"A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa." Irene Lisboa (Solidão)

04
Out 19

Entrevista dada a Isabel Talysha-Soares, no dia 28 de setembro de 2019, no Externato Irene Lisboa (hoje Externato João Alberto Faria), em Arruda dos Vinhos, para o canal do Youtube, House of Tallysha, de Isabel Tallysha-Soares. Aqui fica o link.

https://www.youtube.com/watch?v=b7JMQj-hn40

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Hello Jorge, thank you for coming... I once heard you say you consider yourself a local writer. What do mean by that?

Yes, it’s true. I’m a local writer. An author mostly read in local schools, by friends and in the local communities is a local author. I don’t have a great ambition in that respect. I write because I want to, because I like it. And what is local is marvelous.

(Sim é verdade. Sou um escritor local. Um autor que basicamente é lido nas escolas locais e por conhecidos e amigos e população local só pode ser um autor local. Não tenho grandes ambições nessa área. Escrevo porque me apetece. Escrevo porque gosto. E o que é local é bom.)

 You are also one of the main specialists in the Portuguese 20th century writer Irene Lisboa. What is that, according to you, makes her work special or what drove you to know more about Irene Lisboa?

“... one of the main specialists” it’s a joke! I’m interested in the subject, that’s all. I have read and investigated all her work, I have written a lot about her and specially I have promoted her work. She’s the greatest poet of the first half of the twentieth century. She was the first great female Portuguese writer of crónicas and the most important pedagogue of the first half of last century. She was born here in Arruda dos Vinhos and those are great reasons to read her and know more about her. 

 (... um grande especialista é uma piada. Sou muito interessado no assunto. Já li a obra completa várias vezes. Tenho investigado e escrito muito sobre Irene Lisboa. E, acima de tudo, divulgado a sua obra. Ela é a poetisa mais importante da primeira metade do século XX. Foi a primeira grande cronista portuguesa. Foi a maior pedagoga portuguesa até aos anos 50 do século XX. E nasceu aqui em Arruda dos Vinhos. Portanto, são todos bons motivos para a lermos e estudarmos.)

And one of your books is precisely a conversation with Irene Lisboa. How did that idea happen to you?

 This book it’s a dialogue with her work and life. It happened as an introduction to readers who want to immerse in the work of this somewhat strange, difficult and restless but fabulous author of the Portuguese twentieth century. 

 (Este livro é um diálogo com a obra da autora. E surgiu precisamente como introdução, para os mais resistentes, a esta difícil, estranha e desassossegada, mas fabulosa autora do século XX português.)

Besides your writing career, you are a teacher and you devote particular attention to dyslexia having even designed a method to help students. Do you think there is now more attention being paid to learning problems such as dyslexia or we still have a long way to go?

We still have a long way to go in that area, specially in making teachers understand that dyslexia are not a disease. The brain of dyslexics has a different way to read, learn and make written material get to it. Dyslexia is not lack of intelligence, quite the opposite. A young dyslexic sometimes doesn’t understand because their reading level isn’t adequate to the text. All of this can be worked using multissensorial methodologies. I have great joys in this field. Just last week, a Student of the twelfth grade told my wife: “Teacher Jorge saved me. Today I am a good Student and I owe it to him and the work we did together”. This makes me understand we should continue to invest in this area, in any area of reading… 

 (Ainda temos um longo caminho a percorrer nessa área, principalmente em fazer perceber aos professores que a dislexia não é uma doença, o cérebro dos disléxicos tem outra forma de aprender a ler e de fazer chegar o material escrito ao cérebro; é urgente fazer perceber que dislexia não é sinónimo de falta de inteligência, pelo contrário... o jovem muitas vezes não compreende porque o seu nível de leitura não está adequado às exigências dos textos. Mas tudo isto pode ser trabalhado com metodologias multissensoriais. Tenho tido muitas alegrias nesta área. Ainda a semana passada, um aluno do 12.º ano, que acompanhei há uns anos, disse à minha mulher: “Ter sido acompanhado pelo professor Jorge foi a minha salvação, hoje sou um bom aluno e a ele se deve e ao trabalho que fizemos em conjunto”. Isto faz-me compreender que vale sempre a pena continuarmos a investir nesta área, em qualquer área da leitura...)

 

publicado por Jorge da Cunha às 18:32

27
Ago 19

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Toma lá que te dou eu,

rapariga da fortuna,

uma mão cheia de nada,

outra de coisa nenhuma.

