"A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa." Irene Lisboa (Solidão)

25
Out 17

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Tem favas suas? Perguntei-lhe eu.

“Qual!” volve-me logo ela. “O chão é dele, vossemecê ainda não sabe? Fui buscá-las à Arruda, se as quis!”

Arruda, a vila mais próxima, ainda fica longe. Mas este povo bruto e calejado tem um tal hábito de andar e de carregar, as mulheres à ilharga, os homens às costas, de se matar pelos caminhos com todo o tempo, que de pequenas canseiras nem faz alarde. Cita-as de passagem.

                                                                                   Irene Lisboa

                                                                                  O pouco e o muito – Crónica urbana

publicado por Jorge da Cunha às 15:42

24
Out 17

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Secura

 

Nunca

em tempo nenhum

e em nenhum lugar,

quer olhe para diante,

quer para trás,

descobri a regularidade

nem a doçura.

Ó dor, ó saudade!

Ai, por isso

um mal difuso

uma ambição inútil,

cansada e desiludida,

me acabrunha,

me fustiga.

Ó dor pisada, velha!

É assim o mundo...

Luxúrias,

vãs luxúrias.

Papéis muito restritos.

Bondades sem sentido.

E ao fim...

uma insuportável secura.

Secura,

meu mar de sal ou de areia,

tu, secura, cobre-me bem!

Lençol pesado,

meu derradeiro abrigo.

 

Irene Lisboa

Diário Popular, 27 de novembro de 1967

publicado por Jorge da Cunha às 18:33

19
Out 17

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AS DÁLIAS

 

Este amargo cheiro das dálias!

A casa escura.

Manhã


E tanta luz lá fora.

Era duro, duro

o que eu queria escrever.

Mas como?

Entro nesta familiar casa,

tendo não sei que surpresa,

dou com as esguias,

diluídas sombras das dálias

pelas paredes...

E mais não escrevo.

 

Irene Lisboa

Seara Nova, 635 (1939)

publicado por Jorge da Cunha às 15:18

10
Out 17

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“Escritora de afetos, mulher dura de coração meigo, desconsolada, muitas vezes mutilada, corajosa e destemida do princípio ao fim. Guerreira devastadora da cidade e do campo, das memórias e do quotidiano, da reflexão e da poesia que é outra forma de reflexão; que olhou antecipadamente o futuro e o influenciou; que pensou o que muitos não pensaram, ai Pessanha – alma despolarizada, infeliz –, ai Pessoa – o limite é a nossa personalidade. Escritora enigma. Abençoada. Lida e apreciada pelos maiores do seu tempo, e pelos outros que vieram depois, esquecida por aqueles cujo génio tão bem cantou.”

Jorge da Cunha (2014). O céu de Irene. Edições Mahatma, pp. 60, 61.

publicado por Jorge da Cunha às 16:19

05
Out 17

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"Ensinar não é cavar, não é um exercício puramente mecânico, adquirido de uma vez para sempre, deve variar: primeiro, por efeito das experiências pessoais; segundo, pela adaptação de experiências alheias, dignas de fé."

 

Irene Lisboa

Preleção realizada aos professores do distrito escolar de Coimbra, em 23 de janeiro de 1934.

publicado por Jorge da Cunha às 14:20

02
Out 17

Dia de Vento

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Pássaro estranho que ninguém vê,

porque cantaste?

O vento tudo varre.

Dobra as esquinas.

Tem uma voz de floresta,

extraordinária, endemoninhada.

Vento, mais e mais!

Violento, aterrador, clamoroso, trágico,

mais e mais!

Pássaro doido

e tolo

porque cantaste?

É o vento que reina.

Dobrem-se-lhe as rosas

e as begónias dos vasos.

Voz da terra

grita e blasfema.

Cada vez mais alto.

Mais alto e mais áspero.

Grita.

Que eu tenho um coração que estoira desconsolado.

Só uma voz assim o satisfaz.

O vinga,

o desaltera.

                       Irene Lisboa

 (Inédito publicado no suplemento "Literatura & Arte”, do jornal

"A Capital", de 26 de novembro de 1969.)

publicado por Jorge da Cunha às 18:30

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