo Conselho Escolar por ser demasiado revolucionária, mesmo para a 1.ª República (para algumas mentes fechadas que estavam à frente das instituições de ensino, o que acontece em todas as épocas, não só nas ditaduras). Este primeiro <em>jornal das normalistas </em>publica literatura e textos que criticam as condições do edifício da escola, o ensino e a ação pedagógica dos professores. O seu lema: <em>verdade </em>e <em>justiça; </em>os mestres: <em>franqueza </em>e <em>simplicidade</em>. Quatro conceitos que atravessam toda a sua obra, não apenas a pedagógica. Diz ela no n.º 1, abril de 1913: “<em>É este jornal um órgão essencialmente instrutivo e de recreio literário, mas o seu espírito amplo, liberal e franco abraçará com fervor todas as causas justas, todos os ideais nobres e sérios</em>”. A resposta a este desassossego constante, que caracteriza a vida e obra desta mulher, não se faz esperar. Numa das muitas vezes que é chamada ao gabinete dos professores para ser aconselhada sobre a orientação que devia dar à publicação, ouve o seguinte reparo, reproduzido por Ilda Moreira em 1975, na <em>Palestra </em>por si proferida na Escola do Magistério Primário de Lisboa: <em>“A senhora escreve com uma pena muito aguda e um dia pica-se”</em>. E continua: <em>“E picou-se e ficou ferida (...) Mas que euforia enquanto durou (...) a extinção do jornal magoou muito Irene Lisboa e exacerbou a sua rebeldia (...) Mas não se resignou a ficar ignorante da matéria essencial – a pedagogia”</em>. Começa então a sua cruzada de décadas em prol de uma educação ajustada à realidade psicoeducacional e social dos alunos portugueses, que, durante a 1.ª República, não é opressora, mas também não é eficaz.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em 1913/14, termina o curso com 18 valores, tendo começado a dar aulas no ensino primário, na escola do Beato, durante seis anos letivos (1914/1920). Em 1920/21, por convite, Irene e Ilda tomam posse de duas turmas de ensino infantil na Tapada da Ajuda. Os alunos têm entre 5 e 7 anos. Estas duas classes, pioneiras do ensino pré-escolar público em Portugal, servem de modelo a um ensino moderno e inovador: <em>“Irene Lisboa deu (...) o mais que pôde de si: aplicação cuidada e meticulosa do seu conhecimento pedagógico (...); o coração, pronto a receber a ternura e a retribuí-la (...) Procurou as famílias das crianças, visitou-as em casa e no hospital (...) Foi uma professora de exemplo. De conto. Era a sua juventude a sugerir-lhe o que podia fazer para melhor ajudar”</em>(Moreira, 1975).</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Desde o início da carreira que se pressente que Irene Lisboa traz para a educação uma nova intuição pautada pela inteligência, aliando teoria, experiência e crítica: o aluno é considerado em todas as esferas do seu desenvolvimento, <em>“(...) o aluno e a escola se inseriam numa realidade social que o mestre não poderia renunciar a conhecer e (...) a transformar”</em>(Rogério Fernandes, <em>Irene Lisboa, Pedagogista</em>, 1992). Em 1923, submete-se, com Ilda, às provas do Magistério Primário Infantil: <em>“Em 10 de julho de 1923 (...) nos sujeitámos às provas de exame (...) E, assim, ficámos legalmente habilitadas para o lugar que ocupávamos” </em>(Moreira, 1975). Na escola da Tapada, recebe estagiárias que orienta através dos métodos mais inovadores da pedagogia moderna.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em 1926, Irene e Ilda publicam na <em>Revista Escolar</em>, n.º 4 e 7 e em 1927, n.º 2, um pioneiro estudo didático: “Vida escolar de crianças de cinco anos e meio a sete”. Ainda em 1926, na mesma revista, n.º 10, Irene publica um texto com um título sugestivo, “Escola atraente”. Aqui expõe algumas preocupações, nomeadamente a aproximação entre a teoria e prática e as aprendizagens significativas: <em>“Na Escola toda a criança se submete a um viver artificial, é estudante. Leva anos a aprender frases, tudo a desvia dos seus pequenos interesses. Pouco aproveitará do que ouve e do que copia, está presa e contrariada. Não parte, não mexe, não apalpa, não discute, não tem preferências… tem deveres, é subordinada.</em><em>”</em>, diz ela, e dizemos nós, hoje, passados 96 anos. A teoria era submetida ao crivo da sua experiência enquanto professora e observadora.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em 1929, é-lhe concedida uma bolsa, em Genebra, pela Junta de Educação Nacional, para estudar psicologia e pedagogia, terminando em 1931. Simultaneamente ao estágio na <em>Maison des Petits</em>, Irene frequenta o curso de especialização no Ensino Infantil, do Instituto Jean Jacques Rousseau. <em>“Pensava-se então, soubemos (...) em criar em Lisboa, sob a nossa orientação, duas escolas de ensaio (...) para estudo do que devia convir à criança portuguesa (...)”</em>(Moreira, 1975).</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em 1931/32, em Bruxelas (método Decroly) e Paris (<em>Jardins d’enfants</em>), assiste a conferências sobre metodologias pedagógicas, também ligadas às Necessidades Especiais. Regressa a Lisboa em junho de 1932. A sua estada no estrangeiro não é pacífica, embora muito enriquecedora, encontrando-se documentada em cartas a Gaspar Simões e, principalmente, a Rodrigues Miguéis: primeiro, porque se sente isolada e uma amadora do ensino, depois porque algumas das práticas observadas não correspondem ao que idealizara e, por fim, porque a formação que recebe continua a ser verbalista, distante da teoria que os mestres, que tanto admira, tentam difundir (assim é ainda hoje): <em>“Em chegando a noite entra comigo um desânimo (...) O Instituto e a </em>Maison des Petits<em>desconsolam-me imenso. Quem cá tem vindo trazia muita poeira nos olhos; são gabarolas de profissão (...) Duvido de mim... Tudo me soa a falso. E de facto há aqui imensa artificialidade </em>(Carta a Miguéis, 11.11.1929). São vários os trabalhos pedagógicos escritos a partir do início dos anos 30. Destaca-se um editado pela Junta de Educação Nacional: “Bases para um programa de escola infantil” (incluído no <em>Relatório da Bolseira Irene do Céu Vieira Lisboa</em>, 1933). Pela primeira vez em Portugal há alguém que produz um documento com rigor científico: são lançadas as bases da escola infantil (dos 3 anos até à entrada na escola primária). Em 1933/34, é nomeada inspetora-orientadora do ensino infantil e primário, e em 1934 passa a ensinar Pedagogia na Escola do Magistério Primário de Lisboa. Porém, antes da extinção das secções infantis (duraram 18 anos, até 1938), Irene é afastada de inspetora. Mais uma vez o ferrão do Estado Novo a atingir uma profissional que, enquanto inspetora, se pautou sempre por ser <em>“(...) um instrumento de apoio à formação continua dos professores (...)” </em>(Fernandes, 1992). Perigosa, claro, como qualquer progressista com posições pedagógicas e políticas bem vincadas, não convém ao sistema.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Por ser demasiado inovadora para o Estado Novo, numa “caça às bruxas”, Irene é transferida para um lugar administrativo; depois, em 1940, com 48 anos, dão-lhe duas opções: ficar com um lugar de professora na Escola do Magistério Primário de Braga ou reformar-se. Opta pela segunda, recusando “o degredo” e dobrar-se a um sistema acéfalo, ou não fosse ela Irene Lisboa. Nunca mais tem lugar no sistema educativo público ou privado. <em>“Deste modo, a intervenção de Irene Lisboa na área da educação circunscreveu-se, até ao fim da sua vida, à atividade de conferencista e de publicista (...)”</em>(Fernandes, 1992).</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Numa carta de 06.07.1953, a pedagoga, já doente, escreve: <em>“Estúpida vida foi a minha! Nem compensada (de pobre de tudo que foi) com a calma da velhice. Adiante”</em>.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt;">Jorge da Cunha, </span><span style="font-size: 10pt;">texto publicado em dois números </span><span style="font-size: 10pt;">do <em>Jornal Chafariz de Arruda</em>, 2018</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt;"><strong>             Irene Lisboa, Bibliografia Pedagógica</strong></span></p> <ol style="text-align: justify;"> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> Relatório da Bolseira Irene do Céu Vieira Lisboa </em>– Junta de Educação Nacional – Relatórios das Viagens de Estudo dos Bolseiros: Áurea Judite Amaral, Jaime Maximiano Gouveia Xavier de Brito, João de Sousa Carvalho, Irene do Céu Vieira Lisboa, José Claudino Rodrigues Migueis, Ilda da Ascensão Moreira, António Leal de Oliveira – Tip. Da "Seara Nova", Lisboa, 1933. <em>Insere os seguintes trabalhos de Irene Lisboa: "Crítica à atividade da ‘Maison des Petits’ anexa ao Instituto J.J. Rousseau"; "Relatório sobre as Escolas Maternas de Paris"; "Os ‘Jardins d’Enfance’ de Bruxelas"; "Relatório sobre a aplicação do Sistema Educativo dos Centros de Interesse do Dr. Decroly, na Escola de L’Ermitage, de Bruxelas"; "Bases para um programa de Escola Infantil"</em>.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> A contribuição do desenho para o ensino elementar sobre o Império Colonial Português </em></strong><strong>– Publicado em "A formação do Espírito Colonial na Escola Primária Portuguesa" – Tese oficial apresentada pelos serviços de orientação pedagógica da Direcção-Geral do Ensino Primário – Imprensa Nacional – Lisboa, 1934.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> Preleção realizada aos professores do distrito escolar de Coimbra, </em>em 25 de Janeiro de 1934 e repetida em Beja, em 1 de Fevereiro, pela inspetora-orientadora Irene do Céu Vieira Lisboa – Publicada em "Preleções Inaugurais" – Imprensa Nacional de Lisboa, 1935. Publicada também no "Boletim Oficial do Ministério da Educação Pública" – Direção do Prof. Oliveira Guimarães – Ano V, Fascículo I – Lisboa, Imprensa Nacional, 1934.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> Froebel e Montessori </em></strong><strong>– sob o pseudónimo de Manuel Soares – Cadernos da "Seara Nova" – Seleção de Estudos Pedagógicos – Lisboa, 1937.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> O Trabalho Manual na Escola </em>(publicado juntamente com o trabalho anterior) – Cadernos da "Seara Nova" – Lisboa, 1937.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> O Primeiro Ensino (I e II) </em></strong><strong>– sob o pseudónimo de Manuel Soares – Cadernos "Seara Nova" – Secção de Estudos Pedagógicos – Lisboa, 1938.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> A Iniciação do Cálculo </em>– sob o pseudónimo de Manuel Soares – Cadernos da "Seara Nova" – Secção de Estudos Pedagógicos – Lisboa, 1939.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> Modernas tendências da Educação </em></strong><strong>– Biblioteca Cosmos (n.º 21) – 1ª Secção (Ciências e Técnicas), n º 9 – Ilustrações de Ilda Moreira – Lisboa, 1942.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> A Psicologia do Desenho Infantil </em>– Edição da Associação Feminina Portuguesa para a Paz – Gráfica Lisbonense – Lisboa, 1942.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> Educação </em></strong><strong>– Palestra proferida no salão do "Grupo dos Modestos", do Porto, na noite de 20 de Janeiro de 1944 – Cadernos da "Seara Nova" – Lisboa, 1944.</strong></span></li> </ol> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt;"><strong>Colaboração na "Revista Escolar"</strong></span></p> <ol style="text-align: justify;"> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> Brinquedos e Jogos Educativos </em>– julho de 1925, n º 7, pág. 257 e seg.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> Vida escolar de Crianças de Cinco Anos e Meio a Sete </em></strong><strong>(de colaboração com Ilda Moreira) – Abril de 1926, n º 4, pág. 157 e seg. e Julho de 1926, n º 7, pág. 278 e seg.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> A Escola Atraente </em>– Dezembro de 1926, n º 10, pág. 405 e seg.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> Ler </em></strong><strong>– Junho e Julho de 1927, n º 6 e 7, pág. 253 e seg.</strong></span></li> </ol> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt;"><strong>Colaboração na "Revista Portuguesa"</strong></span></p> <ol style="text-align: justify;"> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> Sociedades formadas de leitores e de comentadores das ideias que lhes interessem </em>– Ano (1934 – 1935) – n º 16, 24 de Janeiro de 1935, pág. 263.