                          (Popular)

(...) Irene Lisboa nasceu no dia 25 de dezembro de 1892 no Casal da Murzinheira, concelho de Arruda dos Vinhos. Anos mais tarde, já quase no fim da sua vida, em 1955, publicou Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma, livro composto por 26 contos onde se insere o texto que agora propomos analisar: “O caixão de cristal” (...) Este texto foi anteriormente inserido na obra 13 Contarelos (1926), ao qual Irene Lisboa chamou Número 13, número curioso na simbologia, assim como é curioso ser este o texto número treze, tendo em conta a temática abordada. Apesar do livro ser destinado às camadas jovens, este conto requer uma reflexão complexa, pois leva-nos a um imaginário ligado à morte, que dificilmente pode ser compreendido por um público mais jovem, mas, como ela disse algures, tentemos.

Irene Lisboa é um dos grandes enigmas da literatura do século XX, de quem José Gomes Ferreira disse ser a maior escritora de todos os tempos, mas pouco lida pelo público, apesar do tempo que já passou após a sua morte (60 anos) e de ter sido apreciada por grandes críticos, investigadores, poetas e escritores (ver, por exemplo, a revista Relâmpago, 2012, 2013).

Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma é uma obra que apresenta, na globalidade dos seus textos, um narrador autodiegético, feminino, em que o recurso ao registo oral é uma constante, observado sobretudo através das repetições e interrogações, bem como de um discurso direto aparentemente descuidado, mas que se revela de uma profundidade simbólica intensa.

Os diálogos aí apresentados são pois testemunho dessa aparente desordem e da busca constante pela oralidade, bem como os percursos profundos e constantes por aquilo que é comum, quotidiano, frágil, fragmentário, apresentado num registo em que o imaginário entra numa certa inocência e independência subjetivas, muitas vezes encontradas apenas no registo lírico, aqui transposto para o modo narrativo. Estes diálogos não apresentam os traços comuns deste tipo de discurso (sem os dois pontos e o travessão inicial). Esta espécie de subversão do discurso direto não deixa de ser um traço estilístico inovador para a época. Uma outra inovação é o facto de Irene Lisboa ter trazido para a literatura juvenil um tipo de texto também pouco comum, mais exigente do ponto de vista sintático, semântico, simbólico e, no dizer de José Régio, poético, por isso se dizia em cima que dificilmente este público o conseguirá compreender a este nível mais profundo, porém o contacto com textos de qualidade que não estupidificam e acrescentam e despertam outros mundos é indiscutível, por ser formativo e útil na provocação da criatividade e do sentido crítico.

“O caixão de cristal” apresenta um discurso sobre o destino. As sensações aí descritas conjugam a dicotomia entre a vida e a morte, o prazer e a dor, ou seja, os temas clássicos da literatura.

Este conto começa por fazer alusão a um fragmento do texto Sapatinhos de cetim, de Adolfo Coelho. A narradora apresenta-nos um falso dever: “Eu devia ser lançado ao mar num caixão de cristal”. Este fragmento justifica esta narrativa. Contudo, a narradora socorre-se de outras referências, nomeadamente da literatura oral. Há aqui a alusão a um saber prévio, a um saber popular ancestral transmitido de geração em geração: “Tanta coisa sabia, de ter ouvido em terra, aos serões”. Observamos ainda, para além da voz da narradora e do saber tradicional oral, a voz do murmúrio: “Pelo mar fora, sempre de olhos abertos, um murmurinho muito doce me embala”, que é um murmúrio que se vê e sente mais do que se ouve.  

São apresentados os seguintes pontos que resumem esta narrativa: 1) O medo entra-lhe no coração com o seu inexplicável “impulso salvador”: “Entrou-me o medo no coração (…) um impulso salvador e escapei-me”; 2) a narradora encontra-se num estado de encantamento permanente: “Nada me cansava; tudo maravilhas”; 3) dá ênfase à especificidade das figuras que despertam o olhar: ”Três donzelas de luto estavam ao mirante”; 4) conjeturas feitas pela narradora através de interrogações, tais como: “Teriam madrasta ou pai tirano. Sequestradas dos seus namorados, quem sabe?”; 5) a impossibilidade de estabelecer uma relação amorosa, dada a incomunicabilidade em que a narradora se encontra, e isso causa-lhe dor: “(…) e eu que o não podia ouvir! Que pensar daquilo tudo? Se ao menos me pudesse erguer!” Esta impossibilidade de estabelecer uma relação com o objeto amoroso causa dor: “Senti tamanha dor que dos olhos começou a correr o pranto”. Esta situação leva-nos ao ponto 6, início do processo de rutura com a vida: “Empalideceram-me as mãos e cerrei os olhos. Amor! ainda me dizia, já devagar, o coração”.

Por último, a narradora apresenta-nos uma expressão: “Eu era oferecida em holocausto à lua”, em que se observa uma forte intensidade dramática, pois a personagem principal é oferecida, como que em sacrifício, à lua, mas é oferecida pelas nereidas já morta, ou seja: “(…) as adoradoras do pálido astro”, isto é,  a lua. Esta morte é consentida, o que nos leva a concluir que foi uma morte maravilhosa, pois a personagem não deixa de sentir: “Senti-me descair, descair”, até ao fundo do mar, sendo a morte encarada aqui como um estado eterno: “ (…) e lá fiquei”.

