"A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa." Irene Lisboa (Solidão)

04
Abr 18

A Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos vai dar início à publicação de seis obras com textos escritos por Irene Lisboa para a infância e juventude, que constituirão a coleção Contarelos. Em 2018 serão publicadas três e em 2019 outras três. Os textos incluídos nestas primeiras três publicações foram ilustrados por alunos de artes do Externato João Alberto Faria, com a orientação do Professor José Duarte, e pela Professora Teresa Domingos. Os textos foram gentilmente cedidos pela Arq.ª Inês Gouveia, herdeira do espólio de Irene Lisboa.

Para outras informações sobre esta iniciativa, consultar o setor da cultura da Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos ou a agenda n.º 2, do Centro Cultural do Morgado, p. 11.

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publicado por Jorge da Cunha às 11:22

01
Abr 18

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Estava eu sentada no meu mirante, como era costume, à tarde, e vejo vir pela estrada fora uma cigana toda apressada. Mas de repente parou e pôs-se a olhar para mim com um ar de riso. Tinha a cara muito escura, mas apesar disso engraçada. Ainda era nova.

Não quer saber a sua sina, minha bela menina? Eu acenei-lhe com a cabeça que não, por vergonha. Não? E porque não há de saber, minha bela menina? Ela ria-se para mim e abanava também a cabeça. Tinha um cabelo preto muito luzidio e ensebado, carregado de moedas ou de medalhas. Era de um preto retinto.

Uma sina tão linda! Estou-lhe mesmo a ver na cara. Dê-me cá a sua mãozinha. Eu senti-me quase tentada. Vá, minha bela menina, dê-me a sua mãozinha, não tenha receio.

E não despregava os seus olhos dos meus. Eu via-lhe os dentes muito agudos, muito brancos; achava-me quase hipnotizada. Ia já a descair a mão quando lhe oiço dizer:

Dá-me um botãozinho da sua roseira, minha bela menina?

Ri-me então para ela. Dou já! E, mais à vontade, fui cortar um botão de rosa. Relanceei os olhos para um e para outro lado e atirei-lho. Eu estava de cima, no meu mirante, e ela de baixo, na estrada. A seguir ajoelhei-me no chão e deitei o braço para fora. Abri a minha mão... e ela, sem me tocar, olhando-me muito pôs-se a dizer:

A menina ainda é uma criança. Mas tudo já aqui se vê, tem umas linhas muito claras.

Parecia a mulher que estava a ler:

Gosta do que não tem e do que ainda não conhece, não é verdade, minha beleza? Pois, com isto tudo ainda há de vir a ser muito afortunada. Já perdeu a sua mãezinha...

Sem mesmo querer fiz-lhe com a cabeça que sim.

E tem madrasta.

Pus-me séria.

Coitadinha!

As lágrimas vieram-me aos olhos.

Não se entristeça, minha bela menina. Ainda há de sair daqui e ser muito afortunada, que lho digo eu. Nos seus olhos há uma luz que me não engana. Esta marca, vê a menina esta estrela de bicos? é como fala. A menina rejeita a sua sorte duas e três vezes, e são sempre belos partidos! Mas a sorte é que nunca a larga. Há de vir a casar muito rica.

Adivinhe outras coisas, disse-lhe então eu, e pus os meus olhos no campo verde que tinha em frente. E logo a cigana:

Esteja descansadinha que tudo lhe há de vir parar à mão. Mas só uma coisa lhe digo: é que tem uma grande inimiga, e de portas adentro. Defenda-se dela que lhe quer todo o mal e lhe não há de comer os olhos só se não puder, minha bela menina.

O coração tornou-se-me a apertar.

Deixe-a lá! O mundo dá muitas voltas! E a menina tem o signo aventureiro, está-se mesmo a ver. Ainda há de sair dessa quinta e nunca mais lá tornará a pôr os pés. Fora dela é que há de ser feliz. Uma coisa lhe digo mais, minha beleza: as flores que tem à roda de si é como falam: martírios daqui e rosas dali...

Não pude deixar de sorrir. E ela riu-se também. Já me parecia uma amiga que ali tinha.

Saio então desta casa? pergunto-lhe eu.

Sai, e sai a mal porque tem dentro dela uma grande inimiga. Longe destes sítios é que a menina há de encontrar a felicidade. Quer ver, quer ver? E tira do peito o botão de rosa que eu lhe tinha dado. O seu caminho está cheio de flores assim.

Assim? Não a entendo bem.

