"A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa." Irene Lisboa (Solidão)

30
Nov 17

Este que é o último dia do mês Irene Lisboa em Arruda dos Vinhos (2017), deixamos este belíssimo poema desta escritora maior do séc. XX.

 

S. Sebastião!

 

Impudico.

Para quê esse gesto de dança, esses braços em

arco levantados?

E a garganta roliça, os olhos lânguidos descaídos...

Tão gracioso, tão nu, de faixa vermelha franjada...

Mas a descoberto as perfeitas cochas, de gordo

efebo! marchetadas de pequenas pérolas sangui-

neas, em fio...

À frente desta multidão ruça, meu S. Sebastião

de altar, destas mulheres embiocadas, destes ho-

mens soturnos, que figura fazes?

Elas cobertas de chita desgraciosa, eles de surro-

beco...

Caras vermelhuscas ou terrosas, pálidas...

Meu S. Sebastião deslaiado, de que és a imagem?

Do desconcerto, não?

Tão suculento e formoso, tão descansado!

Anda, baixa esses braços!

Cobre esse corpo e pega numa enxada.

Não ofendas os pobres.

 

Irene Lisboa

Outono havias de vir...

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publicado por Jorge da Cunha às 15:43

25
Nov 17

Irene Lisboa morreu em 25 de novembro de 1958.

 

Luto. 26 de novembro de 1958.

 

Enterro de Irene Lisboa. Cemitério da Ajuda. Poucos acompanhantes, mas todos imersos nessa profunda cerimónia religiosa do Silêncio, onde os ateus e os agnósticos tanto sentem o princípio do tudo e do nada.

Nenhuma necessidade de provarmos que estávamos vivos, com palavras ou lágrimas.

Só o rasto do ruído dos pés na terra atrás do caixão. O pequeno e discreto choro da Terra...

 

Ferreira, José Gomes,

Imitação dos dias: Diário inventado,

Lisboa: Portugália Editora, 1970, p. 97.

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 25.11.2017 - Arruda dos Vinhos

publicado por Jorge da Cunha às 21:19

14
Nov 17

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A Bailarina

Era uma vez uma bailarina, mas uma bailarina de pape­lão, daquelas que mexem simultaneamente os braços e as pernas. Nunca se cansava, e era bonita, bonita a valer. Tinha saias de papel frisado.

Um dia penduraram-na numa parede. O rapazito (como se chamava ele?) Gustavo, que cos­tumava ir àquela casa, adorava-a, mas ninguém o sabia. Nem a tia mais velha nem a mais nova. Julgava-o ele.

Entrava na sala, dizia duas palavras aos gatos de veludo que estavam, um de cada lado do espelho, com belos olhos de contas de vidro a olhar para ele, dava mais uns passos e levantava o braço. Anda cá tu, minha beleza! Tirava a bailarina do prego e zás-que-zás, zás-que-zás...

Ela dançava, levantava as pernas de lado, dava aos bra­ços... Que tentação! Gustavo, puxava-lhe freneticamente pelo cordel. Dança, minha menina, dança! mais, mais, mais!

Gustavo foi crescendo e a bailarina sempre na parede. Coitadita, mas não se sabe como, envelhecia... Desbota­ram-lhe as saias, encheu-se de riscos. E esqueceu, tor­nou-se esquecida. Nem alegre nem triste, porém sempre de braços no ar e de pernas penduradas.
Lá veio um dia mais tarde em que Gustavo tornou a reparar nela. Já ele era um tamanhão.

Como a bailarina das tias o tinha entretido! E riu-se desdenhoso. Antigamente tinha uma saia cor-de-rosa. A carinha dela é que ainda era bonita. Até lhe lembrava a da bailarina do Salão Foz.

Que bailarina! Como ela dançava! Dava às pernas e aos braços quase como aquela.

Ele ia tornar a experimentar. Não estava ninguém, a porta encostada... tirou a boneca para baixo e, como antigamente, sentou-se no chão.

Já não tinha cordel para se puxar, bolas! Levantou-lhe um braço, depois o outro. Juntou-lhe as mãos. A marota tinha graça! Como a outra... Mas a do Foz corria de cá para lá e dava umas palmadas e umas gargalhadas que ale­gravam toda a gente. Quando ela se ria riam-se todos. Havia de ir tornar a vê-la.

E quando ela se sentava no chão a fingir que estava amuada? Parecia mesmo uma garota...
Gustavo sorria àquelas ideias.