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> As nossas emissões radiofónicas </em></strong><strong>– Palestra realizada na Emissora Nacional em 22 de Março de 1935 – Ano I(1934-35) – n º 25, 28 de Março de 1935, pág. 464, 465.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> A radiofonia e a criança </em>– Ano I (1934-35) – n º 47, 29 de Agosto de 1935, pág. 838, 839.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> O Evangelho de S</em></strong><strong>. <em>Mateus</em>– Ano II (1935-36) – n º 58, 21 de Novembro de 1935, pág. 55, 56.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> A Visita Inspcetoral </em>– Ano II (1935-36) – n º 66, 16 de Janeiro de 1936, pág. 97, 98.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> Aquele ponteiro era um símbolo </em></strong><strong>– Ano II (1935-36) – n º 77, 2 de Abril de 1936, pág. 165.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> Exposições Escolares </em>– Ano II (1935-36) – n º 90, 2 de Junho de 1936, pág. 263, 264.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> Rápidas Considerações </em></strong><strong>– Ano II (1935-36) – n º 96, 13 de Agosto de 1936, pág. 313, 314.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> A Adaptação à escolaridade </em>– Ano II (1935-36) – n º 100, 10 de Setembro de 1936, pág. 339, 340.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> Educação e Assistência </em></strong><strong>– Ano II – (1936-37) – n º 107, 5 de Novembro de 1936, pág. 37, 38.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> A Psicologia do Desenho Infantil </em>– n º 792, de 17 de Outubro de 1942.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> Prévios pensamentos sobre as formas de tentar conhecer e dirigir a educação em Portugal </em></strong><strong>– n º 949, de 20 de Outubro de 1945.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> A Roda de Crianças e de Escolas </em>(Palestra proferida em Leiria e Santiago do Cacem) n º 951, de 3 de Novembro de 1945.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> A Roda de Crianças e de Escolas</em></strong><strong>(Conclusão) – n º 955, de 1 de Dezembro de 1945.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> Comemorando a Fundação da Primeira Escola da Sociedade "A Voz do Operário" </em>– (Palestra) – n.º 1031, de 3 de Maio de 1947.</span></li> </ol> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt;"><strong>Colaboração na "Seara Nova"</strong></span></p> <ol style="text-align: justify;"> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> Transformemos a escola </em>– artigo- n º 164, 6 – VI, 1929.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> E (ureau), I (nternational), (de) E (ducação) </em></strong><strong>– artigo n º 198, 30 – I, 1930.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> A Técnica </em>– n º 489, de 29 de Outubro de 1936.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> Ler, escrever e contar </em></strong><strong>– n º 492, de 17 de Dezembro de 1936.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> Auxílios intelectuais ao professor </em>– n º 494, de 21 de Janeiro de 1937.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> Escolas </em></strong><strong>– <em>Breve capítulo de um longo relatório</em>– n º 521, de 7 de Agosto de 1937. </strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> Froebel e Montessori </em>– n º 524, de 28 de Agosto de 1937.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> O Trabalho Manual na Escola </em></strong><strong>– conferência – n º 529, de 2 de Outubro de 1937.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> O Trabalho Manual na Escola II </em>– n º 530, de 9 de Outubro de 1937.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> O trabalho Manual na Escola III </em></strong><strong>– n º 531, de 16 de outubro de 1937.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> O primeiro Ensino I </em>– tradução; (autor: F. Brill) – n º 544, de 15 de Janeiro de 1938.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> O primeiro Ensino II </em></strong><strong>– tradução; (autor: F. Brill) – n º 547, de 5 de Fevereiro de 1938</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> O primeiro Ensino III </em>– tradução; (autor: F. Brill) – n º 548, de 12 de Fevereiro de 1938.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> O primeiro Ensino - </em></strong><strong>de F. Brill; nova série sobre a escola de Bastony – n º 570, de 16 de Julho de 1938.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> O primeiro Ensino I</em>(de F. Brill) – n º 575, de 20 de Agosto de 1938.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> O primeiro Ensino II</em></strong><strong>(de F. Brill) – n º 576, de 27 de Agosto de 1938.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> O primeiro Ensino III</em>(de F. Brill) – n º 579, de 17 de Setembro de 1938.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> O primeiro Ensino IV</em></strong><strong>(de F. Brill) – n º 581, de 1 de Outubro de 1938.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> O primeiro Ensino V</em>(de F. Brill) – n º 587, de 12 de Novembro de 1938.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> A Iniciação ao Cálculo I </em></strong><strong>– n º 630, de 9 de Setembro de 1939.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> A Iniciação ao Cálculo II </em>– n º 635, de 14 de Outubro de 1939.</span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><strong><em> A Iniciação ao Cálculo III </em></strong><strong>– n º 640, de 18 de Novembro de 1939.</strong></span></li> <li><span style="font-size: 10pt;"><em> A Iniciação ao Cálculo IV </em>– n º 647, de 6 de Dezembro de 1939.</span></li> </ol> <p style="text-align: justify;"> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:24353 2019-02-16T14:50:00 O Sujeito e o tempo - Ainda tenho uma hora minha? (Sara Barbosa sobre Irene Lisboa) 2019-02-16T15:02:26Z 2019-02-16T15:02:26Z <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="SARA.jpg" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B8917a5a5/21355827_zWaeH.jpeg" alt="SARA.jpg" width="348" height="500" /></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Hoje divulgamos uma obra acabadinha de sair sobre a poesia de Irene Lisboa. Uma obra que poderá ser muito útil aos alunos, professores e interessados pela poesia desta autora maior da literatura portuguesa. A segunda parte do título é um verso de Irene Lisboa. O prefácio da Prof.ª Dr.ª Paula Morão. O texto de Sara Barbosa, já uma amiga da nossa terra, Arruda dos Vinhos.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Ainda tenho uma hora minha?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Irene Lisboa,</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;"><em>Um dia e outro dia...</em></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <h2 style="text-align: center;"><span style="font-size: 18pt;"><em>O Sujeito e o Tempo - ¿Ainda tenho uma hora minha?</em></span></h2> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;"><strong>Sinopse</strong> (das Edições Colibri) :</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">“O presente estudo ocupa-se de temáticas relevantes e das linhas de força que se destacam dos poemas incluídos nos livros editados por Irene Lisboa (1892-1958) na década de 30 do século XX: Um dia e outro dia… (1936) e Outono havias de vir (1937). Pautando-se a obra ireniana pela unidade e pelas recorrências temáticas e estilísticas, bem como pela valorização do inacabado e do trabalho de depuração da linguagem, considera-se importante o estabelecimento de alguns nexos entre os volumes em análise e outros textos da autora. Procura-se demonstrar a relação entre tempo e memória, juntando-lhe as reflexões sobre a escrita, e, nesta, a aproximação à forma diarística e aos códigos da autobiografia, o uso do fragmento e a referência às tarefas diárias, repetitivas e banais, assim como a representação de um sujeito em diálogo e confronto consigo mesmo e com os outros, com a amizade e com o amor (ou com o desamor), com a vida e com a morte. Estudam-se, nomeadamente, os processos retóricos que, na poesia de Irene Lisboa, representam um sujeito auto consciente e consciente da temporalidade que o sustenta. Considerando que se trata da representação de um discurso produzido por um sujeito-mulher, propõe-se que este factor deva ser tido em conta ao observar a voz poética desta escritora.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">"A autora salienta neste estudo outros pontos da maior relevância. Interroga os limites do sujeito-mulher que assume a fala, e para tal percorre rapidamente o que ensaístas diversos e diversas vêm propondo para uma crítica séria desta questão, a qual se presta a confusões e a simplificações. Paralela a esta decorre a linha temática que se aproxima dos problemas do género literário – não só a poesia, mas modalidades desta como o verso longo ou a deriva da consciência e do monólogo interior, ou ainda a tradição do fragmento, tudo pontos muito relevantes para tratar as fronteiras do diarismo e da escrita do eu (do eu feminino) em Irene Lisboa. [Paula Morão, no prefácio.]</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">"Em Irene Lisboa, a escrita é frequentemente encarada como uma forma de autognose, através de uma auto-contemplação e de uma auto-análise conscientes: “Eu escrevo porque busco mas não encontro. Busco a ilusão, recolho-me a contemplação introvertida, não ao labor interessado, com regra. Contemplo-me como se olhasse água, água fugidia, que nada guarda”. Como consciente é a necessidade de registar o tempo que passa, a “água fugidia, que nada guarda” a não ser que se fixem as suas marcas, isto é, que as imagens que o sujeito observa sejam, de alguma forma, inscritas.”</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><strong>Índice:</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Prefácio, por Paula Morão </span></p> <ol style="text-align: justify;"> <li><span style="font-size: 12pt;">O curso dos rios refaz-se sempre, teimosamente – Memória a memória se representa a vida </span></li> </ol> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">1.1. Não sei por onde hei-de começar </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">1.2. Mundo que eu desconheço – Escolhe-se ou é-se escolhida?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">1.3. Que é um corpo? – Aproximação </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">1.4. Um pedacinho do rio cintila – Unidade e fragmentarismo na escrita de Irene Lisboa </span></p> <ol style="text-align: justify;" start="2"> <li><span style="font-size: 12pt;">Um dia e outro dia… Diário de uma mulher (1936) e Outono havias de vir latente triste (1937) – Em busca do seu tempo pessoal (ou como aceder a um mundo interior) </span></li> </ol> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">2.1. Tal qual como quem passa as contas de um rosário… O registo diarístico. O sujeito e o tempo da escrita</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">2.2. Voltar atrás para me socorrer… A memória, o passado </span><br /><span style="font-size: 12pt;">2.3. Só porque alguém me esperava… Tempos e afectos: amor, desamor, amizade </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">2.4. ¿Mas como se há-de morrer, sentindo-se a vida? Pulsão de morte, pulsão de vida</span></p> <ol style="text-align: justify;" start="3"> <li><span style="font-size: 12pt;">Toda a obra acabada devia ser enterrada…? </span></li> <li><span style="font-size: 12pt;">Bibliografia </span></li> <li><span style="font-size: 12pt;">Apêndice </span></li> </ol> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt;">AUTORA:</span><br /><span style="font-size: 10pt;">SARA MARINA BARBOSA, natural de Santarém (1966), é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Português – Francês e Ramo Educacional, pela Faculdade de Letras da Universidade Lisboa e mestre em Literatura Portuguesa pela mesma Universidade. Membro do Centro de Estudos Comparatistas, onde integra o projecto "Textualidades", desenvolve projectos na área da escrita de autoria feminina e da auto-representação. É professora do Ensino Básico e Secundário em Sintra.