A lua é aqui vencida pelo mar apesar de aquela ser encarada como uma “maravilha inigualável”. Podemos levantar algumas hipóteses que justificam a recusa da lua e a aceitação do mar. A narradora recusou a lua porque: 1) esta representa a falsidade, a sua luz é apenas o reflexo da luz do sol; 2) representa instabilidade: tem quatro fases, muda de forma constantemente; 3) representa o feminino e a narradora procura o masculino, isto é, o ser amado. E escolhe o mar porque: 1) este simboliza a dinâmica da vida, isto é: apesar desta morte, a narradora continua a viver eternamente; 2) este simboliza a incerteza, a dúvida, a indecisão, o renascimento. São posições em que a narradora/personagem/autora sente que pode evoluir, crescer, pois a dúvida leva ao conhecimento, ao constante desassossego.

Finalmente, falta-nos fazer alusão a uma expressão que aparece seis vezes ao longo deste conto: “Quem jamais teve esta sensação?” É uma interrogação que nos aparece com uma função mais de espanto do que de incerteza. A narradora pretende talvez manter viva, ao longo do texto, através da repetição, como se de uma reza se tratasse, a focalização do leitor na morte: morte/dor, mas também morte/prazer. Este pedido, súplica, relação com o leitor faz-se de forma muito íntima, mesmo sentimental: há o vivido pela personagem, mas também há a relação com o leitor para que este não deixe de observar e sentir o que está a ser contado.

Obras consultadas:

Chevalier, J. & Gheebrant (1994). Dicionário dos símbolos. Lisboa: Editorial Teorema.

Florêncio, V. (1994). A literatura para crianças e jovens em Irene Lisboa. Porto: Edições Asa.

Lisboa, Irene (1984). Uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Porto: Edições Figueirinha.

Relâmpago(2012/13). Revista de poesia Irene Lisboa, n.º 31, 32.

Texto publicado no Jornal Chafariz de Arruda

Jorge da Cunha

publicado por Jorge da Cunha às 00:42

07
Jun 19

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publicado por Jorge da Cunha às 11:36

06
Jun 19

 "Escontro com as palavras de... Irene Lisboa" foi um dos dois projetos apresentados a concurso pelo Externato João Alberto Faria e distinguidos com o Selo Escola Amiga da Criança.

 

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publicado por Jorge da Cunha às 20:06

12
Mai 19

Mais dois livros de Irene Lisboa, da coleção Contarelos, editados pela Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos: A vidinha da Lita e O diário do João. O segundo tem na capa uma ilustração de Márcia Ferreira (aluna do EJAF) e o primeiro é todo ilustrado por Ana Maria Ramos, ambas artistas de Arruda dos Vinhos. A coleção contempla seis livros, já foram editados cinco. No próximo ano será editado o último.

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publicado por Jorge da Cunha às 12:47

25
Mar 19

A Associação Caminhando, sediada no concelho de Arruda dos Vinhos, na Freguesia de Cardosas, promove uma palestra intitulada "Irene Lisboa e a escola ativa", no dia 30 de abril de 2019, pelas 19.30h. Tentaremos perceber se as teorias propostas por esta pedagoga há mais de meio século estão assim tão distantes das que hoje se propõem nos sistemas educativos mais avançados da Europa.

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publicado por Jorge da Cunha às 18:47

11
Mar 19

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Irene Lisboa

Esboço para uma biografia pedagógica

Irene Lisboa (1892/1958) estuda e escreve a sua obra num contexto político e educativo, por um lado, instável (1.ª República) e, por outro, autocrata e corporativista (Estado Novo). Entretanto, vão surgindo na Europa, também em Portugal, pedagogos que pretendem reformar, diríamos, revolucionar a educação. Portugal tem o seu primeiro laboratório de pedagogia e psicologia experimentais em 1913, na Universidade de Coimbra, de orientação claparèdiana, implementado por Alves dos Santos (1866/1924) e antes, em 1911, uma lei que prevê a implementação da educação infantil (pré-escolar). 

