"A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa." Irene Lisboa (Solidão)

07
Mar 18

E porque o dia 08 de março simboliza o respeito e a admiração que todos devemos ter pelas mulheres, celebremos com esta carta que um homem escreveu a uma mulher que admirava profundamente.

 

A ÚLTIMA CARTA DE JOSÉ RÉGIO A IRENE LISBOA

(Publicada no Diário Popular, 06/12/1973.)

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         Portalegre, 13-11-58

         Minha querida amiga:

        Não sei se chegou a receber a minha última carta, que andou por aí, (a Irene estava então ausente de Lisboa) me foi devolvida, e depois tornei a remeter na direção em que vai esta. Desde então que penso em novamente lhe escrever. Sei que está doente, e penso muito em si. A falar verdade, haverá algum dia que me não lembre da Irene? Também, não muito de longe em longe, vejo o seu nome nos jornais. E uma coisa que me alegra, é verificar que a Irene conquistou tudo o que há de melhor em Portugal, quanto a inteligência e sensibilidade. Pode o grande público não lhe ter vindo, ao menos por enquanto, porque o grande público – digam lá o que disseram os seus aduladores! – é cego ou míope até para uma obra tão humana, tão profunda e, ao mesmo tempo, tão natural, tão acessível, como é a sua, Irene. Mas, se há um escol em Portugal, esse escol pertence-lhe. É o que vejo, quando sai qualquer novo livro seu, como ainda não há muito[1]. E, no fim e ao cabo, mais cedo ou mais tarde, até esse grande público hesitante ou neutro, só espontâneo devorador de banalidades sentimentais ou policiais – não tem outro remédio senão aceitar o que lhe impõem Alguns. Às vezes os aceita (ou pelo menos, respeita) demasiado tarde. Demasiado tarde para a nossa vaidade terrena de autores! Mas não há demasiado tarde para as criações do Espírito; da sensibilidade, da imaginação: têm muito tempo diante de si.

      Estou para aqui a dizer-lhe estes lugares comuns, que a Irene está farta de saber, só para quê? Para conversar um bocadinho consigo. Também por aquela necessidade, que tem a sincera Admiração, (nisso e em outras coisas, tão semelhante ao Amor) de se confessar, de se declarar.

       Não quero que esteja a cansar-se, enquanto estiver doente, por isso lhe não peço que diretamente me envie notícias suas. Mas talvez alguma pessoa amiga possa mandar-me dizer se recebeu estas linhas. Posso abraçá-la, não é verdade? (Já vamos estando ambos velhotes…)

        Do velho admirador e amigo. José Régio

 

[1] Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma

publicado por Jorge da Cunha às 23:16

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