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:24124 2018-12-29T16:52:00 Desta saloia, Cuspida da terra - Irene Lisboa 2018-12-29T17:08:00Z 2018-12-29T17:08:00Z <p> </p> <p class="sapomedia videos"><span style="font-size: 12pt;">Vídeo da exposição "Desta saloia, cuspida da terra", outubro de 2018, Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos. Uma das muitas atividades que assinalaram os 60 anos da morte de Irene Lisboa.</span></p> <p class="sapomedia videos"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/FQ64yxS6zho?feature=oembed" width=" 480" height="270" frameborder="0" style="padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:23864 2018-12-24T19:54:00 Afrodite, Irene Lisboa 2018-12-24T19:55:31Z 2018-12-24T19:55:31Z <div class="ui-btn left"> <div class="pequeno12"> </div> <img src="https://www.escritas.org/autores/irene-lisboa.jpg" /></div> <div class="gap"> </div> <div class="center">Formosa.<br />Esses peitos pequenos, cheios. <br />Esse ventre, o seu redondo espraiado! <br />O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido <br />das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado, <br />as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo, <br />o coto de um braço, o tronco robusto, a linha <br />cariciosa do ombro... <br />Afrodite, não chorei quando te descobri? <br />Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia <br />e de Roma! <br />Tantas figuras graves, de gestos nobres e de <br />frontes tranquilas, abstractas... <br />Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necró- <br />pole. <br />Era uma assembleia de amáveis espíritos, divaga- <br />dores, ente si trocando serenas, eternas e nunca <br />desprezadas razões formais.<br /><br />Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo... <br />O descanso desse teu gesto! <br />A perna que encobre a outra, que aperta o corpo. <br />A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre. <br />E um fumo, uma impressão tão subtil e tão pro- <br />vocante de pudor, de volúpia, de reserva, de <br />abandono... <br />Já passaram sobre ti dois mil anos?<br /><br />Estranha obra de um homem! <br />Que doçura espalhas e que grandeza... <br />És o equilíbrio e a harmonia e não és senão corpo. <br />Não és mística, não exacerbas, não angústias. <br />Geras o sonho do amor.<br /><br />Praxíteles. <br />Como pudeste criar Afrodite? <br />E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de <br />a vencer, gozar! <br />Tinha de assim ser. <br />Eternizaste-a! <br />A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne...</div> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:23644 2018-11-12T09:08:00 Semana Irene Lisboa - Externato João Alberto Faria 2018-11-12T09:09:32Z 2018-11-12T09:09:32Z <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="Slide1 Convite.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ba7173810/21237306_EFECt.jpeg" alt="Slide1 Convite.jpg" width="500" height="375" /></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:23390 2018-11-03T14:20:00 Pesadelo de uma manhã de agosto, de Irene Lisboa 2018-11-03T14:24:13Z 2018-11-03T14:24:13Z <p class="sapomedia videos"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/QvSgOnQKJa4?feature=oembed" width=" 480" height="270" frameborder="0" style="padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p> <p> Com a belíssima voz de Daniela Azevedo.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:23173 2018-11-02T16:42:00 Coisas da terra 2018-11-02T16:48:55Z 2018-11-02T16:48:55Z <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="Odexeixe.jpeg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/P5e17c2d6/21225421_1WYj2.jpeg" alt="Odexeixe.jpeg" width="260" height="187" /></p> <p><span style="font-size: 12pt;">A Engrácia e a mãe</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">chegaram numa tarde de domingo.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">A Engrácia é minha sobrinha</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">a mãe,</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">que eu ainda só vira duas vezes,</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">minha irmã.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Minha irmã...</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">uma pobre mulher,</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">uma simpática desconhecida</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">que vem ao hospital</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">ver o seu marido.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;"> </span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Esta é a minha gente.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Penso da mulher:</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Parecemo-nos.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Temos os mesmos olhos e boca,</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">o mesmo nascimento de cabelos.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;"> </span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Oito filhos teve já a minha irmã.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Uma filha que lhe morreu</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">levou o meu nome.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;"> </span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Este mistério que eu sou!</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Filha de outro pai,</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">noutra terra criada,</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">lá vivida!</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;"> </span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Dou pão com manteiga à Engrácia,</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">que não diz nada.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">A mãe fala.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">É o campo toda ela,</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">o seu cheiro até</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">e a sua resignação.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Conta coisas do António,</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">o meu sobrinho mais velho,</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">com o seu exame feito</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">e tão amigo de ler...</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Mãe! coitada, penso.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Oiço-a,</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">esquecida do nosso parentesco.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">As duas ali estão:</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">a criança vestidinha à cidade,</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">a mulher humilde e amável.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Tudo tão natural e pobre!</span></p> <p> </p> <p><span style="font-size: 10pt;">Irene Lisboa</span></p> <p><span style="font-size: 10pt;">[Publicado na <em>Seara Nova, nº 648</em>,</span></p> <p><span style="font-size: 10pt;">13 de Janeiro de 1940,</span></p> <p><span style="font-size: 10pt;">sob o pseudónimo João Falco]</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:22979 2018-10-28T13:56:00 Novembro, mês Irene Lisboa em Arruda dos Vinhos 2018-10-28T14:15:28Z 2018-10-28T14:51:29Z <p class="sapomedia images" style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No próximo dia 25 de novembro de 2018, faz 60 anos que morreu Irene Lisboa. Sobre este acontecimento triste, mas pouco notado pelo povo que a autora tanto cantou, José Gomes Ferreira escreveu:</span></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"> </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>"Luto. 26 de novembro de 1958.</em></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Enterro de Irene Lisboa. Cemitério da Ajuda. Poucos acompanhantes, mas todos imersos nessa profunda cerimónia religiosa do Silêncio, onde os ateus e os agnósticos tanto sentem o princípio do Tudo e do Nada.</em></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Nenhuma necessidade de provarmos que estávamos vivos, com palavras ou lágrimas.</em></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Só o rasto do ruído dos pés na terra atrás do caixão. O pequeno e discreto choro da Terra..."</em></span></p> <p><span style="font-size: 10pt;"><strong>Ferreira, José Gomes,</strong></span></p> <p><span style="font-size: 10pt;"><em>Imitação dos dias: Diário inventado</em>,</span></p> <p class="sapomedia images"><span style="font-size: 10pt;">Lisboa: Portugália Editora, 1970, p. 97.</span></p> <p class="sapomedia images"> </p> <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="Cartaz EJAF-cópia.png" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B8c17ed11/21217755_fvQkN.png" alt="Cartaz EJAF-cópia.png" width="334" height="500" /><img style="padding: 10px 10px;" title="Cartaz Câmara.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B0117f31c/21217761_ytaLu.jpeg" alt="Cartaz Câmara.jpg" width="354" height="500" /></p> <p> </p> <p><span style="font-size: 12pt;">Por isso...</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;"> </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>"Descansa, Irene, a dos “olhos vigilantes”. Hão de ler-te até ao fim da língua portuguesa, cada vez mais viva e alargada pelo mundo em pátrias novas."</em></span></p> <p> </p> <p><span style="font-size: 10pt;"><strong>José Gomes Ferreira</strong>,</span></p> <p><span style="font-size: 10pt;">“Breve introdução à obra de Irene Lisboa”,</span></p> <p><span style="font-size: 10pt;">Vol. 1 (Poesia I, 1991), de Irene Lisboa,</span></p> <p><span style="font-size: 10pt;">Editorial Presença, 1978, p. 30.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:22703 2018-09-04T11:54:00 O MEU NOIVO, de Irene Lisboa 2018-09-04T11:01:07Z 2018-09-04T11:01:07Z <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="Praia.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Pfc147b60/21158992_Jkrtj.jpeg" alt="Praia.jpg" width="260" height="219" /></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Acreditem-me ou não, tanto faz, mas isto passou-se assim:</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Estava eu ao pé da costureira e pedi-lhe uma agulha. Não, ela é que ma pediu a mim e eu levantei-me e fui buscar o meu agulheiro. Ofereci-lho, dizendo: olhe que está aí um cento de agulhas, que tal?</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">É uma riqueza, foi como ela me respondeu.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Salta logo dali o meu irmão: é mentira!</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">É mentira? — pergunto-lhe eu indignada.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">É mentira e é mentira e é mentira!</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Meu grande malcriado!</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Não são agulhas, são soldados, diz-me ele.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Desatei a rir e desenrosquei o meu agulheiro. Eu a tirar as agulhas e o João a gritar: ena, tanto soldado! Não fiz caso do que ele dizia e volto-me para a mu­lher.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Conta-me uma história?</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Ainda é menina de história? respondeu-me ela. E eu corei.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Então cante-me uma cantiga.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Uma cantiga?</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Tornei a corar. A costureira troçava-me, já se sabe. Disfarcei então e pus-me a falar de fatos. Gostava de ter um muito lindo e muito comprido...</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Para ir ao baile? diz-me ela.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Isso mesmo, para ir ao baile, respondo-lhe eu. Faz-me um assim?</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Porque não hei de fazer? E riu-se. Eu ri-me também.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Passaram naquele momento dois rapazes a cavalo e eu fui vê-los à janela, Vai um, atira-me uma flor que trazia na boca. Apanhei-a no ar. Volto-me para a mulher, en­vergonhada. Ela riu-se outra vez.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Estou noiva, disse-lhe eu.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Parece-me que sim. E desatamos ambas à gargalhada.