Na Europa, essa revolução vai sendo feita com Decroly (1871/1932), Claparède (1873/1940), Rosa Sensat (1873/1961),Montessori (1870/1952), Dewey (1859/1952, EUA), Luquet (1876/1965), Piaget (1896/1980), entre outros, que observam, experimentam e produzem conhecimento. Já em Portugal, os que se aventuram nessas lides inovadoras (César Porto (1873/1944), Adolfo Lima (1874/1943), Delfim Santos (1907/1966), António Sérgio (1883/1969), Bento de Jesus Caraça (1901/1948), entre outros), durante a ditadura salazarista, mesmo um pouco antes, talvez com início em 1926, acentuando-se a partir de 1933, pagam, alguns, caro a ousadia da inovação, mesmo durante a 1.ª República. É na categoria de inovadora que devemos inserir a professora e pedagoga Irene Lisboa. Professora primária, educadora diplomada (a primeira do sistema público de educação, juntamente com Ilda Moreira), e especialista em ciências da educação, luta sempre pela dignificação da educação em Portugal, e, apesar de ser banida do sistema pela repressão fascista, nunca deixa de escrever (até 1940 com o pseudónimo de Manuel Soares para os textos pedagógicos) e dar conferências, em que apresenta, quando não é impedida, a sua visão documentada, também na prática, de uma educação ativa, nova, em que o aluno seria o centro da aprendizagem (ainda hoje não é uma realidade), em oposição à velha escola sentada, passiva, verbalista, que tão bem conhecemos, e que Irene Lisboa há quase um século já combatia. Ela introduz, esclarece, complementa e adapta à realidade portuguesa as mais inovadoras teorias pedagógicas e métodos que ainda hoje são considerados úteis: Montessori, Decroly, Dalton, trabalho de projeto e de grupo... A sua visão apela a uma escola onde se ensina menos e aprende mais. É nesta condição de inovadora, persistente e destemida que deve ser considerada, estudada e destacada no contexto da história da educação em Portugal.

É na Escola Normal de Lisboa (Escola Superior de Educação) que Irene começa a dar os primeiros sinais de inconformismo, a levar a cabo algumas ações mais radicais e a sofrer as consequências dessa irreverência (entra em 1911 e sai diplomada em 1914). Ali, em 1913, funda Educação Feminina. Esta publicação teve vida curta (7 números e 6 meses), seria proibida pelo Conselho Escolar por ser demasiado revolucionária, mesmo para a 1.ª República (para algumas mentes fechadas que estavam à frente das instituições de ensino, o que acontece em todas as épocas, não só nas ditaduras). Este primeiro jornal das normalistas publica literatura e textos que criticam as condições do edifício da escola, o ensino e a ação pedagógica dos professores. O seu lema: verdade e justiça; os mestres: franqueza e simplicidade. Quatro conceitos que atravessam toda a sua obra, não apenas a pedagógica. Diz ela no n.º 1, abril de 1913: “É este jornal um órgão essencialmente instrutivo e de recreio literário, mas o seu espírito amplo, liberal e franco abraçará com fervor todas as causas justas, todos os ideais nobres e sérios”. A resposta a este desassossego constante, que caracteriza a vida e obra desta mulher, não se faz esperar. Numa das muitas vezes que é chamada ao gabinete dos professores para ser aconselhada sobre a orientação que devia dar à publicação, ouve o seguinte reparo, reproduzido por Ilda Moreira em 1975, na Palestra por si proferida na Escola do Magistério Primário de Lisboa: “A senhora escreve com uma pena muito aguda e um dia pica-se”. E continua: “E picou-se e ficou ferida (...) Mas que euforia enquanto durou (...) a extinção do jornal magoou muito Irene Lisboa e exacerbou a sua rebeldia (...) Mas não se resignou a ficar ignorante da matéria essencial – a pedagogia”. Começa então a sua cruzada de décadas em prol de uma educação ajustada à realidade psicoeducacional e social dos alunos portugueses, que, durante a 1.ª República, não é opressora, mas também não é eficaz.

Em 1913/14, termina o curso com 18 valores, tendo começado a dar aulas no ensino primário, na escola do Beato, durante seis anos letivos (1914/1920). Em 1920/21, por convite, Irene e Ilda tomam posse de duas turmas de ensino infantil na Tapada da Ajuda. Os alunos têm entre 5 e 7 anos. Estas duas classes, pioneiras do ensino pré-escolar público em Portugal, servem de modelo a um ensino moderno e inovador: “Irene Lisboa deu (...) o mais que pôde de si: aplicação cuidada e meticulosa do seu conhecimento pedagógico (...); o coração, pronto a receber a ternura e a retribuí-la (...) Procurou as famílias das crianças, visitou-as em casa e no hospital (...) Foi uma professora de exemplo. De conto. Era a sua juventude a sugerir-lhe o que podia fazer para melhor ajudar”(Moreira, 1975).

Desde o início da carreira que se pressente que Irene Lisboa traz para a educação uma nova intuição pautada pela inteligência, aliando teoria, experiência e crítica: o aluno é considerado em todas as esferas do seu desenvolvimento, “(...) o aluno e a escola se inseriam numa realidade social que o mestre não poderia renunciar a conhecer e (...) a transformar”(Rogério Fernandes, Irene Lisboa, Pedagogista, 1992). Em 1923, submete-se, com Ilda, às provas do Magistério Primário Infantil: “Em 10 de julho de 1923 (...) nos sujeitámos às provas de exame (...) E, assim, ficámos legalmente habilitadas para o lugar que ocupávamos” (Moreira, 1975). Na escola da Tapada, recebe estagiárias que orienta através dos métodos mais inovadores da pedagogia moderna.

