"A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa." Irene Lisboa (Solidão)

30
Abr 18

            Havia um coração (ou muitos) que pagava, que pagava sempre...

Era o coração de um rapaz. Estava ele na idade de amar e a luz dos seus olhos era uma linda rapariga, que também o amava.

Porém os pais dela opunham-se a este amor e o rapaz andava triste como a triste noite. Espreitava a namorada de todas as bandas e não comia nem bebia.

Um dia os pais dela pregam-lhe a partida de a levarem para muito longe. Para onde, ninguém o soube. E o moço, a chorar pelos campos, entrou a invetivar a sua boa fortuna que assim o desamparava.

Andava ele nestes clamores quando vê vir pelos ares uma ave estranha. Era tão grande que sombreava toda uma eira. Vinha descendo. O seu bico, igual a uma fateixa, parecia recurvo e enorme. Descia, sem o largar de vista. Com o pasmo, o moço nem arredava pé.

Levo-te! rouquejou a ave. Levo-te!

Para junto dela? murmurou impercetivelmente o moço.

Levo-te! E poisou as pontas das enormes asas no chão. O moço cavalgou a ave sem hesitações. E num abrir e fechar de olhos se viu em terra nova, ao pé da namorada. Choraram ambos de felicidade.

Paga-me! rouquejou a ave.

Sim, sim, eu te pagarei, respondeu-lhe alegremente o moço. Mas antes disso não nos quererás levar daqui a ambos?

Seja! rouquejou ela.

E os dois cavalgaram o avejão, indo ter tão longe que diferente do conhecido lhes pareceu o céu, a terra e todas as mais coisas.

Assim que saltaram da estranha montanha, passaram os braços pela cinta um do outro e tomaram por uma vereda rescendente. Só se viam borboletas e flores: era a primavera. Imediatamente o resto do mundo lhes esqueceu e até o monstro que ali os depusera.

Um dia, porém, quando mais tarde o moço sozinho torna a passar pela mesma vereda, já despojada de verdura e de flores, vê a terrível ave direita a ele.

Paga-me! rouquejou ela.

Pago-te, sim, mas como?

Abre-me o peito!

O moço regaça então a camisa e aparta os braços.

E a ave, com gula, enterra-lhe o bico no coração. Ele cambaleia, mas logo se compõe e volta pelo mesmo caminho. Tudo se lhe afigura pálido. Até a ideia de chegar à sua própria casa o aborrece. A mulher iria salteá-lo de perguntas: porque se demorara, por onde andara... Era enfadonha a vida!

E o tempo foi passando. Nasceu-lhe um filho, o primeiro. Voltou-lhe a alegria ao coração. Andava sempre desejoso de se despachar. Tinha um entusiasmo novo. Não havia filho como o seu! Se ele pudesse... até o mundo, com todas as suas lindezas e bens lhe havia de pôr no berço.

A trabalhar e mesmo a dormir só tinha pensamentos de amor. Mas um dia a criança adoeceu gravemente.

O pai, a estalar de angústia, vai para o campo desabafar. Chora e arrepela-se. Nisto vê vir no ar, direita a ele, a estranha ave.

Só tu me podes valer! grita-lhe.

E ela rouqueja: vem.

Logo os dois fenderam os ares. Poisaram longe, entre medonhas fragas. O moço salta abaixo e o avejão grasna: colhe-as, colhe-as, colhe-as...

Eram as ervas da salvação.

Feita a colheita, o moço ouve: paga-me!

Não tenhas pressa, leva-me ao meu filho quanto antes.

Seja! — rouquejou o avejão.

Só muito mais tarde, quando o moço, já homem de barbas, esquecido de velhos pesares, andava lavrando, é que dá com umas asas enormes, ruças e estranhas, poisadas na terra.

Paga-me! ouve ele logo rouquejar.

É verdade que te fiquei em dívida. E escancara o peito à terrível ave. Esta enterra-lhe o bico no coração e some-se nos ares.

O homem, porque a bela mocidade já se lhe fora, olha à roda de si atordoado. Aborrece-lhe a vida, mas não pensa em morte. Que é que lhe poderia ainda dar gosto? A sua junta de bois está velha, tem de a trocar ou vender. A terra também já lhe anda a pagar mal. E já é pai de uma caterva de filhos. Mas ainda há de ser rico!