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Conhece-os? perguntei-lhe eu.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Muito bem. Um é Julião e o outro Jerónimo.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">O meu noivo é o Jerónimo. Casaremos para o ano. A senhora quer fazer o meu enxoval?</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Então não havia de querer? respondeu-me a costu­reira.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Um enxoval lindo, que eu tudo mereço!</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Pois...</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Mal sabia ela!</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Isto foi num dia, num dia... de Abril ou de Maio. Havia já muitas rosas. Depois, quantas vezes tornou Jerónimo a passar, a pé e a cavalo?</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">O certo é que nos vamos casar. Dizem que ainda sou muito nova, mas se eu gosto tanto dele!</span></p> <p> </p> <p><span style="font-size: 10pt;">Irene Lisboa, </span></p> <p><span style="font-size: 10pt;"><em>Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma</em></span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:22519 2018-08-24T14:58:00 Vídeo apresentado em novembro de 2017, Colóquio Irene Lisboa 2018-08-24T14:00:35Z 2018-08-24T14:00:35Z <p class="sapomedia videos"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/PLnRe-F0UG8?feature=oembed" width="480" height="270" frameborder="0" style="padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:22023 2018-08-23T11:32:00 Conto de Irene Lisboa 2018-08-23T10:44:41Z 2018-10-11T15:07:07Z <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="IL2.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B6a09fb46/21141470_atSW5.jpeg" alt="IL2.jpg" width="500" height="375" /></p> <p> </p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 14pt;"><strong>Agulhas e Alfinetes</strong></span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Irene Lisboa</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Eu estava a um canto... Quem assim fala é uma pena de escrever. Naquela casa tinham-me dado por serviço assentar algarismos. Haverá pior serviço neste mundo? E então com uma tinta envinagrada...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O trabalho não me matava, valha a verdade, mas era aborrecido. Derreava-me por onde calhava. Por felici­dade não me faltavam parceiras para o cavaco, e ouvia também muita coisa. Naquela casa tudo falava: agulhas e alfinetes, botões e cadeiras...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">De uma vez, uma agulha muito esbelta, longa, toda vestida de linhas, mas sem ter nada que fazer, uma rica mandriona! — falou que se fartou, pelos cotovelos, como se costuma dizer.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A vaidosa! Sim, senhores, o fôlego que uma agulhinha pode ter! Ainda me parece estar a ouvi-la: Vocês não sabem e vocês não viram... toda virada para uma banda de alfinetes, feitos basbaques. Eram uns simples.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O tempo, fazem lá uma ideia! Estava uma lindeza! (Eles, calados, e ela: truz, truz, truz...) Bem se vê que vocês ainda nunca saíram desse papel! Pois as minhas ami­gas disseram-me assim: vamos passear? Eu respondi logo: e é já! Mal disse isto, saltámos todas da janela abaixo, Ou, por outra, como todos nós estávamos enfiadas em seda, escorregámos pelos nossos fios abaixo. E caímos num jardim. Os nossos namorados, que eram uns elegantíssi­mos alfinetes, armaram pulo atrás de nós e caíram-nos também aos pés. Esses, oh! esses, sim.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Vamos, o tempo é de oiro! — disse eu, regalada e orgulhosa.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">É de oiro e é de prata e é de cristal... era a ver quem sabia dizer mais finas coisas.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Rosas e abelhas por todos os lados, vocês não fazem uma ideia! Passarinhos a cantar, a brisa a soprar, os repu­xos do jardim a saltar... só lindezas.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Esta hora é única! — torno eu. E todos me felicita­ram, repetindo: única!</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">As agulhas iam à frente, os alfinetes atrás. Eles chama­vam-nos rainhas e deusas. Nós sentíamo-nos tontas. Parece que o cheiro dos cravos e das rosas nos subia à cabeça. Os nossos namorados, cada vez mais excitados, diziam muitas tolices, muitas coisas engraçadas. Nós já íamos da cor das papoilas. Pudera! Então eu, que tenho sempre ideias, lembrei-me de segredar às outras: e se agora fugíssemos?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Vamos lá fugir, repetiram todas elas baixinho. Eles, atrás de nós, sempre naquelas murmurações de amor, não desconfiaram de nada.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Eu volto-me então para o meu e digo-lhe:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Ó fulano, vai-me já, já buscar uma gota de orvalho.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Ó fulano, diz outra, traz-me umas folhinhas de jasmim.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E cada qual se desembaraçou do seu pajem como pôde.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Eles a correr só pareciam uns sopros.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Carros, minhas amigas, carros! Precisamos de carros... gritei eu.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Por encanto apareceram-nos logo ali os carros. Lem­bro-me tão bem do meu! Era muito leve e tinha rodas de malmequeres. Atrelei-lhe um gafanhoto e eu pró­pria o guiava. Ia pelos ares, só visto!</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Houve algumas que se demoravam, não havia meio de se decidirem, e deram tempo a que os alfinetes voltas­sem. As tolas só queriam carros pesados, para fazerem mais vista, puxados por muitas parelhas de vespas... Os namorados apanharam-nas, pudera não! Os alfinetes, lá garbosos eram, montaram então em espigas Zzzzzzz... era o que se ouvia por aqueles prados fora.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Na praia encontrámo-nos todos e tratámos de nos apear. Os nossos namorados riam muito e inventavam gracejos para nós nos rirmos também. Estavam inspira­dos. Parece que é um efeito do mar.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Nós, já muito chegadinhas a eles, íamos trocando o sentido a tudo. Até o mar, que tem uma voz triste, nos parecia alegre. A espuma vinha-nos saltar aos pés. Foi um dia maravilhoso! O meu alfinete a falar só parecia um livro aberto. Dizia coisas tão belas!</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Eu admirava-o em silêncio.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Pérolas, pérolas... não querem lá ver?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Foi o que me valeu porque já ia transtornada.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Andavam pérolas a passear à babugem das águas e nós parámos para as contemplar.</span><br /><span style="font-size: 12pt;"> Minhas senhoras e meus senhores, disseram-nos então elas, não querem vir dar uma volta nas nossas conchas?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Que amabilidade!</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Agradecemos-lhes muito, mas desculpámo-nos: era perigoso, podíamos enferrujar...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Os alfinetes consultavam-se uns aos outros, pesarosos. Se ao menos houvesse por ali palhas, cascas de nozes, embarcações secas! Mas nada daquilo havia nas imedia­ções e tivemos de nos conformar.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Foram-se embora as pérolas e os nossos namorados deitaram-se de bruços na areia. Iam fazer versos. Vai eu, de que me hei-de lembrar? Ofereço ao meu uma porção de conchinhas nacaradas. Ele beija-as e começa logo a escrever nelas:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Eu era quem não era... Silfo e estrela e rosa... A inveja do mar, do Sol e da Lua... Mas a minha alma era de aço. Etc.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Depois das conchinhas cheias, roja-mas aos pés. Eu apanho-as e sorrindo começo a cantar. Os versos que lá estavam escritos, já se sabe.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Foi quando as minhas companheiras, para ver se eu me calava, propuseram a subida a um monte.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Porque não? É já!</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Tornaram as damas a formar uma carreira com os cava­lheiros atrás. Com o sol na garganta, que é de todas as notas a mais brilhante e vigorosa, rompo a marcha. Eles e elas faziam coro. As ervilhas do chão até suspiravam. Subir sempre deu glória, e é de bom agoiro.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Chegámos, brada o meu alfinete.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Que frescura, que delícia, é o Evereste! — exclamam várias vozes. Abraçámo-nos, gritámos...</span><br /><span style="font-size: 12pt;"> Olha que escorregas, ai que me partes, isto está a pedir uma dança... Ninguém já se entendia. Elas corriam, eles perseguiam-nas. Até o meu alfinete me quis tomar pela cinta. Eu defendi-me: lá isso não, pela cinta só no baile...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E o baile logo ali se armou. Dançar foi sempre a minha paixão.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Que lindo par! — diziam os outros alfinetes. E o meu namorado, ao meu ouvido: não hás-de ser costu­reira, minha flor, meu ideal, sejam-no as outras mais grossas.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Que lhe havia de eu responder? Serei rainha se tu fores rei e escrava se... mas calei-me aqui, receosa de o ofender.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A pena, cansada já de tanto escrevinhar, rematou assim: era uma agulha tão vaidosa,</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">tão vaidosa, que por fim até eu lhe cortei o discurso.</span></p> <p> </p> <p><span style="font-size: 10pt;"><em>Uma Mão Cheia de Nada </em></span></p> <p><span style="font-size: 10pt;"><em>Outra de Coisa Nenhuma</em></span></p> <p><span style="font-size: 10pt;"><em>(1955)</em></span></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:21800 2018-08-22T13:33:00 Irene Lisboa: vida e obra 2018-08-22T12:53:39Z 2018-08-22T12:55:24Z <p><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times; font-size: 14pt;">Textos publicados no <em>Jornal Chafariz de Arruda</em>, junho e agosto de 2018</span></p> <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="IL1.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/P6f13b6fd/21140439_PujRu.jpeg" alt="IL1.jpg" width="173" height="260" /></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><strong><span style="font-size: 18pt;">Irene Lisboa</span></strong></span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 14pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><strong>Parte 1: Vida</strong></span></p> <p><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Por Jorge da Cunha</span></p> <p><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><strong> </strong></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Durante o presente ano, e depois quando for oportuno, a começar já com este texto e o seguinte, que servirão de introdução, o tema a abordar será Irene Lisboa, uma vez que, este ano, se assinalam os 60 anos da sua morte.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Assim, começaremos por apresentar umas breves notas bioblibliográficas desta autora, que foi considerada pelos grandes escritores, poetas e académicos portugueses como uma das maiores escritoras do século XX. José Gomes Ferreira, em 1978, na “Breve introdução à poesia de Irene Lisboa”, referiu em letras maiúscula, como se gritasse: “PARA MIM É A MAIOR ESCRITORA DE TODOS OS TEMPOS PORTUGUESES”. Também Manuel Poppe, jornalista do <em>Diário Popular</em>, em 23 de novembro de 1973, escreveu: “Lembro-me muitíssimo bem de ouvir a José Régio o seguinte comentário acerca de <em>Voltar atrás para quê?</em>: ‘Se esta mulher se chamasse Tchekhov, o seu livro impunha-se em qualquer parte do mundo!’ Se esta mulher se chamasse Tchekhov...” Ora, não se chama Tchekhov, mas Irene Lisboa. Por isso, convido-vos a conhecê-la um pouco melhor.