"A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa." Irene Lisboa (Solidão)

21
Jul 18

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Esta história tem várias variantes, a mais antiga é chinesa e remonta a 860 a.C. A versão mais conhecida é a de Charles Perrault. Este autor francês do séc. XVII pegou numa história tradicional italiana La gatta cenerentola ("A gata borralheira") e reescreveu-a. No séc. XVIII, os irmãos Grimm fizeram a sua versão a partir da de Perrault, mas substituindo a fada madrinha por pombas e uma árvore. Irene Lisboa apresenta-nos esta versão cheia de ironia, como aliás é habitual na sua escrita. Este texto permanece inédito no espólio guardado pela Arq.ª Inês Gouveia.

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Era uma vez uma enjeitadinha que foi viver para casa de um lavrador rico.

A rapariga era bonita, mas como não tinha família todos a desprezavam.

O patrão tinha três filhas que nunca punham os pés na cozinha. Mal elas viam a enjeitada lá fora, entravam a gritar:

- Já para a cozinha, tição negro, gata borralheira!

E a pobrezinha, com as lágrimas nos olhos, ia-se esconder ao canto da chaminé.

Mas quando as toleironas estreavam fatos novos ou iam às festas, mandavam-na chamar.

- Calça-me! Veste-me! Penteia-me!

E todas três a ocupavam.

A enjeitadinha não era nada invejosa. Calçava, vestia e penteava as amas e por cima ainda as gabava.

Numa noite em que as foi ajudar, disse-lhe uma delas:

- Gata borralheira, tu sabes onde nós vamos hoje?

- Eu... não, senhora!

- Vamos ao baile do príncipe. Há de lá cair o poder do mundo.

E disse-lhe outra:

- Gostavas de ir, gata borralheira?

- Eu gostava, sim, senhora.

- Não querias mais nada? Ora a paspalhona! Borralho, borralho, minha rica, para ti borralho.

E disse a terceira:

- Hoje é que o príncipe vai escolher noiva.

- Estou bonita? Olha, põe-me o laço de oiro.

Saiu toda a gente de casa e só a gata borralheira, muito triste, se deixou ficar ao pé do lume. As lágrimas caíam-lhe pela cara a baixo. Sentia-se a pessoa mais triste deste mundo.

Tanto chorou, tanto chorou que duas lágrimas lhe saltaram para as brasas.

Subiu ao ar um fumozinho e ouviu-se assim uma voz:

- Dá-me cá a mão... dá-me cá a mão...

A rapariga levantou os olhos e viu uma figurita ao de cima das brasas. Deu-lhe logo a mão. A figurita saltou para o sobrado e perguntou-lhe:

- Sabes quem eu sou?

- Não sei.

- Sou a fada da alegria. Sim, tu estás sozinha, e eu venho acompanhar-te. Porque é que estás triste?

A gata borralheira contou-lhe a sua vida. E a fada da alegria consolou-a.

- Deixa lá – disse-lhe ela. – Também tu hás de ir ao baile.

- Eu, ao baile?!

- Sim, tu, e ninguém te há de conhecer.

A fada da alegria foi com a gata borralheira para o quintal e bateu com o pé num carrinho de mão todo escangalhado.

- Pois esta carruagem é que te há de levar – disse ela.

Chegou ao pé da coelheira e soltou os coelhos, dizendo:

- Cavalos já nós temos. E aquele galo pode ser o cocheiro.

A gata borralheira não abria a boca.

- Estás vestida? – perguntou-lhe a fada.

- Outro fato não tenho – suspirou a rapariga.

- Mas esse está bem. Penteia-te.

A gata borralheira alisou os cabelos, e a fada deu com a varinha de condão no carro, nos coelhos, no galo e no fato velho.

E tudo apareceu transformado.

Que linda carruagem puxada por três parelhas de cavalos brancos! O cocheiro, de libré, fazia um vistão.

O vestido da gata borralheira, todo semeado de estrelas, parecia um céu aberto; os chapins eram de oiro.

Quando ela ia a subir para o carro quis dizer adeus à fada, mas esta já ia a fugir e só lhe disse:

- Não fiques para depois da meia noite, é para teu bem...

 

Entrou no baile uma princesa que ninguém sabia quem era, nem de onde vinha.

O fato dela luzia como o Sol.

E que lindos modos que tinha! Era tão formosa, tão agradável...

O príncipe só com ela é que quis dançar.

