"A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa." Irene Lisboa (Solidão)

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Ago 18

 

publicado por Jorge da Cunha às 14:58

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Ago 18

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Agulhas e Alfinetes

Irene Lisboa

Eu estava a um canto... Quem assim fala é uma pena de escrever. Naquela casa tinham-me dado por serviço assentar algarismos. Haverá pior serviço neste mundo? E então com uma tinta envinagrada...

O trabalho não me matava, valha a verdade, mas era aborrecido. Derreava-me por onde calhava. Por felici­dade não me faltavam parceiras para o cavaco, e ouvia também muita coisa. Naquela casa tudo falava: agulhas e alfinetes, botões e cadeiras...

De uma vez, uma agulha muito esbelta, longa, toda vestida de linhas, mas sem ter nada que fazer, uma rica mandriona! — falou que se fartou, pelos cotovelos, como se costuma dizer.

A vaidosa! Sim, senhores, o fôlego que uma agulhinha pode ter! Ainda me parece estar a ouvi-la: Vocês não sabem e vocês não viram... toda virada para uma banda de alfinetes, feitos basbaques. Eram uns simples.

O tempo, fazem lá uma ideia! Estava uma lindeza! (Eles, calados, e ela: truz, truz, truz...) Bem se vê que vocês ainda nunca saíram desse papel! Pois as minhas ami­gas disseram-me assim: vamos passear? Eu respondi logo: e é já! Mal disse isto, saltámos todas da janela abaixo, Ou, por outra, como todos nós estávamos enfiadas em seda, escorregámos pelos nossos fios abaixo. E caímos num jardim. Os nossos namorados, que eram uns elegantíssi­mos alfinetes, armaram pulo atrás de nós e caíram-nos também aos pés. Esses, oh! esses, sim.

Vamos, o tempo é de oiro! — disse eu, regalada e orgulhosa.

É de oiro e é de prata e é de cristal... era a ver quem sabia dizer mais finas coisas.

Rosas e abelhas por todos os lados, vocês não fazem uma ideia! Passarinhos a cantar, a brisa a soprar, os repu­xos do jardim a saltar... só lindezas.

Esta hora é única! — torno eu. E todos me felicita­ram, repetindo: única!

As agulhas iam à frente, os alfinetes atrás. Eles chama­vam-nos rainhas e deusas. Nós sentíamo-nos tontas. Parece que o cheiro dos cravos e das rosas nos subia à cabeça. Os nossos namorados, cada vez mais excitados, diziam muitas tolices, muitas coisas engraçadas. Nós já íamos da cor das papoilas. Pudera! Então eu, que tenho sempre ideias, lembrei-me de segredar às outras: e se agora fugíssemos?

Vamos lá fugir, repetiram todas elas baixinho. Eles, atrás de nós, sempre naquelas murmurações de amor, não desconfiaram de nada.

Eu volto-me então para o meu e digo-lhe:

Ó fulano, vai-me já, já buscar uma gota de orvalho.

Ó fulano, diz outra, traz-me umas folhinhas de jasmim.

E cada qual se desembaraçou do seu pajem como pôde.

Eles a correr só pareciam uns sopros.

Carros, minhas amigas, carros! Precisamos de carros... gritei eu.

Por encanto apareceram-nos logo ali os carros. Lem­bro-me tão bem do meu! Era muito leve e tinha rodas de malmequeres. Atrelei-lhe um gafanhoto e eu pró­pria o guiava. Ia pelos ares, só visto!

Houve algumas que se demoravam, não havia meio de se decidirem, e deram tempo a que os alfinetes voltas­sem. As tolas só queriam carros pesados, para fazerem mais vista, puxados por muitas parelhas de vespas... Os namorados apanharam-nas, pudera não! Os alfinetes, lá garbosos eram, montaram então em espigas Zzzzzzz... era o que se ouvia por aqueles prados fora.

Na praia encontrámo-nos todos e tratámos de nos apear. Os nossos namorados riam muito e inventavam gracejos para nós nos rirmos também. Estavam inspira­dos. Parece que é um efeito do mar.