Esta ideia nunca mais o larga. Deixou de rir como antigamente, anda sempre aos brados. Dispara de umas fazendas para as outras sem descanso. É insofrido com os homens da jorna. Pelos caminhos pragueja e espanca muros e troncos com as verdascas que apanha. Não poder eu estar em toda a parte... grita. E tanto gritou de uma vez que o avejão lhe desceu à frente, rouquejando: levo-te.

Para toda a parte! implora-lhe ele.

E assim foi. A cavalo no seu monstro de asas ele está presente em todos os campos. Tornou-se extraordinariamente rico e temido. Mas teve de pagar os favores que recebeu. A derradeira bicada do avejão foi tal que o seu coração se desencantou de tudo... Nem mais gostos nem cobiças... E, por fim, até a morte o veio procurar. Achou-o na soleira da porta, à vista das primeiras árvores que ali pusera e de um rebanho de netos que cabriolavam. A morte fechou-lhe os olhos sem ele soltar um ai.

No outro dia, quando o levaram para a cova, todos viram com espanto, no ar, um avejão, coisa extraordinária, que fazia grandes círculos sem nunca poisar.

Está farta! — diziam os do enterro.

Mas o pior é que a sorte dos vivos nunca viria a ser muito diferente da do morto. O coração tem sempre de pagar... Ou o vão matando aos poucos ou ele se gasta.

 

Irene Lisboa

Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

publicado por Jorge da Cunha às 18:36

04
Abr 18

A Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos vai dar início à publicação de seis obras com textos escritos por Irene Lisboa para a infância e juventude, que constituirão a coleção Contarelos. Em 2018 serão publicadas três e em 2019 outras três. Os textos incluídos nestas primeiras três publicações foram ilustrados por alunos de artes do Externato João Alberto Faria, com a orientação do Professor José Duarte, e pela Professora Teresa Domingos. Os textos foram gentilmente cedidos pela Arq.ª Inês Gouveia, herdeira do espólio de Irene Lisboa.

Para outras informações sobre esta iniciativa, consultar o setor da cultura da Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos ou a agenda n.º 2, do Centro Cultural do Morgado, p. 11.

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publicado por Jorge da Cunha às 11:22

01
Abr 18

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Estava eu sentada no meu mirante, como era costume, à tarde, e vejo vir pela estrada fora uma cigana toda apressada. Mas de repente parou e pôs-se a olhar para mim com um ar de riso. Tinha a cara muito escura, mas apesar disso engraçada. Ainda era nova.

Não quer saber a sua sina, minha bela menina? Eu acenei-lhe com a cabeça que não, por vergonha. Não? E porque não há de saber, minha bela menina? Ela ria-se para mim e abanava também a cabeça. Tinha um cabelo preto muito luzidio e ensebado, carregado de moedas ou de medalhas. Era de um preto retinto.

Uma sina tão linda! Estou-lhe mesmo a ver na cara. Dê-me cá a sua mãozinha. Eu senti-me quase tentada. Vá, minha bela menina, dê-me a sua mãozinha, não tenha receio.

E não despregava os seus olhos dos meus. Eu via-lhe os dentes muito agudos, muito brancos; achava-me quase hipnotizada. Ia já a descair a mão quando lhe oiço dizer:

Dá-me um botãozinho da sua roseira, minha bela menina?

Ri-me então para ela. Dou já! E, mais à vontade, fui cortar um botão de rosa. Relanceei os olhos para um e para outro lado e atirei-lho. Eu estava de cima, no meu mirante, e ela de baixo, na estrada. A seguir ajoelhei-me no chão e deitei o braço para fora. Abri a minha mão... e ela, sem me tocar, olhando-me muito pôs-se a dizer:

A menina ainda é uma criança. Mas tudo já aqui se vê, tem umas linhas muito claras.

Parecia a mulher que estava a ler:

Gosta do que não tem e do que ainda não conhece, não é verdade, minha beleza? Pois, com isto tudo ainda há de vir a ser muito afortunada. Já perdeu a sua mãezinha...