Em 1926, Irene e Ilda publicam na Revista Escolar, n.º 4 e 7 e em 1927, n.º 2, um pioneiro estudo didático: “Vida escolar de crianças de cinco anos e meio a sete”. Ainda em 1926, na mesma revista, n.º 10, Irene publica um texto com um título sugestivo, “Escola atraente”. Aqui expõe algumas preocupações, nomeadamente a aproximação entre a teoria e prática e as aprendizagens significativas: “Na Escola toda a criança se submete a um viver artificial, é estudante. Leva anos a aprender frases, tudo a desvia dos seus pequenos interesses. Pouco aproveitará do que ouve e do que copia, está presa e contrariada. Não parte, não mexe, não apalpa, não discute, não tem preferências… tem deveres, é subordinada., diz ela, e dizemos nós, hoje, passados 96 anos. A teoria era submetida ao crivo da sua experiência enquanto professora e observadora.

Em 1929, é-lhe concedida uma bolsa, em Genebra, pela Junta de Educação Nacional, para estudar psicologia e pedagogia, terminando em 1931. Simultaneamente ao estágio na Maison des Petits, Irene frequenta o curso de especialização no Ensino Infantil, do Instituto Jean Jacques Rousseau. “Pensava-se então, soubemos (...) em criar em Lisboa, sob a nossa orientação, duas escolas de ensaio (...) para estudo do que devia convir à criança portuguesa (...)”(Moreira, 1975).

Em 1931/32, em Bruxelas (método Decroly) e Paris (Jardins d’enfants), assiste a conferências sobre metodologias pedagógicas, também ligadas às Necessidades Especiais. Regressa a Lisboa em junho de 1932. A sua estada no estrangeiro não é pacífica, embora muito enriquecedora, encontrando-se documentada em cartas a Gaspar Simões e, principalmente, a Rodrigues Miguéis: primeiro, porque se sente isolada e uma amadora do ensino, depois porque algumas das práticas observadas não correspondem ao que idealizara e, por fim, porque a formação que recebe continua a ser verbalista, distante da teoria que os mestres, que tanto admira, tentam difundir (assim é ainda hoje): “Em chegando a noite entra comigo um desânimo (...) O Instituto e a Maison des Petitsdesconsolam-me imenso. Quem cá tem vindo trazia muita poeira nos olhos; são gabarolas de profissão (...) Duvido de mim... Tudo me soa a falso. E de facto há aqui imensa artificialidade (Carta a Miguéis, 11.11.1929). São vários os trabalhos pedagógicos escritos a partir do início dos anos 30. Destaca-se um editado pela Junta de Educação Nacional: “Bases para um programa de escola infantil” (incluído no Relatório da Bolseira Irene do Céu Vieira Lisboa, 1933). Pela primeira vez em Portugal há alguém que produz um documento com rigor científico: são lançadas as bases da escola infantil (dos 3 anos até à entrada na escola primária). Em 1933/34, é nomeada inspetora-orientadora do ensino infantil e primário, e em 1934 passa a ensinar Pedagogia na Escola do Magistério Primário de Lisboa. Porém, antes da extinção das secções infantis (duraram 18 anos, até 1938), Irene é afastada de inspetora. Mais uma vez o ferrão do Estado Novo a atingir uma profissional que, enquanto inspetora, se pautou sempre por ser “(...) um instrumento de apoio à formação continua dos professores (...)” (Fernandes, 1992). Perigosa, claro, como qualquer progressista com posições pedagógicas e políticas bem vincadas, não convém ao sistema.

Por ser demasiado inovadora para o Estado Novo, numa “caça às bruxas”, Irene é transferida para um lugar administrativo; depois, em 1940, com 48 anos, dão-lhe duas opções: ficar com um lugar de professora na Escola do Magistério Primário de Braga ou reformar-se. Opta pela segunda, recusando “o degredo” e dobrar-se a um sistema acéfalo, ou não fosse ela Irene Lisboa. Nunca mais tem lugar no sistema educativo público ou privado. “Deste modo, a intervenção de Irene Lisboa na área da educação circunscreveu-se, até ao fim da sua vida, à atividade de conferencista e de publicista (...)”(Fernandes, 1992).

Numa carta de 06.07.1953, a pedagoga, já doente, escreve: “Estúpida vida foi a minha! Nem compensada (de pobre de tudo que foi) com a calma da velhice. Adiante”.