Nós, já muito chegadinhas a eles, íamos trocando o sentido a tudo. Até o mar, que tem uma voz triste, nos parecia alegre. A espuma vinha-nos saltar aos pés. Foi um dia maravilhoso! O meu alfinete a falar só parecia um livro aberto. Dizia coisas tão belas!

Eu admirava-o em silêncio.

Pérolas, pérolas... não querem lá ver?

Foi o que me valeu porque já ia transtornada.

Andavam pérolas a passear à babugem das águas e nós parámos para as contemplar.
Minhas senhoras e meus senhores, disseram-nos então elas, não querem vir dar uma volta nas nossas conchas?

Que amabilidade!

Agradecemos-lhes muito, mas desculpámo-nos: era perigoso, podíamos enferrujar...

Os alfinetes consultavam-se uns aos outros, pesarosos. Se ao menos houvesse por ali palhas, cascas de nozes, embarcações secas! Mas nada daquilo havia nas imedia­ções e tivemos de nos conformar.

Foram-se embora as pérolas e os nossos namorados deitaram-se de bruços na areia. Iam fazer versos. Vai eu, de que me hei-de lembrar? Ofereço ao meu uma porção de conchinhas nacaradas. Ele beija-as e começa logo a escrever nelas:

Eu era quem não era... Silfo e estrela e rosa... A inveja do mar, do Sol e da Lua... Mas a minha alma era de aço. Etc.

Depois das conchinhas cheias, roja-mas aos pés. Eu apanho-as e sorrindo começo a cantar. Os versos que lá estavam escritos, já se sabe.

Foi quando as minhas companheiras, para ver se eu me calava, propuseram a subida a um monte.

Porque não? É já!

Tornaram as damas a formar uma carreira com os cava­lheiros atrás. Com o sol na garganta, que é de todas as notas a mais brilhante e vigorosa, rompo a marcha. Eles e elas faziam coro. As ervilhas do chão até suspiravam. Subir sempre deu glória, e é de bom agoiro.

Chegámos, brada o meu alfinete.

Que frescura, que delícia, é o Evereste! — exclamam várias vozes. Abraçámo-nos, gritámos...
Olha que escorregas, ai que me partes, isto está a pedir uma dança... Ninguém já se entendia. Elas corriam, eles perseguiam-nas. Até o meu alfinete me quis tomar pela cinta. Eu defendi-me: lá isso não, pela cinta só no baile...

E o baile logo ali se armou. Dançar foi sempre a minha paixão.

Que lindo par! — diziam os outros alfinetes. E o meu namorado, ao meu ouvido: não hás-de ser costu­reira, minha flor, meu ideal, sejam-no as outras mais grossas.

Que lhe havia de eu responder? Serei rainha se tu fores rei e escrava se... mas calei-me aqui, receosa de o ofender.

A pena, cansada já de tanto escrevinhar, rematou assim: era uma agulha tão vaidosa,

tão vaidosa, que por fim até eu lhe cortei o discurso.

 

Uma Mão Cheia de Nada

Outra de Coisa Nenhuma

(1955)

 

publicado por Jorge da Cunha às 11:32

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Ago 18

Textos publicados no Jornal Chafariz de Arruda, junho e agosto de 2018

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Irene Lisboa

Parte 1: Vida

Por Jorge da Cunha

 

Durante o presente ano, e depois quando for oportuno, a começar já com este texto e o seguinte, que servirão de introdução, o tema a abordar será Irene Lisboa, uma vez que, este ano, se assinalam os 60 anos da sua morte.

Assim, começaremos por apresentar umas breves notas bioblibliográficas desta autora, que foi considerada pelos grandes escritores, poetas e académicos portugueses como uma das maiores escritoras do século XX. José Gomes Ferreira, em 1978, na “Breve introdução à poesia de Irene Lisboa”, referiu em letras maiúscula, como se gritasse: “PARA MIM É A MAIOR ESCRITORA DE TODOS OS TEMPOS PORTUGUESES”. Também Manuel Poppe, jornalista do Diário Popular, em 23 de novembro de 1973, escreveu: “Lembro-me muitíssimo bem de ouvir a José Régio o seguinte comentário acerca de Voltar atrás para quê?: ‘Se esta mulher se chamasse Tchekhov, o seu livro impunha-se em qualquer parte do mundo!’ Se esta mulher se chamasse Tchekhov...” Ora, não se chama Tchekhov, mas Irene Lisboa. Por isso, convido-vos a conhecê-la um pouco melhor.