Sem mesmo querer fiz-lhe com a cabeça que sim.

E tem madrasta.

Pus-me séria.

Coitadinha!

As lágrimas vieram-me aos olhos.

Não se entristeça, minha bela menina. Ainda há de sair daqui e ser muito afortunada, que lho digo eu. Nos seus olhos há uma luz que me não engana. Esta marca, vê a menina esta estrela de bicos? é como fala. A menina rejeita a sua sorte duas e três vezes, e são sempre belos partidos! Mas a sorte é que nunca a larga. Há de vir a casar muito rica.

Adivinhe outras coisas, disse-lhe então eu, e pus os meus olhos no campo verde que tinha em frente. E logo a cigana:

Esteja descansadinha que tudo lhe há de vir parar à mão. Mas só uma coisa lhe digo: é que tem uma grande inimiga, e de portas adentro. Defenda-se dela que lhe quer todo o mal e lhe não há de comer os olhos só se não puder, minha bela menina.

O coração tornou-se-me a apertar.

Deixe-a lá! O mundo dá muitas voltas! E a menina tem o signo aventureiro, está-se mesmo a ver. Ainda há de sair dessa quinta e nunca mais lá tornará a pôr os pés. Fora dela é que há de ser feliz. Uma coisa lhe digo mais, minha beleza: as flores que tem à roda de si é como falam: martírios daqui e rosas dali...

Não pude deixar de sorrir. E ela riu-se também. Já me parecia uma amiga que ali tinha.

Saio então desta casa? pergunto-lhe eu.

Sai, e sai a mal porque tem dentro dela uma grande inimiga. Longe destes sítios é que a menina há de encontrar a felicidade. Quer ver, quer ver? E tira do peito o botão de rosa que eu lhe tinha dado. O seu caminho está cheio de flores assim.

Assim? Não a entendo bem.

Assim, quero eu dizer, de gostos, de botõezinhos de rosa, pois então? Primeiro é contrariada, porque a isso ninguém escapa, mas um dia mais tarde... longe de quem lhe quer todo o mal...

Não me diga essas coisas...

Não se aflija, minha beleza. Eu só quero que a menina fique certa que o que está para vir a há de pagar de tudo. Não vê além aquele passarinho?

Eu olhei para a estrada onde uma alvéola balouçava o fino rabo.

Não está vendo? Aquilo é uma fala! Tudo à roda de nós está sempre a falar. E uma fala verdadeira. Ela não diz com o rabinho que sim e que sim? É para que a menina saiba... Há de vir a casar com um belo rapaz e andar por onde muito bem quiser, ter muito de comer, um palácio...

E mais nada?

Mas ela continuava: morre de velha depois de ter corrido o mundo inteiro.

Fiz uma pequena careta à ideia da morte. E tornei a perguntar: mais nada?

A cigana olhou-me então, com que olhar! e pegou-me nas pontas dos dedos:

Grandes coisas lhe estão para acontecer, disse ela por fim.

Eu sentia cá dentro de mim vontade de a ajudar, mas contive-me. Esteja a menina onde estiver há de ser sempre a primeira!

Veio-me um grande suspiro à boca.

Pode-me acreditar: a primeira entre as primeiras, e com isto digo tudo.

Puxei de repente a mão e levantei-me. A cigana, que não esperava, deu um pequeno balanço ao corpo e pôs-se a olhar para mim. Eu apalpei-me involuntariamente, à procura de qualquer coisa. Tirei então uma medalhinha que tinha ao pescoço e ofereci-lha.

Guarde-a, minha bela menina, guarde-a...

Mas eu tornei-lha a oferecer e ela arrecadou-a então.

Até mais ver! E dizendo isto a cigana desceu pela estrada abaixo com as saias farfalhudas a dar, a dar.

E eu sem saber o que fazia parto dali numa carreira doida pela quinta acima, até à Cabeça Gorda. Lá sentei-me. Não tinha pensamentos nenhuns, só me lembrava de que para a minha frente eram os Fetais, um sítio onde ainda nunca tinha ido.

 

 Irene Lisboa

Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

publicado por Jorge da Cunha às 19:15

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