Jorge da Cunha, texto publicado em dois números do Jornal Chafariz de Arruda, 2018

             Irene Lisboa, Bibliografia Pedagógica

  1. Relatório da Bolseira Irene do Céu Vieira Lisboa – Junta de Educação Nacional – Relatórios das Viagens de Estudo dos Bolseiros: Áurea Judite Amaral, Jaime Maximiano Gouveia Xavier de Brito, João de Sousa Carvalho, Irene do Céu Vieira Lisboa, José Claudino Rodrigues Migueis, Ilda da Ascensão Moreira, António Leal de Oliveira – Tip. Da "Seara Nova", Lisboa, 1933. Insere os seguintes trabalhos de Irene Lisboa: "Crítica à atividade da ‘Maison des Petits’ anexa ao Instituto J.J. Rousseau"; "Relatório sobre as Escolas Maternas de Paris"; "Os ‘Jardins d’Enfance’ de Bruxelas"; "Relatório sobre a aplicação do Sistema Educativo dos Centros de Interesse do Dr. Decroly, na Escola de L’Ermitage, de Bruxelas"; "Bases para um programa de Escola Infantil".
  2. A contribuição do desenho para o ensino elementar sobre o Império Colonial Português – Publicado em "A formação do Espírito Colonial na Escola Primária Portuguesa" – Tese oficial apresentada pelos serviços de orientação pedagógica da Direcção-Geral do Ensino Primário – Imprensa Nacional – Lisboa, 1934.
  3. Preleção realizada aos professores do distrito escolar de Coimbra, em 25 de Janeiro de 1934 e repetida em Beja, em 1 de Fevereiro, pela inspetora-orientadora Irene do Céu Vieira Lisboa – Publicada em "Preleções Inaugurais" – Imprensa Nacional de Lisboa, 1935. Publicada também no "Boletim Oficial do Ministério da Educação Pública" – Direção do Prof. Oliveira Guimarães – Ano V, Fascículo I – Lisboa, Imprensa Nacional, 1934.
  4. Froebel e Montessori – sob o pseudónimo de Manuel Soares – Cadernos da "Seara Nova" – Seleção de Estudos Pedagógicos – Lisboa, 1937.
  5. O Trabalho Manual na Escola (publicado juntamente com o trabalho anterior) – Cadernos da "Seara Nova" – Lisboa, 1937.
  6. O Primeiro Ensino (I e II) – sob o pseudónimo de Manuel Soares – Cadernos "Seara Nova" – Secção de Estudos Pedagógicos – Lisboa, 1938.
  7. A Iniciação do Cálculo – sob o pseudónimo de Manuel Soares – Cadernos da "Seara Nova" – Secção de Estudos Pedagógicos – Lisboa, 1939.
  8. Modernas tendências da Educação – Biblioteca Cosmos (n.º 21) – 1ª Secção (Ciências e Técnicas), n º 9 – Ilustrações de Ilda Moreira – Lisboa, 1942.
  9. A Psicologia do Desenho Infantil – Edição da Associação Feminina Portuguesa para a Paz – Gráfica Lisbonense – Lisboa, 1942.
  10. Educação – Palestra proferida no salão do "Grupo dos Modestos", do Porto, na noite de 20 de Janeiro de 1944 – Cadernos da "Seara Nova" – Lisboa, 1944.

Colaboração na "Revista Escolar"

  1. Brinquedos e Jogos Educativos – julho de 1925, n º 7, pág. 257 e seg.
  2. Vida escolar de Crianças de Cinco Anos e Meio a Sete (de colaboração com Ilda Moreira) – Abril de 1926, n º 4, pág. 157 e seg. e Julho de 1926, n º 7, pág. 278 e seg.
  3. A Escola Atraente – Dezembro de 1926, n º 10, pág. 405 e seg.
  4. Ler – Junho e Julho de 1927, n º 6 e 7, pág. 253 e seg.

Colaboração na "Revista Portuguesa"

  1. Sociedades formadas de leitores e de comentadores das ideias que lhes interessem – Ano (1934 – 1935) – n º 16, 24 de Janeiro de 1935, pág. 263.
  2. As nossas emissões radiofónicas – Palestra realizada na Emissora Nacional em 22 de Março de 1935 – Ano I(1934-35) – n º 25, 28 de Março de 1935, pág. 464, 465.
  3. A radiofonia e a criança – Ano I (1934-35) – n º 47, 29 de Agosto de 1935, pág. 838, 839.
  4. O Evangelho de SMateus– Ano II (1935-36) – n º 58, 21 de Novembro de 1935, pág. 55, 56.
  5. A Visita Inspcetoral – Ano II (1935-36) – n º 66, 16 de Janeiro de 1936, pág. 97, 98.
  6. Aquele ponteiro era um símbolo – Ano II (1935-36) – n º 77, 2 de Abril de 1936, pág. 165.
  7. Exposições Escolares – Ano II (1935-36) – n º 90, 2 de Junho de 1936, pág. 263, 264.
  8. Rápidas Considerações – Ano II (1935-36) – n º 96, 13 de Agosto de 1936, pág. 313, 314.
  9. A Adaptação à escolaridade – Ano II (1935-36) – n º 100, 10 de Setembro de 1936, pág. 339, 340.
  10. Educação e Assistência – Ano II – (1936-37) – n º 107, 5 de Novembro de 1936, pág. 37, 38.
  11. A Psicologia do Desenho Infantil – n º 792, de 17 de Outubro de 1942.
  12. Prévios pensamentos sobre as formas de tentar conhecer e dirigir a educação em Portugal – n º 949, de 20 de Outubro de 1945.
  13. A Roda de Crianças e de Escolas (Palestra proferida em Leiria e Santiago do Cacem) n º 951, de 3 de Novembro de 1945.
  14. A Roda de Crianças e de Escolas(Conclusão) – n º 955, de 1 de Dezembro de 1945.
  15. Comemorando a Fundação da Primeira Escola da Sociedade "A Voz do Operário" – (Palestra) – n.º 1031, de 3 de Maio de 1947.