Irene do Céu Vieira Lisboa nasceu no dia de Natal de 1892, no casal da Murzinheira, Arranhó, concelho de Arruda dos Vinhos. Este casal e a Quinta de Monfalim eram propriedade da sua madrinha, D. Maria Guilhermina. Ali viveu com a sua mãe, Maria Joaquina (17 anos) até aos três anos. Depois, foi levada para Monfalim, com a irmã Rita, onde vivia a madrinha e o pai, Luís Emílio Vieira Lisboa (62 anos). Aos seis anos entra no Convento do Sacramento, em Lisboa. Da mãe, pouco mais se soube, apenas que deixou mais 4 filhos: Romana, Vitória, José Mateus e António. No Colégio do Sacramento, esteve Irene até ao 11 anos, frequentando depois, até aos 13, o Colégio Inglês. Em 1905, o pai juntou-se com D. Maria da Saudade, de quem teve 6 filhos. Os dois anos seguinte foram dramáticos para Irene Lisboa. Foi tirada do colégio e levada para Monfalim. Esteve quase ao abandono. Aos 15 anos, foi viver com a madrinha para Lisboa e entrou no Liceu Maria Pia. Aqui conheceu Ilda Moreira, de quem foi amiga o resto da vida. Em 1911, ingressou na Escola Normal Primária de Lisboa, onde tirou o curso de professora. Em 1915, terminou o curso da Escola Normal. Em 1920, Irene e Ilda tomaram posse de duas turmas de ensino infantil na Escola da Tapada na Ajuda. Os alunos, muito pobres, tinham entre 5 e 7 anos. Estas duas classes, pioneiras do ensino pré-primário público em Portugal, serviam de modelo a um ensino moderno e inovador. Entretanto, em 1929, Irene Lisboa foi, como bolseira, para Genebra estudar psicologia e pedagogia. Esteve ainda em Bruxelas e Paris a estudar metodologias pedagógicas. Regressou a Lisboa em 1932. Em virtude de terem sido extintas as secções infantis, em 1936, Irene concorreu ao lugar de Inspetora para o Ensino Infantil, tendo ficado com o lugar de Inspetora-Orientadora em itinerância. Por ter sido demasiado inovadora para as mentes pequenas de então, Irene Lisboa foi, primeiro, transferida para um lugar administrativo na Junta de Educação Nacional; depois, em 1940, com 48 anos, deram-lhe duas opções: ficar com um lugar como professora na Escola Normal de Braga, ou reformar-se. Optou pela segunda situação, recusando o degredo e negando dobrar-se perante um sistema acéfalo, ou não fosse ela Irene Lisboa. Em 1940 visitou a terra da sua infância e adolescência (Arruda e Sobral), ficando numa casa alugada em Monfalim. Foi então que começou a escrever Voltar a trás para quê? Nessas férias, percorreu os lugares, serras e festas e recolheu fragmentos, depois utilizados em muitos dos seus textos. Leia-se, por exemplo, “Férias no campo”, em que a autora nos apresenta um relato de lugares, pessoas e costumes.

E era a este campo da sua infância, trazido pelo “vento da Murzinheira”, que ela regressava constantemente.

 

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Irene Lisboa

Parte 2: Vida (cont.) e obra

 

Uma procissão é afinal um ato grave, lento e doloroso! Na Arruda, como a procissão saísse pelo entardecer e as ruas fossem estreitas, a multidão soturna e recolhida, subindo devagar, ainda me impressionava mais (Irene Lisboa, Apontamentos, 1943).

 

No anterior texto, tínhamos ficado no momento da vida de Irene Lisboa em que, passados muitos anos, regressou, de férias, a estas terras encantadas entre Arruda e Sobral.

Este início dos anos 40 do século XX, já reformada sem ainda ter 50 anos, foi de grande produção literária. Foi nestes anos 40 que visitou a Serra da Estrela pela primeira vez, local bastante frequentado pela autora a partir daí. Também os anos 50 foram bastante produtivos a nível literário e o prenúncio do fim desta escritora arrudense. No início desta década, Irene foi operada, pela segunda vez, a um cancro no duodeno no Hospital de São José em Lisboa, nunca deixando de escrever.

A serra, o campo, a cidade e tudo o que os envolve por dentro, tudo o que é quotidiano, insignificante, nada... foi motivo e reflexão e autorreflexão por parte da autora. Irene Lisboa morreu então numa quarta-feira, no dia 25 de novembro de 1958.

Nos fins dos anos 80 e inícios dos anos 90, do séc. XX, Paula Morão começou a estudar a obra de Irene. Iniciou-se então a reedição da sua obra pela Editorial Presença, com prefácios de Paula Morão.

No dia 13 de janeiro de 2013, os restos mortais de Irene Lisboa foram trasladados do Cemitério da Ajuda (Lisboa) para o Cemitério de Santo António (Arruda dos Vinhos).

Em 2014, a obra de Irene Lisboa passa a ser estudada por todos os alunos do Município de Arruda dos Vinhos, desde o pré-escolar ao ensino secundário (com protocolo assinado entre a Câmara Municipal, o Agrupamento de Escolas e Jardins de Infância de Arruda e o Externato João Alberto Faria).

Em 2018, 60 anos depois da sua morte, a Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos deu inicio à publicação de uma coleção de 6 livros para a infância e juventude com textos, alguns inéditos, de Irene Lisboa. Chamou a esta coleção Contarelos, afinal é o nome da sua primeira obra editada em 1926.

 

Bibliografia:

Literatura, poesia, crónica...

  1. Treze contarelos (1926)
  2. Um dia e outro dia... Diário de uma mulher (1936)*
  3. Outono havias de vir latente triste (1937)*
  4. Solidão: Notas do punho de uma mulher (1939)*
  5. Folhas volantes (1940)
  6. Começa uma vida (1940)*
  7. Lisboa e quem cá vive (1940)
  8. Esta cidade! (1942) *
  9. Apontamentos (1943)*
  10. Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma (1955)**
  11. Voltar atrás para quê? (1956)*
  12. O pouco e o muito – Crónica urbana (1956)*
  13. Título qualquer serve (1958)*
  14. Queres ouvir? Eu conto (1958)**
  15. Crónicas da serra (1959)*
  16. A vidinha da Lita (1971)
  17. Solidão II (1974)*
  18. Folhas soltas da Seara Nova, 1929/1955 – Antologia (Paula Morão)
  19. Rosalina (2018)
  20. O peru voador e Pesadelo de uma manhã de agosto... (2018)
  21. Dizia o rio e Soldado de chumbo... cavalo de pau (2018)

Nota:

Os títulos assinalados com 1 asterisco encontram-se publicados na Presença, com organização e prefácios de Paula Morão; os assinalados com 2 asteriscos também se encontram publicados nesta editora. Os 3 últimos são edições da Câmara Municipal de Arruda e pertencem à coleção Contarelos. Noutra altura, apresentaremos a bibliografia pedagógica da autora.

 

Estes são apenas alguns pormenores da vida desta mulher invulgar, injustamente esquecida por este confuso tempo cheio de equívocos: uma autora com uma admirável, rara e humanitária obra literária e pedagógica que incomodou o Estado Novo.

Dando já o mote para o próximo texto, diríamos que a sua obra pedagógica, se fosse estudada, ou apenas lida, continuaria a incomodar as estruturas educacionais nacionais: “A escola não pode ser um meio artificial, conhecendo a vida apenas por meio de livros. A escola deve ser uma parte verdadeira do mundo, em que a criança se possa descobrir a si mesma” (Irene Lisboa (1942), Modernas tendências da educação).

publicado por Jorge da Cunha às 13:33

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