A porta, encostada, entreabre-se mansamente e a tia mais nova, já de cabelos grisalhos, pergunta-lhe, amável:

Ainda gostas da bailarina, Gustavo? Foi os teus encantos. E eu não ta dei nunca com medo de que tu a rasgasses.

Não, minha tia, já não gosto. Estava distraído.

Não tenhas vergonha! Se quiseres dou-ta por recor­dação.

Muito obrigado, minha tia, não é preciso.


Irene Lisboa (2005).Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma.

Lisboa: Editorial Presença (9ª edição), pp. 60-61.

publicado por Jorge da Cunha às 11:25

11
Nov 17

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Retrato de Nuno Patrício (novembro de 2017, mês Irene Lisboa em Arruda dos Vinhos).

Trabalho integrado na semana Irene Lisboa do Externato João Alberto Faria.

 

Outro dia

 

Mudei de vestido.

E agora,

que já estou sentada,

olho para os pés.

Não mudei de meias.

Deixá-lo! Fico com estas

 

Mas haverá quem não repare

em tão pouco...

Quem não tenha medo de estragar

meias de seda animal...

Quem, em sua casa,

ande como na rua...

Poupar! Conservar!

Este cuidado...

Esta canseira...

Não mudei de meias?

Que importa!

 

Irene Lisboa (1991). Um dia e outro dia… / Outono havias de vir. Lisboa: Editorial Presença.

publicado por Jorge da Cunha às 14:52

06
Nov 17

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Era uma vez uma bailarina, uma bailarina de papelão, daquelas que mexem simultaneamente os braços e as pernas. Nunca se cansava, e era bonita, bonita a valer. Tinha saias de papel frisado.

Um dia penduraram-na numa parede.

O rapazito (como se chamava ele?) Gustavo, que costumava ir àquela casa, adorava-a, mas ninguém o sabia. Nem a tia mais velha nem a mais nova. Julgava-o ele.

Entrava na sala, dizia duas palavras aos gatos de veludo que estavam, um de cada lado do espelho, com belos olhos de contas de vidro a olhar para ele, dava mais uns passos e levantava o braço. Anda cá tu, minha beleza! Tirava a bailarina do prego e zás-que-zás, zás-que-zás...

Ela dançava, levantava as pernas de lado, dava aos braços... Que tentação! Gustavo puxava-lhe freneticamente pelo cordel. Dança, minha menina, dança! mais, mais, mais!

Gustavo foi crescendo e a bailarina sempre na parede. Coitadita, mas não se sabe como, envelhecia... Desbotaram-lhe as saias, encheu-se de riscos. E esqueceu, tornou-se esquecida. Nem alegre nem triste, porém sempre de braços no ar e de pernas penduradas.

Lá veio um dia mais tarde em que Gustavo tornou a reparar nela. Já ele era um tamanhão.

Como a bailarina das tias o tinha entretido! E riu-se desdenhoso. Antigamente tinha uma saia cor-de-rosa. A carinha dela é que ainda era bonita. Até lhe lembrava a da bailarina do Salão Foz.

Que bailarina! Como ela dançava! Dava às pernas e aos braços quase como aquela.

Ele ia tornar a experimentar. Não estava ninguém, a porta encostada... tirou a boneca para baixo e, como antigamente, sentou-se no chão.

Já não tinha cordel para se puxar, bolas! Levantou-lhe um braço, depois o outro. Juntou- -lhe as mãos. A marota tinha graça! Como a outra... Mas a do Foz corria de cá para lá e dava umas palmadas e umas gargalhadas que alegravam toda a gente. Quando ela se ria riam-se todos. Havia de ir tornar a vê-la. E quando ela se sentava no chão a fingir que estava amuada? Parecia mesmo uma garota...

Gustavo sorria àquelas ideias.

A porta, encostada, entreabre-se mansamente e a tia mais nova, já de cabelos grisalhos, pergunta-lhe, amável:

Ainda gostas da bailarina, Gustavo? Foi os teus encantos. E eu não ta dei nunca com medo de que tu a rasgasses.

Não, minha tia, já não gosto. Estava distraído.

Não tenhas vergonha! Se quiseres dou-ta por recordação.

Muito obrigado, minha tia, não é preciso.

                                                                                                 Irene Lisboa

                                                                                           Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma

publicado por Jorge da Cunha às 16:12

02
Nov 17

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O caixão de cristal

 

Eu devia ser lançada ao mar num caixão de cristal, como rezam as histórias... e fui.

O mar baloiçava-me.