Assim, quero eu dizer, de gostos, de botõezinhos de rosa, pois então? Primeiro é contrariada, porque a isso ninguém escapa, mas um dia mais tarde... longe de quem lhe quer todo o mal...

Não me diga essas coisas...

Não se aflija, minha beleza. Eu só quero que a menina fique certa que o que está para vir a há de pagar de tudo. Não vê além aquele passarinho?

Eu olhei para a estrada onde uma alvéola balouçava o fino rabo.

Não está vendo? Aquilo é uma fala! Tudo à roda de nós está sempre a falar. E uma fala verdadeira. Ela não diz com o rabinho que sim e que sim? É para que a menina saiba... Há de vir a casar com um belo rapaz e andar por onde muito bem quiser, ter muito de comer, um palácio...

E mais nada?

Mas ela continuava: morre de velha depois de ter corrido o mundo inteiro.

Fiz uma pequena careta à ideia da morte. E tornei a perguntar: mais nada?

A cigana olhou-me então, com que olhar! e pegou-me nas pontas dos dedos:

Grandes coisas lhe estão para acontecer, disse ela por fim.

Eu sentia cá dentro de mim vontade de a ajudar, mas contive-me. Esteja a menina onde estiver há de ser sempre a primeira!

Veio-me um grande suspiro à boca.

Pode-me acreditar: a primeira entre as primeiras, e com isto digo tudo.

Puxei de repente a mão e levantei-me. A cigana, que não esperava, deu um pequeno balanço ao corpo e pôs-se a olhar para mim. Eu apalpei-me involuntariamente, à procura de qualquer coisa. Tirei então uma medalhinha que tinha ao pescoço e ofereci-lha.

Guarde-a, minha bela menina, guarde-a...

Mas eu tornei-lha a oferecer e ela arrecadou-a então.

Até mais ver! E dizendo isto a cigana desceu pela estrada abaixo com as saias farfalhudas a dar, a dar.

E eu sem saber o que fazia parto dali numa carreira doida pela quinta acima, até à Cabeça Gorda. Lá sentei-me. Não tinha pensamentos nenhuns, só me lembrava de que para a minha frente eram os Fetais, um sítio onde ainda nunca tinha ido.

 

 Irene Lisboa

Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

publicado por Jorge da Cunha às 19:15

29
Mar 18

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publicado por Jorge da Cunha às 10:21

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publicado por Jorge da Cunha às 21:06

12
Mar 18

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Oh! que extraordinário efeito a palidez do rapaz nela produzia... A sua palidez, a sua elegante farda azul-escura, a bicha doirada no braço e o mar, um mar transparente para além dele, romântico, enorme! Por esse tempo, lia ela Camões.
Mas o rapaz era muito reservado, o que a confundia. Estava certa de que o amava apaixonadamente. E sentia-se tão alvoroçada e tão cativa dele que só a ideia da morte a consolava. Morrer, morrer, quer ele soubesse, quer não soubesse que por ele morria. E voltou aos seus passeios na varanda e a apanhar luar em cheio, mesmo que fizesse muito frio. Andava pálida e magra. A dona Felismina inquietava-se: "Que é que a pequena terá, que é que a pequena andará a chocar?"

Ela veio a saber o nome do aspirante por umas costureiras do seu terceiro andar, e nunca o esqueceu.

Sete anos mais tarde, um oficial da administração, um azeiteiro, soltou casualmente em sua frente o nome daquele camarada, e ela ainda secretamente o acariciou.

 

Irene Lisboa (1994). Obras de Irene Lisboa - Volume IV - Voltar Atrás Para Quê?  Editorial Presença: Lisboa, pp. 124, 125.

publicado por Jorge da Cunha às 21:37

07
Mar 18

E porque o dia 08 de março simboliza o respeito e a admiração que todos devemos ter pelas mulheres, celebremos com esta carta que um homem escreveu a uma mulher que admirava profundamente.

 

A ÚLTIMA CARTA DE JOSÉ RÉGIO A IRENE LISBOA

(Publicada no Diário Popular, 06/12/1973.)