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Irene do Céu Vieira Lisboa nasceu no dia de Natal de 1892, no casal da Murzinheira, Arranhó, concelho de Arruda dos Vinhos. Este casal e a Quinta de Monfalim eram propriedade da sua madrinha, D. Maria Guilhermina. Ali viveu com a sua mãe, Maria Joaquina (17 anos) até aos três anos. Depois, foi levada para Monfalim, com a irmã Rita, onde vivia a madrinha e o pai, Luís Emílio Vieira Lisboa (62 anos). Aos seis anos entra no Convento do Sacramento, em Lisboa. Da mãe, pouco mais se soube, apenas que deixou mais 4 filhos: Romana, Vitória, José Mateus e António. No Colégio do Sacramento, esteve Irene até ao 11 anos, frequentando depois, até aos 13, o Colégio Inglês. Em 1905, o pai juntou-se com D. Maria da Saudade, de quem teve 6 filhos. Os dois anos seguinte foram dramáticos para Irene Lisboa. Foi tirada do colégio e levada para Monfalim. Esteve quase ao abandono. Aos 15 anos, foi viver com a madrinha para Lisboa e entrou no Liceu Maria Pia. Aqui conheceu Ilda Moreira, de quem foi amiga o resto da vida. Em 1911, ingressou na Escola Normal Primária de Lisboa, onde tirou o curso de professora. Em 1915, terminou o curso da Escola Normal. Em 1920, Irene e Ilda tomaram posse de duas turmas de ensino infantil na Escola da Tapada na Ajuda. Os alunos, muito pobres, tinham entre 5 e 7 anos. Estas duas classes, pioneiras do ensino pré-primário público em Portugal, serviam de modelo a um ensino moderno e inovador. Entretanto, em 1929, Irene Lisboa foi, como bolseira, para Genebra estudar psicologia e pedagogia. Esteve ainda em Bruxelas e Paris a estudar metodologias pedagógicas. Regressou a Lisboa em 1932. Em virtude de terem sido extintas as secções infantis, em 1936, Irene concorreu ao lugar de Inspetora para o Ensino Infantil, tendo ficado com o lugar de Inspetora-Orientadora em itinerância. Por ter sido demasiado inovadora para as mentes pequenas de então, Irene Lisboa foi, primeiro, transferida para um lugar administrativo na Junta de Educação Nacional; depois, em 1940, com 48 anos, deram-lhe duas opções: ficar com um lugar como professora na Escola Normal de Braga, ou reformar-se. Optou pela segunda situação, recusando o degredo e negando dobrar-se perante um sistema acéfalo, ou não fosse ela Irene Lisboa. Em 1940 visitou a terra da sua infância e adolescência (Arruda e Sobral), ficando numa casa alugada em Monfalim. Foi então que começou a escrever <em>Voltar a trás para quê?</em> Nessas férias, percorreu os lugares, serras e festas e recolheu fragmentos, depois utilizados em muitos dos seus textos. Leia-se, por exemplo, “Férias no campo”, em que a autora nos apresenta um relato de lugares, pessoas e costumes.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">E era a este campo da sua infância, trazido pelo “vento da Murzinheira”, que ela regressava constantemente.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="IL2.jpg" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/P75082c35/21140440_ilb8R.jpeg" alt="IL2.jpg" width="210" height="260" /></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 18pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><strong>Irene Lisboa</strong></span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times; font-size: 14pt;"><strong>Parte 2: Vida (cont.) e obra</strong></span></p> <p> </p> <p><span style="font-size: 10pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Uma procissão é afinal um ato grave, lento e doloroso! Na Arruda, como a procissão saísse pelo entardecer e as ruas fossem estreitas, a multidão soturna e recolhida, subindo devagar, ainda me impressionava mais (Irene Lisboa, <em>Apontamentos, 1943).</em></span></p> <p><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"> </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">No anterior texto, tínhamos ficado no momento da vida de Irene Lisboa em que, passados muitos anos, regressou, de férias, a estas terras encantadas entre Arruda e Sobral.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Este início dos anos 40 do século XX, já reformada sem ainda ter 50 anos, foi de grande produção literária. Foi nestes anos 40 que visitou a Serra da Estrela pela primeira vez, local bastante frequentado pela autora a partir daí. Também os anos 50 foram bastante produtivos a nível literário e o prenúncio do fim desta escritora arrudense. No início desta década, Irene foi operada, pela segunda vez, a um cancro no duodeno no Hospital de São José em Lisboa, nunca deixando de escrever.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">A serra, o campo, a cidade e tudo o que os envolve por dentro, tudo o que é quotidiano, insignificante, nada... foi motivo e reflexão e autorreflexão por parte da autora. Irene Lisboa morreu então numa quarta-feira, no dia 25 de novembro de 1958.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Nos fins dos anos 80 e inícios dos anos 90, do séc. XX, Paula Morão começou a estudar a obra de Irene. Iniciou-se então a reedição da sua obra pela Editorial Presença, com prefácios de Paula Morão.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">No dia 13 de janeiro de 2013, os restos mortais de Irene Lisboa foram trasladados do Cemitério da Ajuda (Lisboa) para o Cemitério de Santo António (Arruda dos Vinhos).</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Em 2014, a obra de Irene Lisboa passa a ser estudada por todos os alunos do Município de Arruda dos Vinhos, desde o pré-escolar ao ensino secundário (com protocolo assinado entre a Câmara Municipal, o Agrupamento de Escolas e Jardins de Infância de Arruda e o Externato João Alberto Faria).</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Em 2018, 60 anos depois da sua morte, a Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos deu inicio à publicação de uma coleção de 6 livros para a infância e juventude com textos, alguns inéditos, de Irene Lisboa. Chamou a esta coleção <em>Contarelos</em>, afinal é o nome da sua primeira obra editada em 1926.</span></p> <p><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"> </span></p> <p><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Bibliografia:</span></p> <p><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Literatura, poesia, crónica...</span></p> <ol> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Treze contarelos</em> (1926)</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Um dia e outro dia... Diário de uma mulher</em> (1936)*</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Outono havias de vir latente triste</em> (1937)*</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Solidão: Notas do punho de uma mulher</em> (1939)*</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Folhas volantes </em>(1940)</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Começa uma vida</em> (1940)*</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Lisboa e quem cá vive</em> (1940)</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Esta cidade!</em> (1942) *</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Apontamentos</em> (1943)*</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma</em> (1955)**</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Voltar atrás para quê?</em> (1956)*</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> O pouco e o muito – Crónica urbana</em> (1956)*</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Título qualquer serve</em> (1958)*</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Queres ouvir? Eu conto</em> (1958)**</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Crónicas da serra</em> (1959)*</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> A vidinha da Lita</em> (1971)</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em> Solidão II</em> (1974)*</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em>Folhas soltas da Seara Nova, 1929/1955</em> – Antologia (Paula Morão)</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em>Rosalina</em> (2018)</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em>O peru voador e Pesadelo de uma manhã de agosto...</em> (2018)</span></li> <li><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"><em>Dizia o rio </em>e<em> Soldado de chumbo... cavalo de pau</em> (2018)</span></li> </ol> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Nota:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Os títulos assinalados com 1 asterisco encontram-se publicados na Presença, com organização e prefácios de Paula Morão; os assinalados com 2 asteriscos também se encontram publicados nesta editora. Os 3 últimos são edições da Câmara Municipal de Arruda e pertencem à coleção <em>Contarelos</em>. Noutra altura, apresentaremos a bibliografia pedagógica da autora.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times;"> </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Estes são apenas alguns pormenores da vida desta mulher invulgar, injustamente esquecida por este confuso tempo cheio de equívocos: uma autora com uma admirável, rara e humanitária obra literária e pedagógica que incomodou o Estado Novo.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">Dando já o mote para o próximo texto, diríamos que a sua obra pedagógica, se fosse estudada, ou apenas lida, continuaria a incomodar as estruturas educacionais nacionais: “A escola não pode ser um meio artificial, conhecendo a vida apenas por meio de livros. A escola deve ser uma parte verdadeira do mundo, em que a criança se possa descobrir a si mesma” (Irene Lisboa (1942), <em>Modernas tendências da educação</em>).</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:21516 2018-07-21T21:10:00 A Gata Borralheira (Adaptação de Irene Lisboa) 2018-07-21T20:17:16Z 2018-07-21T20:17:16Z <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="1.JPG" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/P4e11a8a5/21107707_K1nud.jpeg" alt="1.JPG" width="260" height="195" /></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt;">Esta história tem várias variantes, a mais antiga é chinesa e remonta a 860 a.C. A versão mais conhecida é a de Charles Perrault. Este autor francês do séc. XVII pegou numa história tradicional italiana <em>La gatta cenerentola</em> ("A gata borralheira") e reescreveu-a. No séc. XVIII, os irmãos Grimm fizeram a sua versão a partir da de Perrault, mas substituindo a fada madrinha por pombas e uma árvore. Irene Lisboa apresenta-nos esta versão cheia de ironia, como aliás é habitual na sua escrita. Este texto permanece inédito no espólio guardado pela Arq.ª Inês Gouveia.</span></p> <p>...............................................................................................</p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Era uma vez uma enjeitadinha que foi viver para casa de um lavrador rico.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A rapariga era bonita, mas como não tinha família todos a desprezavam.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O patrão tinha três filhas que nunca punham os pés na cozinha. Mal elas viam a enjeitada lá fora, entravam a gritar:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Já para a cozinha, tição negro, gata borralheira!</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E a pobrezinha, com as lágrimas nos olhos, ia-se esconder ao canto da chaminé.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Mas quando as toleironas estreavam fatos novos ou iam às festas, mandavam-na chamar.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Calça-me! Veste-me! Penteia-me!</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E todas três a ocupavam.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A enjeitadinha não era nada invejosa. Calçava, vestia e penteava as amas e por cima ainda as gabava.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Numa noite em que as foi ajudar, disse-lhe uma delas:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Gata borralheira, tu sabes onde nós vamos hoje?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Eu... não, senhora!</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Vamos ao baile do príncipe. Há de lá cair o poder do mundo.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E disse-lhe outra:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Gostavas de ir, gata borralheira?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Eu gostava, sim, senhora.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Não querias mais nada? Ora a paspalhona! Borralho, borralho, minha rica, para ti borralho.