Quem jamais teve esta sensação?

Baloiçava-me. Eu ia estendida ao comprido e de olhos muito abertos, perfeitamente imóvel. O meu caixão era cómodo. E foi correndo, seguindo. Lá muito longe, no mar alto, começou a ser sacudido e perdeu de todo a calma. Entrou-me o medo no coração e olhei para os lados. Terríveis animais do mar se batiam à minha roda. Eu via eminentes espadas, medonhas, de água viva, e sentia uma chocalhada azoadora.

Quem jamais teve esta sensação?

O mar até perdera a cor, aquele azul e aquele verde que nos encantam. Era baço e sombrio, coberto de espuma suja e escamudo como um peixe. Mas não sei como tive um impulso salvador e escapei-me. Tornei a correr e a seguir livre de perigo. Pelo mar fora, sempre de olhos abertos, um murmurinho muito doce me emba­lava.

Quem jamais teve esta sensação?

O meu caixão era de puro cristal, transparente. A todo o momento me parecia que o mar e o céu se juntavam para me engolirem. Era uma ilusão, uma curiosa ilusão.

Cobras de água, muito longas e esguias, enlaçavam-se no meu caixão. Eu nãos as temia. Suportava-lhes bem o olhar e sorria quando as via desfalecer. De outras vezes perse­guiam-me cisnes monstros, de asas em canoa. Eram espíri­tos castigados, eu sabia-o. Tanta coisa sabia, de ter ouvido em terra, aos serões! E os saltos e cabriolas dos peixes, uns que voavam, outros que mergulhavam, outros que desliza­vam… uns em forma de leque, outros de palma, outros de fuso... nem sei! Nada me cansava; tudo maravilhas.

Ai, quem jamais teve destas sensações?

Não sei como, uma corrente talvez, me trouxe para a costa. Choveram estrelas e eu entrei a bordejar no meio delas. Mas a chuva de estrelas era do sol... raiara a manhã. Vi grandes rochas entrando pelo mar dentro. O meu cai­xão evitava-as. Passei ao rés de um castelo. Três donzelas de luto estavam ao mirante. Choravam. Quis mandar-lhes beijos. E elas viram-me. Coitadas, debruçaram-se a acenar-me, todas aflitas.

Mas eu ia sempre fugindo. Corria à flor do mar, com os olhos postos nas pobres. Talvez vivessem constrangidas. Teriam madrasta ou pai tirano. Sequestradas dos seus namorados, quem sabe?

Por fim os seus lenços encharcados de lágrimas caíram ao mar e vieram atrás de mim, como uns peixes, como uns pássaros...

Eu continuei, mas sempre à vista da costa, ora mais longe, ora mais perto. Que doce é a areia! Lençóis e len­çóis de brancura.

Quem jamais teve esta sensação?

Acentuou-se a calmaria e o meu caixão de manso baloiçava. Quase ia cerrando os meus olhos quando vejo, mas eu que vejo?

Um mancebo muito belo, bem vestido e bem armado, que me fitava com enlevo. Levava a mão ao coração e parecia querer arrancá-lo. Sorria-me, balbuciava... e eu que o não podia ouvir! Que pensar daquilo tudo? Se ao menos me pudesse erguer! Senti tamanha dor que dos olhos me começou a correr o pranto. Dois fios de lágri­mas contínuos, que me foram encharcando.

Ai, tornar à terra! era só o meu desejo.

Mas... e o mar que começou recuando, recuando? Traiçoeiro!

Vi luzir uma espada tão bela, tão bem temperada, tão formosa, que brilhava inteirinha ao sol. Era dele, do meu amado, que acometia o mar.

E que me parecia afinal o mar? Um monstro cobarde a negar-se.

Escarvava a areia e recuava, recuava...

Eu já estava inteiramente ensopada em lágrimas. Empalideceram-me as mãos e cerrei os olhos. Amor! ainda me dizia, já devagar, o coração.

Quando tornei a mim era noite alta e fazia um lindo luar. Nereidas, como julgo que se chamam, uns seres muito caprichosos, levantavam-me nos braços.

Quem jamais teve esta sensação?

Eu era oferecida em holocausto à lua.

Tão fria e tão rígida me pus que o peso do meu cai­xão venceu as nereidas, as adoradoras do pálido astro.

Senti-me descair, descair; eram os seus braços que des­faleciam, até que cheguei ao fundo do mar e lá fiquei.

 

Irene Lisboa

Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

 

publicado por Jorge da Cunha às 14:49

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