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         Portalegre, 13-11-58

         Minha querida amiga:

        Não sei se chegou a receber a minha última carta, que andou por aí, (a Irene estava então ausente de Lisboa) me foi devolvida, e depois tornei a remeter na direção em que vai esta. Desde então que penso em novamente lhe escrever. Sei que está doente, e penso muito em si. A falar verdade, haverá algum dia que me não lembre da Irene? Também, não muito de longe em longe, vejo o seu nome nos jornais. E uma coisa que me alegra, é verificar que a Irene conquistou tudo o que há de melhor em Portugal, quanto a inteligência e sensibilidade. Pode o grande público não lhe ter vindo, ao menos por enquanto, porque o grande público – digam lá o que disseram os seus aduladores! – é cego ou míope até para uma obra tão humana, tão profunda e, ao mesmo tempo, tão natural, tão acessível, como é a sua, Irene. Mas, se há um escol em Portugal, esse escol pertence-lhe. É o que vejo, quando sai qualquer novo livro seu, como ainda não há muito[1]. E, no fim e ao cabo, mais cedo ou mais tarde, até esse grande público hesitante ou neutro, só espontâneo devorador de banalidades sentimentais ou policiais – não tem outro remédio senão aceitar o que lhe impõem Alguns. Às vezes os aceita (ou pelo menos, respeita) demasiado tarde. Demasiado tarde para a nossa vaidade terrena de autores! Mas não há demasiado tarde para as criações do Espírito; da sensibilidade, da imaginação: têm muito tempo diante de si.

      Estou para aqui a dizer-lhe estes lugares comuns, que a Irene está farta de saber, só para quê? Para conversar um bocadinho consigo. Também por aquela necessidade, que tem a sincera Admiração, (nisso e em outras coisas, tão semelhante ao Amor) de se confessar, de se declarar.

       Não quero que esteja a cansar-se, enquanto estiver doente, por isso lhe não peço que diretamente me envie notícias suas. Mas talvez alguma pessoa amiga possa mandar-me dizer se recebeu estas linhas. Posso abraçá-la, não é verdade? (Já vamos estando ambos velhotes…)

        Do velho admirador e amigo. José Régio

 

[1] Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma

publicado por Jorge da Cunha às 23:16

06
Mar 18

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Porque espreitais, lágrimas?

Viciosas, importunas, tão furtivas e tão repetidas.

Lendo, pensando... solícitas, solícitas!

 

Que é que se chora?

Nada, nem se sabe.

O que não foi e podia ter sido...

O impreciso, tudo e nada, toda a vida!

 

Mas como caem elas?

Se passam dos olhos rolam de repente, redondas,

redondas, apressadas...

E logo esquecem.

Mal de esquecer, pior que o de lembrar.

 

O coração, afinal, não é mais que um bocado de

terra ou de erva sempre a murchar e a rebentar.

E nessa fadiga, nessa lida, se gasta, se empobrece,

se inutiliza!

 

Irene Lisboa (1991). Um dia e outro dia… / Outono havias de vir. Lisboa: Editorial Presença.

publicado por Jorge da Cunha às 18:55

28
Fev 18

A rapariga de pedra

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Chamo-me Aldemiro. Os nomes sempre interessam. De mais a mais o meu não é muito vulgar. Mas o que eu aqui vou pôr escrito ainda é menos vulgar. Aconteceu-me...

Vejamos. Começarei a escrever isto de outra maneira mais simples.

Eram férias e nós íamos para fora, como nos outros anos, mas desta vez para a serra! Para a serra, que eu não conhecia. E assim, ajudado por umas vistas de moinhos e de árvores do meu conhecimento passei uns dias compondo uma serra cá a meu jeito. Porém, quando verdadeiramente cheguei à serra, pela tardinha, já todas essas fantasias me tinham esquecido. E as pedras, os penhascos que me iam surdindo de um lado e de outro, faziam-me uma grande estranheza. Tão grandes, e de pé, como se se fossem despenhar pelas ribanceiras abaixo! E uns riozinhos estreitos, quase secos, nuns vales muito fundos e sombrios... Fugindo-me tudo da vista, mas repetindo-se... E pedras, por toda a parte aqueles enormes pedregulhos!

Isto foi de entrada e durante a viagem, porque depois foi-me passando a admiração e logo me habituei a tudo e a todos. E verdade que nos primeiros dias ainda estra­nhava ver correr a água de dia e de noite pelas quelhas da aldeia. Os seixos do caminho também me incomodavam os pés, naturalmente por eu andar calçado... lá, tudo andava descalço. As mulheres ralhavam muito, e ora avançavam umas para as outras, ora recuavam, como se dançassem... tinham graça! E diziam uns nomes: chacharas! farrombonas! que eu nunca entendi, nem precisava de entender.

Pelas quelhas também andavam à vontade os pitos e os bácoros.