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E disse a terceira:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Hoje é que o príncipe vai escolher noiva.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Estou bonita? Olha, põe-me o laço de oiro.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Saiu toda a gente de casa e só a gata borralheira, muito triste, se deixou ficar ao pé do lume. As lágrimas caíam-lhe pela cara a baixo. Sentia-se a pessoa mais triste deste mundo.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Tanto chorou, tanto chorou que duas lágrimas lhe saltaram para as brasas.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Subiu ao ar um fumozinho e ouviu-se assim uma voz:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Dá-me cá a mão... dá-me cá a mão...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A rapariga levantou os olhos e viu uma figurita ao de cima das brasas. Deu-lhe logo a mão. A figurita saltou para o sobrado e perguntou-lhe:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Sabes quem eu sou?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Não sei.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Sou a fada da alegria. Sim, tu estás sozinha, e eu venho acompanhar-te. Porque é que estás triste?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A gata borralheira contou-lhe a sua vida. E a fada da alegria consolou-a.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Deixa lá – disse-lhe ela. – Também tu hás de ir ao baile.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Eu, ao baile?!</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Sim, tu, e ninguém te há de conhecer.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A fada da alegria foi com a gata borralheira para o quintal e bateu com o pé num carrinho de mão todo escangalhado.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Pois esta carruagem é que te há de levar – disse ela.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Chegou ao pé da coelheira e soltou os coelhos, dizendo:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Cavalos já nós temos. E aquele galo pode ser o cocheiro.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A gata borralheira não abria a boca.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Estás vestida? – perguntou-lhe a fada.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Outro fato não tenho – suspirou a rapariga.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Mas esse está bem. Penteia-te.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A gata borralheira alisou os cabelos, e a fada deu com a varinha de condão no carro, nos coelhos, no galo e no fato velho.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E tudo apareceu transformado.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Que linda carruagem puxada por três parelhas de cavalos brancos! O cocheiro, de libré, fazia um vistão.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O vestido da gata borralheira, todo semeado de estrelas, parecia um céu aberto; os chapins eram de oiro.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Quando ela ia a subir para o carro quis dizer adeus à fada, mas esta já ia a fugir e só lhe disse:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Não fiques para depois da meia noite, é para teu bem...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"> </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Entrou no baile uma princesa que ninguém sabia quem era, nem de onde vinha.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O fato dela luzia como o Sol.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E que lindos modos que tinha! Era tão formosa, tão agradável...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O príncipe só com ela é que quis dançar.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Mas antes de dar a meia-noite, a bela princesa desapareceu.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O baile pouco mais durou. O príncipe ficou tão triste que se retirou logo, e todos os convidados voltaram para suas casas.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Estava a gata borralheira ao pé do lume quando chegaram as amas.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Anda, despacha-te! – gritaram elas.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Gostaram do baile? – atreveu-se a perguntar a gata borralheira.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Muito! Pudera não! Estava lá uma princesa mais linda que os amores. E tão dada! Mas tu não precisas de saber destas coisas. Para ti, borralho, borralho...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Amanhã há outro baile.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">“Eu já sabia”, ia dizer a gata borralheira, mas calou-se a tempo.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Vem o dia seguinte e tornou a gata borralheira a ir preparar as amas.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Enfeita-me bem! – dizia uma.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Enche-me de colares! – dizia a outra.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- E para mim o regador de brilhantes! – dizia a terceira.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Saíram todos de casa, e a gata borralheira, coitadinha, foi chorar para o pé do lume.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Saltaram-lhe duas lágrimas para as brasas e apareceu-lhe logo a fada da alegria.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A gata borralheira deu-lhe a mão e a fada perguntou-lhe:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Queres ir ao baile, não queres?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A rapariga fez com a cabeça que sim.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Então, anda.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Encaminharam-se as duas para o quintal e a fada soltou os coelhos e o galo, mais adiante encontrou o carro. Deu com a varinha de condão nestas coisas todas e no fato da gata borralheira e disse:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Vê lá se ficas para depois da meia-noite...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A gata borralheira entrou para a carruagem e partiu.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"> </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Desta vez é que a princesa parecia linda! Todos a admiraram. O fato dela era como um jardim. Tinha flores de todas as qualidades.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E que bem que ela cumprimentava e fazia as vénias!</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Estava talhada para rainha, ninguém o duvidava.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O príncipe só com ela é que dançou.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Mas ao dar da meia-noite a princesa desapareceu.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O baile pouco mais durou.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">As amas da gata borralheira chegaram a casa e começaram logo:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Que é do tição negro? Que é da gata borralheira?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A gata borralheira foi despi-las, e disse-lhe uma:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Se tu a visses hoje!</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Levava um vestido de flores – disse-lhe a outra.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Até cheirava – acrescentou a terceira.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Quem me dera vê-la! – disse a gata borralheira.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E as três amas puseram-se à gargalhada.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Borralho, borralho, minha rica, para ti borralho... e estás com sorte.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No terceiro dia ainda havia de haver outro baile.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A gata borralheira foi vestir as amas.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Lava-me essas mãos – gritou uma delas. – Ontem mascarraste-me.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A rapariga demorou-se um bocadinho e quando apareceu levou uma bofetada.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Pôs-se logo a tremer e a chorar.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Olha que me picas!</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E, zumba, outra bofetada.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Quando as amas saíram, a pobrezinha foi a soluçar para o pé do lume. Deixou cair duas lágrimas nas brasas e a fada da alegria apareceu-lhe.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Dá-me cá a mão... dá-me cá a mão... e não chores.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A gata borralheira deu-lhe a mão, e as duas foram para o quintal.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A fada soltou logo os coelhos e o galo e pôs-se à procura do carrinho. Deu com a varinha de condão em tudo isto e no fato da rapariga e foi-se embora. Mas antes disse:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Não fiques para depois da meia-noite, vê lá o que fazes...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A gata borralheira riu-se e subiu para a carruagem.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Entrou a princesa no baile e todos ficaram de boca aberta. Assim é que ainda ninguém tinha visto nada! O fato dela fazia ondas como o mar e estava todo salpicado de peixes, mas eram de prata e de oiro.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Onde seria o reino de uma princesa tão rica e tão bela?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Até o príncipe estava intrigado. Toda a noite dançou com ela e, por fim, ia a falar-lhe em casamento.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Nisto começou a dar as badaladas da meia-noite.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A princesa fugiu de repente. Mas com a pressa deixou cair um dos chapins.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Pobre dela! Chegou ao pátio e já não viu a sua bela carruagem. Só viu os coelhos a fugir e o galo a dar às asas. Tropeçou numa coisa... era o carrinho de mãos. Pôs a mão na saia e sentiu que era a sua saia velha.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Ainda ela ia pela estrada fora, quando viu passar as amas.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Que é que tu por aqui fazes? De onde é que tu vens? – perguntaram-lhe elas, muito admiradas.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Venho do baile...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Do baile? Ó rapariga, tu estás doida?! Que é que tu tinha que fazer no baile?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Fui espreitar a tal princesa... gostava de a ver nem que fosse uma só vez.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Ela já saiu, não penses nisso. E perdeu um chapim, coitada. Hoje é que ela ia linda! Mas não é para olhos como os teus se lhe porem em cima...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Voltou a gata borralheira para a sua vida de borralho. Lavava tachos em todo o santo dia, partia as vides e espevitava o lume! Parecia uma carvoeira, de enfarruscada que andava.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Mas de uma vez apareceu à entrada da cozinha um criado do rei. Olhou para dentro e perguntou assim:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Há ainda mais alguma mulher nesta casa?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Há ali a moça do borralho – responderam as amas –, mas nem vale a pena chamá-la.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- O meu senhor ordenou que nem novas nem velhas eu deixasse de convidar. – E o criado do rei encaminhou-se para a gata borralheira.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- A menina experimente lá este chapim.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- À gata borralheira é que ele há de servir! – exclamam as três amas, mortas de riso.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Anda, calça-o, que tu é que deves ser a princesa...