"A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa." Irene Lisboa (Solidão)

02
Nov 18

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A Engrácia e a mãe

chegaram numa tarde de domingo.

A Engrácia é minha sobrinha

a mãe,

que eu ainda só vira duas vezes,

minha irmã.

Minha irmã...

uma pobre mulher,

uma simpática desconhecida

que vem ao hospital

ver o seu marido.

 

Esta é a minha gente.

Penso da mulher:

Parecemo-nos.

Temos os mesmos olhos e boca,

o mesmo nascimento de cabelos.

 

Oito filhos teve já a minha irmã.

Uma filha que lhe morreu

levou o meu nome.

 

Este mistério que eu sou!

Filha de outro pai,

noutra terra criada,

lá vivida!

 

Dou pão com manteiga à Engrácia,

que não diz nada.

A mãe fala.

É o campo toda ela,

o seu cheiro até

e a sua resignação.

Conta coisas do António,

o meu sobrinho mais velho,

com o seu exame feito

e tão amigo de ler...

Mãe! coitada, penso.

Oiço-a,

esquecida do nosso parentesco.

As duas ali estão:

a criança vestidinha à cidade,

a mulher humilde e amável.

Tudo tão natural e pobre!

 

Irene Lisboa

[Publicado na Seara Nova, nº 648,

13 de Janeiro de 1940,

sob o pseudónimo João Falco]

publicado por Jorge da Cunha às 16:42

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