Mas a minha tentação, a minha grande tentação era a serra, o campo, a liberdade.

Habituei-me a sair muito cedo, sozinho, quando o céu ainda parece branco.

Que lindos castanheiros e que paz, que grande paz sempre! Os muros dos soutos faziam a vista de uma renda. De pedra rala, já se sabe. Às vezes lá se ouvia a cantilena de um pastoreco... mas onde estaria ele? As cabritas saltavam às castinceiras e roíam-nas. Deixá-las roer!

Aos carrapitos da serra é que eu tinha a ambição de chegar, embora me avisassem de que por lá havia lobos.

Os dias entretanto iam passando, sempre a meu gosto. As noites empregava-as a ouvir histórias pelas portas de uns e de outros. Aquela gente era amiga de fazer serões. E contavam-me tudo: os milagres, as más sortes, os bruxedos, os desastres, as desgraças dos invernos e até as ideias. A história da rapariga de pedra entrava no número dessas ideias. Era uma coisa que tinha acontecido, diziam os antigos, e de que ninguém se devia rir.

O que hoje ainda não sei é se eles acreditavam na história! Ou que sim, ou que não, a mim só me maravilhava. Aquela extraordinária rapariga que tornava cegos ou gagos os que uma vez a surpreendiam! Era de uma beleza sem igual e andava fugida aos pais a cumprir o seu fadário. Viam-na sempre metida nas fontes ou sentada nas pedras, com a cabeça caída para a frente e a água a pingar-lhe nos cabelos... Por onde ela passava não havia campos secos. Por isso o povo lhe queria bem, embora a temesse.

Parece que quando ela tinha fugido aos pais (coitadinha, era a sua sina) estavam os soutos com o candeão, com a flor. Mas ninguém já sabia por que razão fugira ela. Andava em carrapato (quer dizer, nuazinha) como na hora em que abalou. Foram atrás dela os pais e os irmãos, para nada; jamais a alcançaram. Até que um dia, fartos e cansados de correr ali pararam, e ficaram. Era o que se dizia. Parece que o povo nascera deles e que toda aquela gente ainda era aparentada com a rapariga de pedra. Ninguém se envergonhava disso, pelo contrário, Ela, também, nunca se afastava muito daqueles sítios. Vê-la, havia quem a visse, de longe. Defrontá-la é que ninguém ousava. Era de pedra, mas de pedra viva (tinha aquela sina de viver sempre!) com uns cabelos de água que escorriam, escorriam... Tanto assim que por onde ela passasse não se conhecia a seca, mesmo no pino do verão.

Que história! Juro que me encantava. Levei noites e dias a pensar e a sonhar com a rapariga de pedra. Gostava de acreditar nela e também gostaria de a surpreender. Ai, não tinha medo, não, de ficar cego ou gago.

Disfarçadamente fui começando a pedir informações: onde é que a tinham já visto? E de manhã ou de noite?

Eu perguntava, perguntava... mas nunca obtinha respostas certas. Até havia quem me dissesse: para que é que o menino quer saber tanto? O melhor é não desafiar a sorte!

Eu ria e mudava então de conversa. Até que me fui quase esquecendo da história.

Num dia, ou por outra, em certa manhãzinha, saio de casa sem destino, como era o meu costume. Iria para onde as pernas me levassem.

            No chafariz ainda não estava ninguém, nem um cântaro sequer nos poiais. Até uns passaritos saltitavam nas pedras do chão sem nenhum receio. Todas as portas fechadas: com certeza que nenhuma caçoila ainda ao lume. Aquela gente, que tinha o ofício de fazer cestas, não era madrugadora.

E eu meti-me ao caminho, todo lépido.

Que alegria a de andar sozinho, de não ver ninguém e de nem saber para onde ir! As casas da aldeia, muito ruças e baixas, iam-me ficando cada vez mais para trás, cada vez mais para baixo. Os telhados, sem chaminés, não avultavam nada. Só campo e céu, só campo e céu. Os cabeços ainda pouco claros, envolvidos de uma nevoazinha incolor, pareciam-me monstros. Mas um ar e uma frescura! Do sol, nem sinal. De seres vivos lá descortinei um homem atrás de um burro. Eh lá — gritei-lhe eu, de longe. Mas ele nem me ouviu! E eu sempre a andar. Os carreiros chamados de pé posto, ora me parecia que subiam, ora que desciam. Cheguei por fim às bordas de uma ribeira e larguei os caminhitos. Parei um instante. É que eu gostei sempre muito da água, de me entreter com ela.

