
Agulhas e Alfinetes
Irene Lisboa
Eu estava a um canto... Quem assim fala é uma pena de escrever. Naquela casa tinham-me dado por serviço assentar algarismos. Haverá pior serviço neste mundo? E então com uma tinta envinagrada...
O trabalho não me matava, valha a verdade, mas era aborrecido. Derreava-me por onde calhava. Por felicidade não me faltavam parceiras para o cavaco, e ouvia também muita coisa. Naquela casa tudo falava: agulhas e alfinetes, botões e cadeiras...
De uma vez, uma agulha muito esbelta, longa, toda vestida de linhas, mas sem ter nada que fazer, uma rica mandriona! — falou que se fartou, pelos cotovelos, como se costuma dizer.
A vaidosa! Sim, senhores, o fôlego que uma agulhinha pode ter! Ainda me parece estar a ouvi-la: Vocês não sabem e vocês não viram... toda virada para uma banda de alfinetes, feitos basbaques. Eram uns simples.
O tempo, fazem lá uma ideia! Estava uma lindeza! (Eles, calados, e ela: truz, truz, truz...) Bem se vê que vocês ainda nunca saíram desse papel! Pois as minhas amigas disseram-me assim: vamos passear? Eu respondi logo: e é já! Mal disse isto, saltámos todas da janela abaixo, Ou, por outra, como todos nós estávamos enfiadas em seda, escorregámos pelos nossos fios abaixo. E caímos num jardim. Os nossos namorados, que eram uns elegantíssimos alfinetes, armaram pulo atrás de nós e caíram-nos também aos pés. Esses, oh! esses, sim.
Vamos, o tempo é de oiro! — disse eu, regalada e orgulhosa.
É de oiro e é de prata e é de cristal... era a ver quem sabia dizer mais finas coisas.
Rosas e abelhas por todos os lados, vocês não fazem uma ideia! Passarinhos a cantar, a brisa a soprar, os repuxos do jardim a saltar... só lindezas.
Esta hora é única! — torno eu. E todos me felicitaram, repetindo: única!
As agulhas iam à frente, os alfinetes atrás. Eles chamavam-nos rainhas e deusas. Nós sentíamo-nos tontas. Parece que o cheiro dos cravos e das rosas nos subia à cabeça. Os nossos namorados, cada vez mais excitados, diziam muitas tolices, muitas coisas engraçadas. Nós já íamos da cor das papoilas. Pudera! Então eu, que tenho sempre ideias, lembrei-me de segredar às outras: e se agora fugíssemos?
Vamos lá fugir, repetiram todas elas baixinho. Eles, atrás de nós, sempre naquelas murmurações de amor, não desconfiaram de nada.
Eu volto-me então para o meu e digo-lhe:
Ó fulano, vai-me já, já buscar uma gota de orvalho.
Ó fulano, diz outra, traz-me umas folhinhas de jasmim.
E cada qual se desembaraçou do seu pajem como pôde.
Eles a correr só pareciam uns sopros.
Carros, minhas amigas, carros! Precisamos de carros... gritei eu.
Por encanto apareceram-nos logo ali os carros. Lembro-me tão bem do meu! Era muito leve e tinha rodas de malmequeres. Atrelei-lhe um gafanhoto e eu própria o guiava. Ia pelos ares, só visto!
Houve algumas que se demoravam, não havia meio de se decidirem, e deram tempo a que os alfinetes voltassem. As tolas só queriam carros pesados, para fazerem mais vista, puxados por muitas parelhas de vespas... Os namorados apanharam-nas, pudera não! Os alfinetes, lá garbosos eram, montaram então em espigas Zzzzzzz... era o que se ouvia por aqueles prados fora.
Na praia encontrámo-nos todos e tratámos de nos apear. Os nossos namorados riam muito e inventavam gracejos para nós nos rirmos também. Estavam inspirados. Parece que é um efeito do mar.
Nós, já muito chegadinhas a eles, íamos trocando o sentido a tudo. Até o mar, que tem uma voz triste, nos parecia alegre. A espuma vinha-nos saltar aos pés. Foi um dia maravilhoso! O meu alfinete a falar só parecia um livro aberto. Dizia coisas tão belas!
Eu admirava-o em silêncio.
Pérolas, pérolas... não querem lá ver?
Foi o que me valeu porque já ia transtornada.
Andavam pérolas a passear à babugem das águas e nós parámos para as contemplar.
Minhas senhoras e meus senhores, disseram-nos então elas, não querem vir dar uma volta nas nossas conchas?
Que amabilidade!
Agradecemos-lhes muito, mas desculpámo-nos: era perigoso, podíamos enferrujar...
Os alfinetes consultavam-se uns aos outros, pesarosos. Se ao menos houvesse por ali palhas, cascas de nozes, embarcações secas! Mas nada daquilo havia nas imediações e tivemos de nos conformar.
Foram-se embora as pérolas e os nossos namorados deitaram-se de bruços na areia. Iam fazer versos. Vai eu, de que me hei-de lembrar? Ofereço ao meu uma porção de conchinhas nacaradas. Ele beija-as e começa logo a escrever nelas:
Eu era quem não era... Silfo e estrela e rosa... A inveja do mar, do Sol e da Lua... Mas a minha alma era de aço. Etc.
Depois das conchinhas cheias, roja-mas aos pés. Eu apanho-as e sorrindo começo a cantar. Os versos que lá estavam escritos, já se sabe.
Foi quando as minhas companheiras, para ver se eu me calava, propuseram a subida a um monte.
Porque não? É já!
Tornaram as damas a formar uma carreira com os cavalheiros atrás. Com o sol na garganta, que é de todas as notas a mais brilhante e vigorosa, rompo a marcha. Eles e elas faziam coro. As ervilhas do chão até suspiravam. Subir sempre deu glória, e é de bom agoiro.
Chegámos, brada o meu alfinete.
Que frescura, que delícia, é o Evereste! — exclamam várias vozes. Abraçámo-nos, gritámos...
Olha que escorregas, ai que me partes, isto está a pedir uma dança... Ninguém já se entendia. Elas corriam, eles perseguiam-nas. Até o meu alfinete me quis tomar pela cinta. Eu defendi-me: lá isso não, pela cinta só no baile...
E o baile logo ali se armou. Dançar foi sempre a minha paixão.
Que lindo par! — diziam os outros alfinetes. E o meu namorado, ao meu ouvido: não hás-de ser costureira, minha flor, meu ideal, sejam-no as outras mais grossas.
Que lhe havia de eu responder? Serei rainha se tu fores rei e escrava se... mas calei-me aqui, receosa de o ofender.
A pena, cansada já de tanto escrevinhar, rematou assim: era uma agulha tão vaidosa,
tão vaidosa, que por fim até eu lhe cortei o discurso.
Uma Mão Cheia de Nada
Outra de Coisa Nenhuma
(1955)