Mas antes de dar a meia-noite, a bela princesa desapareceu.

O baile pouco mais durou. O príncipe ficou tão triste que se retirou logo, e todos os convidados voltaram para suas casas.

Estava a gata borralheira ao pé do lume quando chegaram as amas.

- Anda, despacha-te! – gritaram elas.

- Gostaram do baile? – atreveu-se a perguntar a gata borralheira.

- Muito! Pudera não! Estava lá uma princesa mais linda que os amores. E tão dada! Mas tu não precisas de saber destas coisas. Para ti, borralho, borralho...

- Amanhã há outro baile.

“Eu já sabia”, ia dizer a gata borralheira, mas calou-se a tempo.

Vem o dia seguinte e tornou a gata borralheira a ir preparar as amas.

- Enfeita-me bem! – dizia uma.

- Enche-me de colares! – dizia a outra.

- E para mim o regador de brilhantes! – dizia a terceira.

Saíram todos de casa, e a gata borralheira, coitadinha, foi chorar para o pé do lume.

Saltaram-lhe duas lágrimas para as brasas e apareceu-lhe logo a fada da alegria.

A gata borralheira deu-lhe a mão e a fada perguntou-lhe:

- Queres ir ao baile, não queres?

A rapariga fez com a cabeça que sim.

- Então, anda.

Encaminharam-se as duas para o quintal e a fada soltou os coelhos e o galo, mais adiante encontrou o carro. Deu com a varinha de condão nestas coisas todas e no fato da gata borralheira e disse:

- Vê lá se ficas para depois da meia-noite...

A gata borralheira entrou para a carruagem e partiu.

 

Desta vez é que a princesa parecia linda! Todos a admiraram. O fato dela era como um jardim. Tinha flores de todas as qualidades.

E que bem que ela cumprimentava e fazia as vénias!

Estava talhada para rainha, ninguém o duvidava.

O príncipe só com ela é que dançou.

Mas ao dar da meia-noite a princesa desapareceu.

O baile pouco mais durou.

As amas da gata borralheira chegaram a casa e começaram logo:

- Que é do tição negro? Que é da gata borralheira?

A gata borralheira foi despi-las, e disse-lhe uma:

- Se tu a visses hoje!

- Levava um vestido de flores – disse-lhe a outra.

- Até cheirava – acrescentou a terceira.

- Quem me dera vê-la! – disse a gata borralheira.

E as três amas puseram-se à gargalhada.

- Borralho, borralho, minha rica, para ti borralho... e estás com sorte.

No terceiro dia ainda havia de haver outro baile.

A gata borralheira foi vestir as amas.

- Lava-me essas mãos – gritou uma delas. – Ontem mascarraste-me.

A rapariga demorou-se um bocadinho e quando apareceu levou uma bofetada.

Pôs-se logo a tremer e a chorar.

- Olha que me picas!

E, zumba, outra bofetada.

Quando as amas saíram, a pobrezinha foi a soluçar para o pé do lume. Deixou cair duas lágrimas nas brasas e a fada da alegria apareceu-lhe.

- Dá-me cá a mão... dá-me cá a mão... e não chores.

A gata borralheira deu-lhe a mão, e as duas foram para o quintal.

A fada soltou logo os coelhos e o galo e pôs-se à procura do carrinho. Deu com a varinha de condão em tudo isto e no fato da rapariga e foi-se embora. Mas antes disse:

- Não fiques para depois da meia-noite, vê lá o que fazes...

A gata borralheira riu-se e subiu para a carruagem.

Entrou a princesa no baile e todos ficaram de boca aberta. Assim é que ainda ninguém tinha visto nada! O fato dela fazia ondas como o mar e estava todo salpicado de peixes, mas eram de prata e de oiro.

Onde seria o reino de uma princesa tão rica e tão bela?

Até o príncipe estava intrigado. Toda a noite dançou com ela e, por fim, ia a falar-lhe em casamento.

Nisto começou a dar as badaladas da meia-noite.

A princesa fugiu de repente. Mas com a pressa deixou cair um dos chapins.

Pobre dela! Chegou ao pátio e já não viu a sua bela carruagem. Só viu os coelhos a fugir e o galo a dar às asas. Tropeçou numa coisa... era o carrinho de mãos. Pôs a mão na saia e sentiu que era a sua saia velha.

Ainda ela ia pela estrada fora, quando viu passar as amas.

