
Estava eu sentada no meu mirante, como era costume, à tarde, e vejo vir pela estrada fora uma cigana toda apressada. Mas de repente parou e pôs-se a olhar para mim com um ar de riso. Tinha a cara muito escura, mas apesar disso engraçada. Ainda era nova.
Não quer saber a sua sina, minha bela menina? Eu acenei-lhe com a cabeça que não, por vergonha. Não? E porque não há de saber, minha bela menina? Ela ria-se para mim e abanava também a cabeça. Tinha um cabelo preto muito luzidio e ensebado, carregado de moedas ou de medalhas. Era de um preto retinto.
Uma sina tão linda! Estou-lhe mesmo a ver na cara. Dê-me cá a sua mãozinha. Eu senti-me quase tentada. Vá, minha bela menina, dê-me a sua mãozinha, não tenha receio.
E não despregava os seus olhos dos meus. Eu via-lhe os dentes muito agudos, muito brancos; achava-me quase hipnotizada. Ia já a descair a mão quando lhe oiço dizer:
Dá-me um botãozinho da sua roseira, minha bela menina?
Ri-me então para ela. Dou já! E, mais à vontade, fui cortar um botão de rosa. Relanceei os olhos para um e para outro lado e atirei-lho. Eu estava de cima, no meu mirante, e ela de baixo, na estrada. A seguir ajoelhei-me no chão e deitei o braço para fora. Abri a minha mão... e ela, sem me tocar, olhando-me muito pôs-se a dizer:
A menina ainda é uma criança. Mas tudo já aqui se vê, tem umas linhas muito claras.
Parecia a mulher que estava a ler:
Gosta do que não tem e do que ainda não conhece, não é verdade, minha beleza? Pois, com isto tudo ainda há de vir a ser muito afortunada. Já perdeu a sua mãezinha...
Sem mesmo querer fiz-lhe com a cabeça que sim.
E tem madrasta.
Pus-me séria.
Coitadinha!
As lágrimas vieram-me aos olhos.
Não se entristeça, minha bela menina. Ainda há de sair daqui e ser muito afortunada, que lho digo eu. Nos seus olhos há uma luz que me não engana. Esta marca, vê a menina esta estrela de bicos? é como fala. A menina rejeita a sua sorte duas e três vezes, e são sempre belos partidos! Mas a sorte é que nunca a larga. Há de vir a casar muito rica.
Adivinhe outras coisas, disse-lhe então eu, e pus os meus olhos no campo verde que tinha em frente. E logo a cigana:
Esteja descansadinha que tudo lhe há de vir parar à mão. Mas só uma coisa lhe digo: é que tem uma grande inimiga, e de portas adentro. Defenda-se dela que lhe quer todo o mal e lhe não há de comer os olhos só se não puder, minha bela menina.
O coração tornou-se-me a apertar.
Deixe-a lá! O mundo dá muitas voltas! E a menina tem o signo aventureiro, está-se mesmo a ver. Ainda há de sair dessa quinta e nunca mais lá tornará a pôr os pés. Fora dela é que há de ser feliz. Uma coisa lhe digo mais, minha beleza: as flores que tem à roda de si é como falam: martírios daqui e rosas dali...
Não pude deixar de sorrir. E ela riu-se também. Já me parecia uma amiga que ali tinha.
Saio então desta casa? pergunto-lhe eu.
Sai, e sai a mal porque tem dentro dela uma grande inimiga. Longe destes sítios é que a menina há de encontrar a felicidade. Quer ver, quer ver? E tira do peito o botão de rosa que eu lhe tinha dado. O seu caminho está cheio de flores assim.
Assim? Não a entendo bem.
Assim, quero eu dizer, de gostos, de botõezinhos de rosa, pois então? Primeiro é contrariada, porque a isso ninguém escapa, mas um dia mais tarde... longe de quem lhe quer todo o mal...
Não me diga essas coisas...
Não se aflija, minha beleza. Eu só quero que a menina fique certa que o que está para vir a há de pagar de tudo. Não vê além aquele passarinho?
Eu olhei para a estrada onde uma alvéola balouçava o fino rabo.
Não está vendo? Aquilo é uma fala! Tudo à roda de nós está sempre a falar. E uma fala verdadeira. Ela não diz com o rabinho que sim e que sim? É para que a menina saiba... Há de vir a casar com um belo rapaz e andar por onde muito bem quiser, ter muito de comer, um palácio...
E mais nada?
Mas ela continuava: morre de velha depois de ter corrido o mundo inteiro.
Fiz uma pequena careta à ideia da morte. E tornei a perguntar: mais nada?
A cigana olhou-me então, com que olhar! e pegou-me nas pontas dos dedos:
Grandes coisas lhe estão para acontecer, disse ela por fim.
Eu sentia cá dentro de mim vontade de a ajudar, mas contive-me. Esteja a menina onde estiver há de ser sempre a primeira!
Veio-me um grande suspiro à boca.
Pode-me acreditar: a primeira entre as primeiras, e com isto digo tudo.
Puxei de repente a mão e levantei-me. A cigana, que não esperava, deu um pequeno balanço ao corpo e pôs-se a olhar para mim. Eu apalpei-me involuntariamente, à procura de qualquer coisa. Tirei então uma medalhinha que tinha ao pescoço e ofereci-lha.
Guarde-a, minha bela menina, guarde-a...
Mas eu tornei-lha a oferecer e ela arrecadou-a então.
Até mais ver! E dizendo isto a cigana desceu pela estrada abaixo com as saias farfalhudas a dar, a dar.
E eu sem saber o que fazia parto dali numa carreira doida pela quinta acima, até à Cabeça Gorda. Lá sentei-me. Não tinha pensamentos nenhuns, só me lembrava de que para a minha frente eram os Fetais, um sítio onde ainda nunca tinha ido.
Irene Lisboa
Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma
