"A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa." Irene Lisboa (Solidão)

28
Fev 18

A rapariga de pedra

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Chamo-me Aldemiro. Os nomes sempre interessam. De mais a mais o meu não é muito vulgar. Mas o que eu aqui vou pôr escrito ainda é menos vulgar. Aconteceu-me...

Vejamos. Começarei a escrever isto de outra maneira mais simples.

Eram férias e nós íamos para fora, como nos outros anos, mas desta vez para a serra! Para a serra, que eu não conhecia. E assim, ajudado por umas vistas de moinhos e de árvores do meu conhecimento passei uns dias compondo uma serra cá a meu jeito. Porém, quando verdadeiramente cheguei à serra, pela tardinha, já todas essas fantasias me tinham esquecido. E as pedras, os penhascos que me iam surdindo de um lado e de outro, faziam-me uma grande estranheza. Tão grandes, e de pé, como se se fossem despenhar pelas ribanceiras abaixo! E uns riozinhos estreitos, quase secos, nuns vales muito fundos e sombrios... Fugindo-me tudo da vista, mas repetindo-se... E pedras, por toda a parte aqueles enormes pedregulhos!

Isto foi de entrada e durante a viagem, porque depois foi-me passando a admiração e logo me habituei a tudo e a todos. E verdade que nos primeiros dias ainda estra­nhava ver correr a água de dia e de noite pelas quelhas da aldeia. Os seixos do caminho também me incomodavam os pés, naturalmente por eu andar calçado... lá, tudo andava descalço. As mulheres ralhavam muito, e ora avançavam umas para as outras, ora recuavam, como se dançassem... tinham graça! E diziam uns nomes: chacharas! farrombonas! que eu nunca entendi, nem precisava de entender.

Pelas quelhas também andavam à vontade os pitos e os bácoros.

Mas a minha tentação, a minha grande tentação era a serra, o campo, a liberdade.

Habituei-me a sair muito cedo, sozinho, quando o céu ainda parece branco.

Que lindos castanheiros e que paz, que grande paz sempre! Os muros dos soutos faziam a vista de uma renda. De pedra rala, já se sabe. Às vezes lá se ouvia a cantilena de um pastoreco... mas onde estaria ele? As cabritas saltavam às castinceiras e roíam-nas. Deixá-las roer!

Aos carrapitos da serra é que eu tinha a ambição de chegar, embora me avisassem de que por lá havia lobos.

Os dias entretanto iam passando, sempre a meu gosto. As noites empregava-as a ouvir histórias pelas portas de uns e de outros. Aquela gente era amiga de fazer serões. E contavam-me tudo: os milagres, as más sortes, os bruxedos, os desastres, as desgraças dos invernos e até as ideias. A história da rapariga de pedra entrava no número dessas ideias. Era uma coisa que tinha acontecido, diziam os antigos, e de que ninguém se devia rir.

O que hoje ainda não sei é se eles acreditavam na história! Ou que sim, ou que não, a mim só me maravilhava. Aquela extraordinária rapariga que tornava cegos ou gagos os que uma vez a surpreendiam! Era de uma beleza sem igual e andava fugida aos pais a cumprir o seu fadário. Viam-na sempre metida nas fontes ou sentada nas pedras, com a cabeça caída para a frente e a água a pingar-lhe nos cabelos... Por onde ela passava não havia campos secos. Por isso o povo lhe queria bem, embora a temesse.

Parece que quando ela tinha fugido aos pais (coitadinha, era a sua sina) estavam os soutos com o candeão, com a flor. Mas ninguém já sabia por que razão fugira ela. Andava em carrapato (quer dizer, nuazinha) como na hora em que abalou. Foram atrás dela os pais e os irmãos, para nada; jamais a alcançaram. Até que um dia, fartos e cansados de correr ali pararam, e ficaram. Era o que se dizia. Parece que o povo nascera deles e que toda aquela gente ainda era aparentada com a rapariga de pedra. Ninguém se envergonhava disso, pelo contrário, Ela, também, nunca se afastava muito daqueles sítios. Vê-la, havia quem a visse, de longe. Defrontá-la é que ninguém ousava. Era de pedra, mas de pedra viva (tinha aquela sina de viver sempre!) com uns cabelos de água que escorriam, escorriam... Tanto assim que por onde ela passasse não se conhecia a seca, mesmo no pino do verão.

Que história! Juro que me encantava. Levei noites e dias a pensar e a sonhar com a rapariga de pedra. Gostava de acreditar nela e também gostaria de a surpreender. Ai, não tinha medo, não, de ficar cego ou gago.

Disfarçadamente fui começando a pedir informações: onde é que a tinham já visto? E de manhã ou de noite?

Eu perguntava, perguntava... mas nunca obtinha respostas certas. Até havia quem me dissesse: para que é que o menino quer saber tanto? O melhor é não desafiar a sorte!

Eu ria e mudava então de conversa. Até que me fui quase esquecendo da história.

Num dia, ou por outra, em certa manhãzinha, saio de casa sem destino, como era o meu costume. Iria para onde as pernas me levassem.

            No chafariz ainda não estava ninguém, nem um cântaro sequer nos poiais. Até uns passaritos saltitavam nas pedras do chão sem nenhum receio. Todas as portas fechadas: com certeza que nenhuma caçoila ainda ao lume. Aquela gente, que tinha o ofício de fazer cestas, não era madrugadora.

E eu meti-me ao caminho, todo lépido.

Que alegria a de andar sozinho, de não ver ninguém e de nem saber para onde ir! As casas da aldeia, muito ruças e baixas, iam-me ficando cada vez mais para trás, cada vez mais para baixo. Os telhados, sem chaminés, não avultavam nada. Só campo e céu, só campo e céu. Os cabeços ainda pouco claros, envolvidos de uma nevoazinha incolor, pareciam-me monstros. Mas um ar e uma frescura! Do sol, nem sinal. De seres vivos lá descortinei um homem atrás de um burro. Eh lá — gritei-lhe eu, de longe. Mas ele nem me ouviu! E eu sempre a andar. Os carreiros chamados de pé posto, ora me parecia que subiam, ora que desciam. Cheguei por fim às bordas de uma ribeira e larguei os caminhitos. Parei um instante. É que eu gostei sempre muito da água, de me entreter com ela.

Os borbulhões daquela ribeira, que logo me saltaram à vista, afloravam, rompiam mesmo como flores brancas, debaixo das pedras, e depois corriam. Daqui vinha um fio e dali outro, mas logo empoçavam. Do fundo daquelas poças todas nasciam ramos verdes, que mal buliam. Continuei a andar, mas já sem pressa. Gostava de ir vendo o que via... os seixinhos cobertos de água, uma coisa que brilhava, uma erva delicada... repentinamente a restolhada de um pássaro, que largava a voar...

A luz foi crescendo, entretanto, e as bulhas também. A própria água acordava, parecia-me a mim. O leito da ribeira empinava-se, enchia-se de pedregulhos. E ouvia-se uma arrulhada! Devia ser da água que caía de alto. Era como um vagido de criança ou de cabritinho a cha­mar pela mãe. O coração começou-me então a palpitar, mas eu nem pensei em voltar para trás. Pus-me aos saltos de pedra em pedra. Tinha vontade de descobrir fosse o que fosse, de ver e de ouvir mais, de avançar sempre. Bichos ofegantes passavam pelo meio das silvas, invisíveis, parecia-me a mim, e de todo o lado caía uma espécie de chuva de pedra miúda ou de terra. Até comecei a ouvir passos: pisavam os panascos secos das margens... Qual! Seria algum coelhito assustado.

A ribeira tornara-se funda. Que medonho sítio! Começava-me a parecer fora do mundo. Mas a água ia continuando a formar trancelins, que ora se dividiam, ora se juntavam. E eu a avançar... Pela ribeira acima, os enormes pedregulhos que a obstruíam tinham de ser rodeados a custo. Porém, a seguir era sempre novo, uma coisa que eu não esperava... Parava um pouco. As lagartixas também me sobressaltavam. Ouvia-se primeiro uma restolhada. Que seria? E só depois é que se viam correr. Largartixas grandes, quase como lagartos. Às vezes também me passavam borboletas à frente.

A certa altura dei com um pego maior e deixei-me ficar a olhá-lo. A água tem o poder de me fascinar, creio que já disse. Centos de bichinhos pretos, pernaltas, corriam nela vertiginosamente. Era um pego tranquilo e sombrio. Aqueles bichinhos pareciam doidos: paravam de repente, depois tornavam ao seu desatino; paravam de novo... Chamam-se alfaiates. Excitei-os com um pauzinho. Veio o sol dar-me nas mãos, só um leve raio de sol. Que bonito que tudo aquilo era! A chalrada da água, uma espécie de choro ou queixa que não tinha descanso, tornou-me a atrair.

A água chora! — pus-me eu a dizer de mim para mim. E é que chora!

Duas rolas gordinhas vieram beber à ribeira. Ia um bando delas lá por cima, lá tão em cima!

A água chora, continuava eu pensando, sentado com o tal pauzinho na mão, a excitar os alfaiates, que fugiam. Por fim desviei os olhos do pego e comecei a ver rodelas de luz. Pensei em continuar a subir, mas achei que não podia mais. Onde estaria eu? Onde teria já chegado?

Pus-me a escutar melhor: não era só o choro da água que eu ouvia, eram também gemidos. Ai! E levei a mão ao sítio do coração. Ai, que não é senão a rapariga de pedra! E eu ali sozinho... Tremeu-me a boca e senti as forças perdidas.

Era ela! Lá estava em cima de uma penha tão alta, tão alta... A cabeça para a frente e os cabelos caídos a correr água, a correr água... Mas de pedra ordinária não me parecia ela, parecia-me de cristal. E chorava, coitadinha. Chorava tanto! Nuazinha, com, os pés pendurados... A ribeira devia nascer ali mesmo.

Não chores mais! — queria-lhe eu dizer. E se o disse não sei. Escorreguei, estou perfeitamente lembrado, e deitei as mãos aos juncos. Quando tornei a olhar para cima já não vi mais nada. Mas eu não estava gago nem cego, felizmente. Esfreguei muito os olhos e disse uma porção de palavras soltas. Deu-me tanta vontade de chorar!

Tinha-a visto. Nunca ninguém disso me desimaginasse: tinha-a visto!

 

Irene Lisboa

Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

 

publicado por Jorge da Cunha às 18:49

27
Fev 18

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Como quase sempre que me encontro com a Maria da Graça, evocamos a nossa querida Irene Lisboa - não escondendo o que ela tinha de sombra para só pôr no prato da balança a luz restante...

- Era por vezes tirânica! – exclamou um de nós.

- Pois sim. Mas de uma maneira diferente da tirania vulgar. Sabes o que lhe disse uma vez cara a cara, o Pitum, filho do Chico Keil? Isto que a deslumbrou: "Ó Irene! Você é uma tirana esclarecida.

 

José Gomes Ferreira,

Dias Comuns VII. Rasto Cinzento,

Ed. D. Quixote, 2015, pp. 52, 53.

publicado por Jorge da Cunha às 16:12

26
Fev 18

    Uma pata saiu do seu charco e andava a esfregar o bico pelas ervas, quando dá com um pedacinho de lata a luzir. Parece-lhe coisa de muita valia e põe-no na cabeça. Depois foi-se mostrar às outras patas.

    - Eu sou a rainha, eu sou a rainha! - grasna ela. Mas logo achou mesquinho o charco e as companheiras que tinha e resolveu ir correr mundo.

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    De coroazinha na cabeça foi andando, foi andando... até que encontrou um cão.

     - Pareço-te bem? - perguntou-lhe ela. - Olha que estás em presença de uma rainha!

     - Muito bem! - respondeu-lhe imediatamente o cão.

     - Achas, achas? E tu gostarias de ser meu mordomo?

     - Decerto. Nem maior honra eu podia esperar!

     O cão era coxo, o que o não impediu de seguir a pata. Demais a mais o andar desta era vagaroso e solene.       Puseram-se ambos a caminho.

     A pata, como rainha que se supunha, ou era, tratou logo de lançar tributos a todos os bicos que encontrava. Galos, perus, galinhas e patos, tudo vivia subordinado à senhora pata. E ela ociosa e regalada.

     Estava a real pata muito bem agachada a uma sombra, em certo dia, quando dá à passarada para se pôr a chalrar.

    E diz ela assim lá de baixo:

    - Caluda, que me incomodam!

     Mas os pássaros continuaram.

     - Caluda, que a rainha quer descansar!

     Os pássaros, que estavam numa hora de folia, sentiram-se agravados. E com eles todo o povo de penas se amotinou.

     - Há de se saber se a pata é ou não é rainha! - diziam de um lado.

     E do outro:

     - Que venha a pata! Que venha a pata!

     Sai do seu remanso a pata, com toda a majestade, e apresenta-se.

     Bradam-lhe os pássaros:

     - Canta, que se tu és rainha hás de saber cantar.

     A pata abre o bico e grasna.

     Foi uma risota geral.

    - Então voa, já que não sabes cantar; voar talvez saibas e se és nossa rainha voarás melhor que nós.

     A pata vai para voar mas só bate as asas.

     - Fora a rainha! Fora a rainha! - gritam-lhe os pássaros de mil modos.

     - Nada, deves saber nadar. - dizem-lhe então os cisnes - nada aqui à nossa frente, belo galeão...

    A pata, felicíssima, entra pela água dentro e começa a nadar, mas depressa fica para trás dos cisnes, que nunca mais olham para ela.

     Torna a pata para terra.

     - E o monco, tu não tens monco? - bradam-lhe os perus - E a crista e os esporões? - saltam de lá os galos.

     - Fora, fora, fora, que não é rainha! - bradam todos a um tempo - Não sabe cantar nem voar e até nada mal! E não possui monco nem crista nem esporões, fora, fora!

     A pata é expulsa do reino dos bicos à bicada. Desaparece com o seu cão sem deixar saudades. Nem rasto...

     Muito murchos, muito humildes, onde haviam os dois de ir parar?

     À porta de um moinho. A moleira chama-os para dentro e oferece-lhes de comer. A pata é para a engorda e o cão, apesar de coxo, para guarda. Já a pata estava como um texugo, nédia, pesada, vem-lhe o cão com um recadinho:

     - O patrão faz anos, tu sabes? E a patroa não fala noutra coisa.

     - Deixa-os lá! - respondia-lhe a pata - Quero que tenham muita saúde!

     E o cão:

     - Mas olha que eles já convidaram o compadre e a comadre...

     Andava o cão sempre fora e dentro com recadinhos e a pata enfastiava-se:

     - Deixa-os lá!

     Até que ele um dia lhe participou que a patroa andava a amolar as facas.

     - Isso agora já é outra coisa! - exclamou ela - Triste vida! Ala, que já aqui não estamos bem!

    Lá partiram os dois. Ela aos balanços e ele a coxear, esconderam-se nuns pedregais, onde curtiram muita fome. Catavam as pedras e lamuriavam.

   Torna a pata a achar um pedacinho de lata. E diz logo assim para o cão:

   - Mordomo, lembra-te que estás em presença de uma rainha! - E de latinha no toutiço entra a dar ao rabo e a grasnar.

   Passam uns saltimbancos. Veem-na com aqueles propósitos e tanta graça lhe acham que a levam e mais o cão.          

  Ensinam-na a marchar ao som de música, com uma verdadeira coroa na cabeça. E ao cão a receber as ofertas.

   Ambos se dão bem no ofício.

   O tempo que ambos assim viveram é que não reza a história.

 

Irene Lisboa

Queres ouvir? Eu Conto

 

publicado por Jorge da Cunha às 20:49

13
Fev 18

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Esta, que é a mais ligeira de todas as coisas acontecidas, passou-se há um bom par de anos. Era eu rapazola. Costumava ir às temporadas para uma aldeia santarena, de nome Romeira, e de lá me ficaram estas e outras lembranças. Todas tão singelas! Mas naquele tempo as coisas impressionavam-me...

O que foi, que pouco tem que contar, passou-se assim: Já era noite. Estava um magote de gente, da casa e do trabalho, na cozinha da senhora Joaquina, de conversa. Chega o Rabugem e fica entre portas. Andava ali uma gata velha e dois gatinhes pequenos que a senhora Joaquina de vez em quando espantava, sem resultado: eh! mofinos, raios os partissem! Ensarilhados sempre nos meus pés! Os cães do casal também entravam e saíam à vontade. Os dois filhos mais novos da senhora Joaquina tinham-se sentado em medidas postas de borco, no chão.

E o Rabugem sai-se de lá com esta: cacei um gaio.