- Que é que tu por aqui fazes? De onde é que tu vens? – perguntaram-lhe elas, muito admiradas.

- Venho do baile...

- Do baile? Ó rapariga, tu estás doida?! Que é que tu tinha que fazer no baile?

- Fui espreitar a tal princesa... gostava de a ver nem que fosse uma só vez.

- Ela já saiu, não penses nisso. E perdeu um chapim, coitada. Hoje é que ela ia linda! Mas não é para olhos como os teus se lhe porem em cima...

Voltou a gata borralheira para a sua vida de borralho. Lavava tachos em todo o santo dia, partia as vides e espevitava o lume! Parecia uma carvoeira, de enfarruscada que andava.

Mas de uma vez apareceu à entrada da cozinha um criado do rei. Olhou para dentro e perguntou assim:

- Há ainda mais alguma mulher nesta casa?

- Há ali a moça do borralho – responderam as amas –, mas nem vale a pena chamá-la.

- O meu senhor ordenou que nem novas nem velhas eu deixasse de convidar. – E o criado do rei encaminhou-se para a gata borralheira.

- A menina experimente lá este chapim.

- À gata borralheira é que ele há de servir! – exclamam as três amas, mortas de riso.

- Anda, calça-o, que tu é que deves ser a princesa...

A gata borralheira sentou-se no chão e calçou o chapim, depois tirou outro igual da algibeira e calçou-o também.

O criado do rei cumprimentou-a com muito respeito e convidou-a para o acompanhar ao palácio.

Mas as donas da casa entraram em dar gritos e a opor-se e a gata borralheira começou a chorar.

Saltaram-lhe duas lágrimas para o lume e a fada da alegria apareceu.

A rapariga deu-lhe logo a mão, e ela disse-lhe:

- Minha querida, se tu entrasses assim no palácio, o príncipe não deixava de te receber bem. Ele só de ti é que gosta e não é nada vaidoso. Mas eu quero que tu lhe apareças vestida de noiva.

E deu-lhe com a varinha de condão.

A gata borralheira apareceu logo toda coberta de branco desde a cabeça até aos pés.

Só parecia metida numa nuvem.

E como ainda tinha os olhos marejados de água, dizia toda a gente:

- Tão linda! Coitadinha... E ali a viver com aquelas mulheres tão más...

- Onde é que elas a teriam metido, que nunca ninguém a via?

O príncipe cheio de satisfação por ter achado, enfim, a sua querida noiva, casou logo com ela.

E as amas, que tanto a tinham maltratado, com a vergonha, nunca mais saíram à rua.

 

Fim

publicado por Jorge da Cunha às 21:10

15
Jul 18

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"A vida dela é que continua misteriosa...

"Como bem diz a autora da tese [Maria Helena Ribeiro da Cunha], “a personalidade introvertida de Irene Lisboa dificultou um conhecimento mais amplo da sua vida particular, e até mesmo de conhecimentos ligados à sua atividade”.

"Que sei eu, por exemplo, que fui amigo dela, da vida de Irene Lisboa? E que sabe a Rosalia – para além de lhe ter passado livros à máquina?

"Nada. Talvez vagamente, como toda a gente, que teve amores com José Osório de Oliveira [filho de Ana de Castro Osório] – história que muito a envergonhava sobretudo nos últimos anos da existência.

"Nesse capítulo também o José Rodrigues Miguéis me contou uma vez que, entre ele e a Irene, teria havido o esboço de um pequenino romance de amor irrealizado. – Resisti – dizia, feliz. – Estive quase a cair durante uma viagem de comboio (para a Suíça, suponho) mas resisti. E tornaram-se grandes amigos.

"Pouco antes da Irene morrer, o Zé Miguéis foi visitá-la e choraram, a olhar um para o outro, como dois anjos.

“A personalidade introvertida de Irene Lisboa” – escreveu Maria Helena Ribeiro da Cunha.

"Não. Irene Lisboa não era propriamente uma introvertida no sentido vulgar desta palavra... Só ocultava dos outros o que poderia humilhá-la. E a condição de mulher em 1920-40 ainda era uma fonte de humilhações doces.

"Daí o “protesto viril” de certas páginas de Irene Lisboa."

 

José Gomes Ferreira (2018).

Dias Comuns IX – Derrota pairante.

D. Quixote, pp. 126 e 127.

publicado por Jorge da Cunha às 11:35

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