Colaboração na "Seara Nova"

  1. Transformemos a escola – artigo- n º 164, 6 – VI, 1929.
  2. E (ureau), I (nternational), (de) E (ducação) – artigo n º 198, 30 – I, 1930.
  3. A Técnica – n º 489, de 29 de Outubro de 1936.
  4. Ler, escrever e contar – n º 492, de 17 de Dezembro de 1936.
  5. Auxílios intelectuais ao professor – n º 494, de 21 de Janeiro de 1937.
  6. Escolas – Breve capítulo de um longo relatório– n º 521, de 7 de Agosto de 1937. 
  7. Froebel e Montessori – n º 524, de 28 de Agosto de 1937.
  8. O Trabalho Manual na Escola – conferência – n º 529, de 2 de Outubro de 1937.
  9. O Trabalho Manual na Escola II – n º 530, de 9 de Outubro de 1937.
  10. O trabalho Manual na Escola III – n º 531, de 16 de outubro de 1937.
  11. O primeiro Ensino I – tradução; (autor: F. Brill) – n º 544, de 15 de Janeiro de 1938.
  12. O primeiro Ensino II – tradução; (autor: F. Brill) – n º 547, de 5 de Fevereiro de 1938
  13. O primeiro Ensino III – tradução; (autor: F. Brill) – n º 548, de 12 de Fevereiro de 1938.
  14. O primeiro Ensino - de F. Brill; nova série sobre a escola de Bastony – n º 570, de 16 de Julho de 1938.
  15. O primeiro Ensino I(de F. Brill) – n º 575, de 20 de Agosto de 1938.
  16. O primeiro Ensino II(de F. Brill) – n º 576, de 27 de Agosto de 1938.
  17. O primeiro Ensino III(de F. Brill) – n º 579, de 17 de Setembro de 1938.
  18. O primeiro Ensino IV(de F. Brill) – n º 581, de 1 de Outubro de 1938.
  19. O primeiro Ensino V(de F. Brill) – n º 587, de 12 de Novembro de 1938.
  20. A Iniciação ao Cálculo I – n º 630, de 9 de Setembro de 1939.
  21. A Iniciação ao Cálculo II – n º 635, de 14 de Outubro de 1939.
  22. A Iniciação ao Cálculo III – n º 640, de 18 de Novembro de 1939.
  23. A Iniciação ao Cálculo IV – n º 647, de 6 de Dezembro de 1939.

 

publicado por Jorge da Cunha às 20:23

16
Fev 19

SARA.jpg

Hoje divulgamos uma obra acabadinha de sair sobre a poesia de Irene Lisboa. Uma obra que poderá ser muito útil aos alunos, professores e interessados pela poesia desta autora maior da literatura portuguesa. A segunda parte do título é um verso de Irene Lisboa. O prefácio da Prof.ª Dr.ª Paula Morão. O texto de Sara Barbosa, já uma amiga da nossa terra, Arruda dos Vinhos.

Ainda tenho uma hora minha?

Irene Lisboa,

Um dia e outro dia...

 

O Sujeito e o Tempo - ¿Ainda tenho uma hora minha?

Sinopse (das Edições Colibri) :

“O presente estudo ocupa-se de temáticas relevantes e das linhas de força que se destacam dos poemas incluídos nos livros editados por Irene Lisboa (1892-1958) na década de 30 do século XX: Um dia e outro dia… (1936) e Outono havias de vir (1937). Pautando-se a obra ireniana pela unidade e pelas recorrências temáticas e estilísticas, bem como pela valorização do inacabado e do trabalho de depuração da linguagem, considera-se importante o estabelecimento de alguns nexos entre os volumes em análise e outros textos da autora. Procura-se demonstrar a relação entre tempo e memória, juntando-lhe as reflexões sobre a escrita, e, nesta, a aproximação à forma diarística e aos códigos da autobiografia, o uso do fragmento e a referência às tarefas diárias, repetitivas e banais, assim como a representação de um sujeito em diálogo e confronto consigo mesmo e com os outros, com a amizade e com o amor (ou com o desamor), com a vida e com a morte. Estudam-se, nomeadamente, os processos retóricos que, na poesia de Irene Lisboa, representam um sujeito auto consciente e consciente da temporalidade que o sustenta. Considerando que se trata da representação de um discurso produzido por um sujeito-mulher, propõe-se que este factor deva ser tido em conta ao observar a voz poética desta escritora.