Todos se riram.

E ele: aquilo é que eles são velhacos! Escondem-se da gente, mas na passagem de árvore para árvore é que é apanhá-los. A cantar, a cantar... cegam uma pessoa, aqueles catitas! E até parece que vão atrás dela! O mariola... tumba! chumbei-lhe uma perna e uma asa. Caiu-me logo de uma azinheira aos pés, e com uma asinha atravessada nas goelas, nem lhe dei tempo a ela ir para baixo. Isso é que as mulheres riam! Se o queriam ver, à bicada a mim, à bicada a mim, o danadinho!

E que é que tu fizeste dele? pergunta o Joaquim, que era mazombão, mas amigo de troça. Um jantar?

Que é que eu fiz? Dei-o à Lovi, responde inocentemente o Rabugem.

Vivo ou morto?

Morto, ele morreu dali a pouco, torna o Rabugem, já desconfiado. Não me queres acreditar, mas porquê? Aposto já em como tu nunca apanhaste nenhum.

E ganhas, ó Rabugem.

A minha patroa tirou-lhe logo as penas, prossegue o homem com os olhos na senhora Joaquina, que se tinha virado para ele. A Lovi queria-as, mas ela não lhas deu.

Pois, são bonitas para pôr numa jarra, remata a senhora Joaquina, arrimada à sua chaminé, com as mão debaixo do avental.

Então a Lovi ficou com o pássaro desrabado? pergunta do seu canto o Manuel, o mais novo dos rapazes do casal, e deu uma gargalhada.

O Rabugem não gostou e respondeu-lhe torto. Calem-se daí! interveio a dona da casa. Porém, os rapazes continuaram na sua chacota.

Eu estava no escuro da cozinha e via o Rabugem de cara. Um simplório! E vi também cair o gaio das suas palavras chochas — um pássaro tão bonito! Aquele serzinho verde e fugaz, com uma asinha atravessada nas goelas... Acendi um sol claro, apesar de fazer noite, separei as árvores umas das outras, fiz o gaio cantar e esvoaçar de ramo para ramo. Senti nitidamente o tiro e fui aparar a vítima com as mãos do espírito. Inanes! Mas ela bicou-me. Deixei então o Rabugem senhor da sua presa e ouvi até as gargalhadas das mulheres do trabalho. Desamparei tudo, desejoso apenas de que todos os gaios dali para diante redobrassem de sagacidade.

Entretanto o Rabugem deu as boas-noites e sumiu-se.

E a senhora Joaquina, depois de ele virar costas, disse, para os filhos com a sua voz um tanto áspera, mas de cana rachada — era boa criatura.

É preciso respeito. Ele é um homem casado e pai de filhos, vocês não passam ainda de uns fedelhos!

O Joaquim e o Manuel riram-se ainda mais. O mais velho dos dois até arrumou um pontapé rasteiro a um cão, que se levantou sem rosnar para mudar de poiso.

 

 Irene Lisboa

Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

publicado por Jorge da Cunha às 17:16

06
Fev 18

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Com a esperança de governar a casa já ela se via a comprar livros e coisas para as paredes. Havia nas papelarias da Baixa umas estampas que cobiçava tanto!

Mas vem um dia... tinha ela ido para o Liceu; um dia em que, de volta a casa, a encontrou virada do direito para o avesso. Que podia ter acontecido? A criada a choramingar, a casa revolvida; e a madrinha?

A rapariga, que era nova e roliça, e costumava deitar pingos de água nas cartas que mandava ao namorado, nem lhe respondeu.

- A madrinha? - perguntava ela, espantada.

- Aquela senhora...

- Qual senhora?

- Aquela, mais a senhora Ana, remexeram aí tudo e, e...

Em resumo tinham posto a casa a saque e raptado a dona Felismina.

A pobre senhora estava de cama, porque continuava doente, mas assim mesmo a tinham arrebatado, como a um fardo precioso.

O que ainda havia de valor em casa também desapareceu: joias, os restos de um faqueiro de prata, loiça antiga, os cobertores, os lençóis de linho, alguns móveis... Por esquecimento, teriam ficado sujas? deixaram duas colheres de prata, que ainda conserva. Com elas sempre come.

 

Irene Lisboa

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publicado por Jorge da Cunha às 16:07

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