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A gata borralheira sentou-se no chão e calçou o chapim, depois tirou outro igual da algibeira e calçou-o também.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O criado do rei cumprimentou-a com muito respeito e convidou-a para o acompanhar ao palácio.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Mas as donas da casa entraram em dar gritos e a opor-se e a gata borralheira começou a chorar.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Saltaram-lhe duas lágrimas para o lume e a fada da alegria apareceu.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A rapariga deu-lhe logo a mão, e ela disse-lhe:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Minha querida, se tu entrasses assim no palácio, o príncipe não deixava de te receber bem. Ele só de ti é que gosta e não é nada vaidoso. Mas eu quero que tu lhe apareças vestida de noiva.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E deu-lhe com a varinha de condão.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A gata borralheira apareceu logo toda coberta de branco desde a cabeça até aos pés.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Só parecia metida numa nuvem.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E como ainda tinha os olhos marejados de água, dizia toda a gente:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Tão linda! Coitadinha... E ali a viver com aquelas mulheres tão más...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">- Onde é que elas a teriam metido, que nunca ninguém a via?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O príncipe cheio de satisfação por ter achado, enfim, a sua querida noiva, casou logo com ela.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E as amas, que tanto a tinham maltratado, com a vergonha, nunca mais saíram à rua.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"> </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Fim</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:21380 2018-07-15T11:35:00 Irene Lisboa, introvertida? Talvez não... 2018-07-15T10:51:36Z 2018-07-15T17:13:44Z <p style="text-align: justify;"> <img style="padding: 10px 10px;" title="zxcvb.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bab040253/21099854_QQEm1.jpeg" alt="zxcvb.jpg" width="500" height="150" /></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">"A vida dela é que continua misteriosa...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">"Como bem diz a autora da tese [Maria Helena Ribeiro da Cunha], “a personalidade introvertida de Irene Lisboa dificultou um conhecimento mais amplo da sua vida particular, e até mesmo de conhecimentos ligados à sua atividade”.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">"Que sei eu, por exemplo, que fui amigo dela, da vida de Irene Lisboa? E que sabe a Rosalia – para além de lhe ter passado livros à máquina?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">"Nada. Talvez vagamente, como toda a gente, que teve amores com José Osório de Oliveira [filho de Ana de Castro Osório] – história que muito a envergonhava sobretudo nos últimos anos da existência.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">"Nesse capítulo também o José Rodrigues Miguéis me contou uma vez que, entre ele e a Irene, teria havido o esboço de um pequenino romance de amor irrealizado. – Resisti – dizia, feliz. – Estive quase a cair durante uma viagem de comboio (para a Suíça, suponho) mas resisti. E tornaram-se grandes amigos.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">"Pouco antes da Irene morrer, o Zé Miguéis foi visitá-la e choraram, a olhar um para o outro, como dois anjos.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">“A personalidade introvertida de Irene Lisboa” – escreveu Maria Helena Ribeiro da Cunha.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">"Não. Irene Lisboa não era propriamente uma introvertida no sentido vulgar desta palavra... <em>Só ocultava dos outros o que poderia humilhá-la</em>. E a condição de mulher em 1920-40 <em>ainda</em> era uma fonte de humilhações doces.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">"Daí o “protesto viril” de certas páginas de Irene Lisboa."</span></p> <p> </p> <p><span style="font-size: 10pt;"><strong>José Gomes Ferreira </strong>(2018).</span></p> <p><span style="font-size: 10pt;"><em>Dias Comuns IX – Derrota pairante</em>.</span></p> <p><span style="font-size: 10pt;">D. Quixote, pp. 126 e 127.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:21137 2018-05-15T15:47:00 Dizia o rio, de Irene Lisboa 2018-05-15T14:58:50Z 2018-05-15T14:58:50Z <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Vamos lá... é só um cheirinho do maravilhoso texto <em>Dizia o rio</em>, de Irene Lisboa, recentemente editado pela Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos:</span></p> <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="IMG_5151.jpg" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B2b08c829/21020040_KuZMI.jpeg" alt="IMG_5151.jpg" width="469" height="500" /></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">(Excerto)</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">"Levei anos, pacientemente, a abrir galerias subterrâneas. Toda a minha ambição era romper até à luz! E aí me punha eu dia e noite em teimosas lutas com a terra e com as rochas que me tolhiam a passagem.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Ai, que alegria tamanha senti no dia primeiro em que descobri o céu por entre os últimos grãos de terra que tinha a vencer! Começava a anoitecer e eu, receoso e cheio de respeito por tudo aquilo tão estranho para mim, deitei-me a correr muito devagarinho, abafando a voz, com mil cautelas, não fosse dar nas vista e provocar algum desagrado."</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt;">Irene Lisboa (2018). <em>Dizia o rio e Soldado de chumbo... cavalo de pau</em>. Arruda dos Vinhos: Edições CMAV.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:20830 2018-05-01T12:28:00 Coleção Contarelos, de Irene Lisboa 2018-05-01T11:47:15Z 2018-05-01T11:47:15Z <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: &#39;times new roman&#39;, times; font-size: 14pt;">Vale a pena ler estes textos intemporais de Irene Lisboa para a infância e juventude (com cerca de 80 anos), magnificamente atualizados através das imagens e edição. Contarelos é uma coleção de 6 livros com textos desta importante escritora portuguesa, nascida no concelho de Arruda dos Vinhos. Três foram lançados no Dia Mundial do Livro, no mês de abril, os outros três saírão em 2019. Encontram-se à venda no Centro Cultural do Morgado, em Arruda dos Vinhos. Os preços encontram-se entre 2,50 e 3,50 euros, com desconto de 0,50 cêntimos para alunos do concelho. Magnífica iniciatica do setor cultural da CMAV, neste ano em que se assinala os 60 anos da morte da autora.</span></p> <p style="text-align: justify;"><img style="padding: 10px 10px;" title="IMG_5153.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Pe1069ef9/20999272_r4ckS.jpeg" alt="IMG_5153.jpg" width="260" height="257" /><img style="padding: 10px 10px;" title="IMG_5152.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Pef05f226/20999274_YzezR.jpeg" alt="IMG_5152.jpg" width="260" height="259" /><img style="padding: 10px 10px;" title="IMG_5151.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/P9201fda3/20999277_74LlZ.jpeg" alt="IMG_5151.jpg" width="243" height="260" /></p> <p> </p> <p> </p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:20557 2018-04-30T18:36:00 O Coração 2018-04-30T17:37:23Z 2018-04-30T17:37:23Z <p class="MsoNormal" style="line-height: 115%; text-align: justify;" align="center">         <span style="font-size: 12pt; font-family: &#39;times new roman&#39;, times;">   Havia um coração (ou muitos) que pagava, que pagava sempre...</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Era o coração de um rapaz. Estava ele na idade de amar e a luz dos seus olhos era uma linda rapariga, que também o amava.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Porém os pais dela opunham-se a este amor e o rapaz andava triste como a triste noite. Espreitava a namorada de todas as bandas e não comia nem bebia.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Um dia os pais dela pregam-lhe a partida de a levarem para muito longe. Para onde, ninguém o soube. E o moço, a chorar pelos campos, entrou a invetivar a sua boa fortuna que assim o desamparava.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Andava ele nestes clamores quando vê vir pelos ares uma ave estranha. Era tão grande que sombreava toda uma eira. Vinha descendo. O seu bico, igual a uma fateixa, parecia recurvo e enorme. Descia, sem o largar de vista. Com o pasmo, o moço nem arredava pé.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Levo-te! rouquejou a ave. Levo-te!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Para junto dela? murmurou impercetivelmente o moço.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Levo-te! E poisou as pontas das enormes asas no chão. O moço cavalgou a ave sem hesitações. E num abrir e fechar de olhos se viu em terra nova, ao pé da namorada. Choraram ambos de felicidade.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Paga-me! rouquejou a ave.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Sim, sim, eu te <em>pagarei, </em>respondeu-lhe alegremente o moço. Mas antes disso não nos quererás levar daqui a ambos?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Seja! rouquejou ela.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">E os dois cavalgaram o avejão, indo ter tão longe que diferente do conhecido lhes pareceu o céu, a terra e todas as mais coisas.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Assim que saltaram da estranha montanha, passaram os braços pela cinta um do outro e tomaram por uma vereda rescendente. Só se viam borboletas e flores: era a primavera. Imediatamente o resto do mundo lhes esqueceu <span style="mso-bidi-font-style: italic;">e </span>até o monstro que ali os depusera.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Um dia, porém, quando mais tarde o moço sozinho torna a passar pela mesma vereda, já despojada de verdura e de flores, vê a terrível ave direita a ele.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Paga-me! rouquejou ela.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Pago-te, sim, mas como?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Abre-me o peito!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">O moço regaça então a camisa e aparta os braços.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">E a ave, com gula, enterra-lhe o bico no coração. Ele cambaleia, mas logo se compõe e volta pelo mesmo caminho. Tudo se lhe afigura pálido. Até a ideia de chegar à sua própria casa o aborrece. A mulher iria salteá-lo de perguntas: porque se demorara, por onde andara... Era enfadonha a vida!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">E o tempo foi passando. Nasceu-lhe um filho, o primeiro. Voltou-lhe a alegria ao coração. Andava sempre desejoso de se despachar. Tinha um entusiasmo novo. Não havia filho como o seu! Se ele pudesse... até o mundo, com todas as suas lindezas e bens lhe havia de pôr no berço.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">A trabalhar e mesmo a dormir só tinha pensamentos de amor. Mas um dia a criança adoeceu gravemente.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">O pai, a estalar de angústia, vai para o campo desabafar. Chora e arrepela-se. Nisto vê vir no ar, direita a ele, a estranha ave.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Só tu me podes valer! grita-lhe.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">E ela rouqueja: vem.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Logo os dois fenderam os ares. Poisaram longe, entre medonhas fragas. O moço salta abaixo e o avejão grasna: colhe-as, colhe-as, colhe-as...</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Eram as ervas da salvação.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Feita a colheita, o moço ouve: paga-me!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Não tenhas pressa, leva-me ao meu filho quanto antes.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Seja! — rouquejou o avejão.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Só muito mais tarde, quando o moço, já homem de barbas, esquecido de velhos pesares, andava lavrando, é que dá com umas asas enormes, ruças e estranhas, poisadas na terra.