"A autora salienta neste estudo outros pontos da maior relevância. Interroga os limites do sujeito-mulher que assume a fala, e para tal percorre rapidamente o que ensaístas diversos e diversas vêm propondo para uma crítica séria desta questão, a qual se presta a confusões e a simplificações. Paralela a esta decorre a linha temática que se aproxima dos problemas do género literário – não só a poesia, mas modalidades desta como o verso longo ou a deriva da consciência e do monólogo interior, ou ainda a tradição do fragmento, tudo pontos muito relevantes para tratar as fronteiras do diarismo e da escrita do eu (do eu feminino) em Irene Lisboa. [Paula Morão, no prefácio.]

"Em Irene Lisboa, a escrita é frequentemente encarada como uma forma de autognose, através de uma auto-contemplação e de uma auto-análise conscientes: “Eu escrevo porque busco mas não encontro. Busco a ilusão, recolho-me a contemplação introvertida, não ao labor interessado, com regra. Contemplo-me como se olhasse água, água fugidia, que nada guarda”. Como consciente é a necessidade de registar o tempo que passa, a “água fugidia, que nada guarda” a não ser que se fixem as suas marcas, isto é, que as imagens que o sujeito observa sejam, de alguma forma, inscritas.”

 

Índice:

Prefácio, por Paula Morão 

  1. O curso dos rios refaz-se sempre, teimosamente – Memória a memória se representa a vida 

1.1. Não sei por onde hei-de começar 

1.2. Mundo que eu desconheço – Escolhe-se ou é-se escolhida?

1.3. Que é um corpo? – Aproximação 

1.4. Um pedacinho do rio cintila – Unidade e fragmentarismo na escrita de Irene Lisboa 

  1. Um dia e outro dia… Diário de uma mulher (1936) e Outono havias de vir latente triste (1937) – Em busca do seu tempo pessoal (ou como aceder a um mundo interior) 

2.1. Tal qual como quem passa as contas de um rosário… O registo diarístico. O sujeito e o tempo da escrita

2.2. Voltar atrás para me socorrer… A memória, o passado 
2.3. Só porque alguém me esperava… Tempos e afectos: amor, desamor, amizade 

2.4. ¿Mas como se há-de morrer, sentindo-se a vida? Pulsão de morte, pulsão de vida

  1. Toda a obra acabada devia ser enterrada…? 
  2. Bibliografia 
  3. Apêndice 

AUTORA:
SARA MARINA BARBOSA, natural de Santarém (1966), é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Português – Francês e Ramo Educacional, pela Faculdade de Letras da Universidade Lisboa e mestre em Literatura Portuguesa pela mesma Universidade. Membro do Centro de Estudos Comparatistas, onde integra o projecto "Textualidades", desenvolve projectos na área da escrita de autoria feminina e da auto-representação. É professora do Ensino Básico e Secundário em Sintra.

 

publicado por Jorge da Cunha às 14:50

29
Dez 18

 

Vídeo da exposição "Desta saloia, cuspida da terra", outubro de 2018, Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos. Uma das muitas atividades que assinalaram os 60 anos da morte de Irene Lisboa.

 

publicado por Jorge da Cunha às 16:52

24
Dez 18
 
 
Formosa.
Esses peitos pequenos, cheios.
Esse ventre, o seu redondo espraiado!
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado,
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo,
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha
cariciosa do ombro...
Afrodite, não chorei quando te descobri?
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma!
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de
frontes tranquilas, abstractas...
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necró-
pole.
Era uma assembleia de amáveis espíritos, divaga-
dores, ente si trocando serenas, eternas e nunca
desprezadas razões formais.

Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo...
O descanso desse teu gesto!
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo.
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre.
E um fumo, uma impressão tão subtil e tão pro-
vocante de pudor, de volúpia, de reserva, de
abandono...
Já passaram sobre ti dois mil anos?

Estranha obra de um homem!
Que doçura espalhas e que grandeza...
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão corpo.
Não és mística, não exacerbas, não angústias.
Geras o sonho do amor.

Praxíteles.
Como pudeste criar Afrodite?
E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de
a vencer, gozar!
Tinha de assim ser.
Eternizaste-a!
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne...

 

publicado por Jorge da Cunha às 19:54

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