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Paga-me! ouve ele logo rouquejar.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">É verdade que te fiquei em dívida. E escancara o peito à terrível ave. Esta enterra-lhe o bico no coração e some-se nos ares.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">O homem, porque a bela mocidade já se lhe fora, olha à roda de si atordoado. Aborrece-lhe a vida, mas não pensa em morte. Que é que lhe poderia ainda dar gosto? A sua junta de bois está velha, tem de a trocar ou vender. A terra também já lhe anda a pagar mal. E já é pai de uma caterva de filhos. Mas ainda há de ser rico!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Esta ideia nunca mais o larga. Deixou de rir como antigamente, anda sempre aos brados. Dispara de umas fazendas para as outras sem descanso. É insofrido com os homens da jorna. Pelos caminhos pragueja e espanca muros e troncos com as verdascas que apanha. Não poder eu estar em toda a parte... grita. E tanto gritou de uma vez que o avejão lhe desceu à frente, rouquejando: levo-te.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Para toda a parte! implora-lhe ele.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">E assim foi. A cavalo no seu monstro de asas ele está presente em todos os campos. Tornou-se extraordinariamente rico e temido. Mas teve de pagar os favores que recebeu. A derradeira bicada do avejão foi tal que o seu coração se desencantou de tudo... Nem mais gostos nem cobiças... E, por fim, até a morte o veio procurar. Achou-o na soleira da porta, à vista das primeiras árvores que ali pusera e de um rebanho de netos que cabriolavam. A morte fechou-lhe os olhos sem ele soltar um ai.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">No outro dia, quando o levaram para a cova, todos viram com espanto, no ar, um avejão, coisa extraordinária, que fazia grandes círculos sem nunca poisar.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Está farta! — diziam os do enterro.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Mas o pior é que a sorte dos vivos nunca viria a ser muito diferente da do morto. O coração tem sempre de pagar... Ou o vão matando aos poucos ou ele se gasta.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; line-height: 115%; mso-pagination: none; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"><span style="font-size: 11.0pt; line-height: 115%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;"> </span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: right; line-height: 115%;" align="right"><span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Irene Lisboa</span></p> <p><span style="font-size: 10pt;"> </span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: right; line-height: 115%;" align="right"><span style="font-size: 10pt;"><em><span style="line-height: 115%; font-family: &#39;Times New Roman&#39;;">Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma</span></em></span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:20394 2018-04-04T11:22:00 Coleção Contarelos, de Irene Lisboa 2018-04-04T10:46:14Z 2018-04-04T10:46:14Z <p class="sapomedia images" style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">A Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos vai dar início à publicação de seis obras com textos escritos por Irene Lisboa</span> <span style="font-size: 14pt;">para a infância e juventude, que constituirão a coleção Contarelos. Em 2018 serão publicadas três e em 2019 outras três. Os textos incluídos nestas primeiras três publicações foram ilustrados por alunos de artes do Externato João Alberto Faria, com a orientação do Professor José Duarte, e pela Professora Teresa Domingos. Os textos foram gentilmente cedidos pela Arq.ª Inês Gouveia, herdeira do espólio de Irene Lisboa.</span></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Para outras informações sobre esta iniciativa, consultar o setor da cultura da Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos ou a agenda n.º 2, do Centro Cultural do Morgado, p. 11.</span></p> <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="Contarelos1.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gba063c4c/20962712_IwpNR.jpeg" alt="Contarelos1.jpg" width="1024" height="640" /></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:20219 2018-04-01T19:15:00 'A Sina', de Irene Lisboa 2018-04-01T18:24:20Z 2018-04-01T18:24:20Z <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Slide9.jpg" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B1014e77d/20958832_2SrLT.jpeg" alt="Slide9.jpg" width="500" height="375" /></p> <p> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Estava eu sentada no meu mirante, como era costume, à tarde, e vejo vir pela estrada fora uma cigana toda apressada. Mas de repente parou e pôs-se a olhar para mim com um ar de riso. Tinha a cara muito escura, mas apesar disso engraçada. Ainda era nova.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Não quer saber a sua sina, minha bela menina? Eu acenei-lhe com a cabeça que não, por vergonha. Não? E porque não há de saber, minha bela menina? Ela ria-se para mim e abanava também a cabeça. Tinha um cabelo preto muito luzidio e ensebado, carregado de moedas ou de medalhas. Era de um preto retinto.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Uma sina tão linda! Estou-lhe mesmo a ver na cara. Dê-me cá a sua mãozinha. Eu senti-me quase tentada. Vá, minha bela menina, dê-me a sua mãozinha, não tenha receio.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">E não despregava os seus olhos dos meus. Eu via-lhe os dentes muito agudos, muito brancos; achava-me quase hipnotizada. Ia já a descair a mão quando lhe oiço dizer:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Dá-me um botãozinho da sua roseira, minha bela menina?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Ri-me então para ela. Dou já! E, mais à vontade, fui cortar um botão de rosa. Relanceei os olhos para um e para outro lado e atirei-lho. Eu estava de cima, no meu mirante, e ela de baixo, na estrada. A seguir ajoelhei-me no chão e deitei o braço para fora. Abri a minha mão... e ela, sem me tocar, olhando-me muito pôs-se a dizer:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">A menina ainda é uma criança. Mas tudo já aqui se vê, tem umas linhas muito claras.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Parecia a mulher que estava a ler:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Gosta do que não tem e do que ainda não conhece, não é verdade, minha beleza? Pois, com isto tudo ainda há de vir a ser muito afortunada. Já perdeu a sua mãezinha...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Sem mesmo querer fiz-lhe com a cabeça que sim.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">E tem madrasta.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Pus-me séria.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Coitadinha!</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">As lágrimas vieram-me aos olhos.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Não se entristeça, minha bela menina. Ainda há de sair daqui e ser muito afortunada, que lho digo eu. Nos seus olhos há uma luz que me não engana. Esta marca, vê a menina esta estrela de bicos? é como fala. A menina rejeita a sua sorte duas e três vezes, e são sempre belos partidos! Mas a sorte é que nunca a larga. Há de vir a casar muito rica.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Adivinhe outras coisas, disse-lhe então eu, e pus os meus olhos no campo verde que tinha em frente. E logo a cigana:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Esteja descansadinha que tudo lhe há de vir parar à mão. Mas só uma coisa lhe digo: é que tem uma grande inimiga, e de portas adentro. Defenda-se dela que lhe quer todo o mal e lhe não há de comer os olhos só se não puder, minha bela menina.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">O coração tornou-se-me a apertar.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Deixe-a lá! O mundo dá muitas voltas! E a menina tem o signo aventureiro, está-se mesmo a ver. Ainda há de sair dessa quinta e nunca mais lá tornará a pôr os pés. Fora dela é que há de ser feliz. Uma coisa lhe digo mais, minha beleza: as flores que tem à roda de si é como falam: martírios daqui e rosas dali...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Não pude deixar de sorrir. E ela riu-se também. Já me parecia uma amiga que ali tinha.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Saio então desta casa? pergunto-lhe eu.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Sai, e sai a mal porque tem dentro dela uma grande inimiga. Longe destes sítios é que a menina há de encontrar a felicidade. Quer ver, quer ver? E tira do peito o botão de rosa que eu lhe tinha dado. O seu caminho está cheio de flores assim.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Assim? Não a entendo bem.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Assim, quero eu dizer, de gostos, de botõezinhos de rosa, pois então? Primeiro é contrariada, porque a isso ninguém escapa, mas um dia mais tarde... longe de quem lhe quer todo o mal...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Não me diga essas coisas...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Não se aflija, minha beleza. Eu só quero que a menina fique certa que o que está para vir a há de pagar de tudo. Não vê além aquele passarinho?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Eu olhei para a estrada onde uma alvéola balouçava o fino rabo.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Não está vendo? Aquilo é uma fala! Tudo à roda de nós está sempre a falar. E uma fala verdadeira. Ela não diz com o rabinho que sim e que sim? É para que a menina saiba... Há de vir a casar com um belo rapaz e andar por onde muito bem quiser, ter muito de comer, um palácio...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">E mais nada?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Mas ela continuava: morre de velha depois de ter corrido o mundo inteiro.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Fiz uma pequena careta à ideia da morte. E tornei a perguntar: mais nada?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">A cigana olhou-me então, com que olhar! e pegou-me nas pontas dos dedos:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Grandes coisas lhe estão para acontecer, disse ela por fim.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Eu sentia cá dentro de mim vontade de a ajudar, mas contive-me. Esteja a menina onde estiver há de ser sempre a primeira!</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Veio-me um grande suspiro à boca.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Pode-me acreditar: a primeira entre as primeiras, e com isto digo tudo.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Puxei de repente a mão e levantei-me. A cigana, que não esperava, deu um pequeno balanço ao corpo e pôs-se a olhar para mim. Eu apalpei-me involuntariamente, à procura de qualquer coisa. Tirei então uma medalhinha que tinha ao pescoço e ofereci-lha.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Guarde-a, minha bela menina, guarde-a...</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Mas eu tornei-lha a oferecer e ela arrecadou-a então.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">Até mais ver! E dizendo isto a cigana desceu pela estrada abaixo com as saias farfalhudas a dar, a dar.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 14pt;">E eu sem saber o que fazia parto dali numa carreira doida pela quinta acima, até à Cabeça Gorda. Lá sentei-me. Não tinha pensamentos nenhuns, só me lembrava de que para a minha frente eram os Fetais, um sítio onde ainda nunca tinha ido.</span></p> <p> </p> <p><span style="font-size: 12pt;"> Irene Lisboa</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;"><em>Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma</em></span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:sibilante:19965 2018-03-29T10:21:00 Saudações ao descanso e, já agora, aos dias festivos. 2018-03-29T09:32:40Z 2018-03-29T09:32:40Z <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="Slide3.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gd8075373/20952759_hIzOL.jpeg" alt="Slide3.jpg" width="720" height="540" /></p> <p> </p>