Os borbulhões daquela ribeira, que logo me saltaram à vista, afloravam, rompiam mesmo como flores brancas, debaixo das pedras, e depois corriam. Daqui vinha um fio e dali outro, mas logo empoçavam. Do fundo daquelas poças todas nasciam ramos verdes, que mal buliam. Continuei a andar, mas já sem pressa. Gostava de ir vendo o que via... os seixinhos cobertos de água, uma coisa que brilhava, uma erva delicada... repentinamente a restolhada de um pássaro, que largava a voar...

A luz foi crescendo, entretanto, e as bulhas também. A própria água acordava, parecia-me a mim. O leito da ribeira empinava-se, enchia-se de pedregulhos. E ouvia-se uma arrulhada! Devia ser da água que caía de alto. Era como um vagido de criança ou de cabritinho a cha­mar pela mãe. O coração começou-me então a palpitar, mas eu nem pensei em voltar para trás. Pus-me aos saltos de pedra em pedra. Tinha vontade de descobrir fosse o que fosse, de ver e de ouvir mais, de avançar sempre. Bichos ofegantes passavam pelo meio das silvas, invisíveis, parecia-me a mim, e de todo o lado caía uma espécie de chuva de pedra miúda ou de terra. Até comecei a ouvir passos: pisavam os panascos secos das margens... Qual! Seria algum coelhito assustado.

A ribeira tornara-se funda. Que medonho sítio! Começava-me a parecer fora do mundo. Mas a água ia continuando a formar trancelins, que ora se dividiam, ora se juntavam. E eu a avançar... Pela ribeira acima, os enormes pedregulhos que a obstruíam tinham de ser rodeados a custo. Porém, a seguir era sempre novo, uma coisa que eu não esperava... Parava um pouco. As lagartixas também me sobressaltavam. Ouvia-se primeiro uma restolhada. Que seria? E só depois é que se viam correr. Largartixas grandes, quase como lagartos. Às vezes também me passavam borboletas à frente.

A certa altura dei com um pego maior e deixei-me ficar a olhá-lo. A água tem o poder de me fascinar, creio que já disse. Centos de bichinhos pretos, pernaltas, corriam nela vertiginosamente. Era um pego tranquilo e sombrio. Aqueles bichinhos pareciam doidos: paravam de repente, depois tornavam ao seu desatino; paravam de novo... Chamam-se alfaiates. Excitei-os com um pauzinho. Veio o sol dar-me nas mãos, só um leve raio de sol. Que bonito que tudo aquilo era! A chalrada da água, uma espécie de choro ou queixa que não tinha descanso, tornou-me a atrair.

A água chora! — pus-me eu a dizer de mim para mim. E é que chora!

Duas rolas gordinhas vieram beber à ribeira. Ia um bando delas lá por cima, lá tão em cima!

A água chora, continuava eu pensando, sentado com o tal pauzinho na mão, a excitar os alfaiates, que fugiam. Por fim desviei os olhos do pego e comecei a ver rodelas de luz. Pensei em continuar a subir, mas achei que não podia mais. Onde estaria eu? Onde teria já chegado?

Pus-me a escutar melhor: não era só o choro da água que eu ouvia, eram também gemidos. Ai! E levei a mão ao sítio do coração. Ai, que não é senão a rapariga de pedra! E eu ali sozinho... Tremeu-me a boca e senti as forças perdidas.

Era ela! Lá estava em cima de uma penha tão alta, tão alta... A cabeça para a frente e os cabelos caídos a correr água, a correr água... Mas de pedra ordinária não me parecia ela, parecia-me de cristal. E chorava, coitadinha. Chorava tanto! Nuazinha, com, os pés pendurados... A ribeira devia nascer ali mesmo.

Não chores mais! — queria-lhe eu dizer. E se o disse não sei. Escorreguei, estou perfeitamente lembrado, e deitei as mãos aos juncos. Quando tornei a olhar para cima já não vi mais nada. Mas eu não estava gago nem cego, felizmente. Esfreguei muito os olhos e disse uma porção de palavras soltas. Deu-me tanta vontade de chorar!

Tinha-a visto. Nunca ninguém disso me desimaginasse: tinha-a visto!

 

Irene Lisboa

Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

 

publicado por Jorge da Cunha às 18:49

27
Fev 18

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Como quase sempre que me encontro com a Maria da Graça, evocamos a nossa querida Irene Lisboa - não escondendo o que ela tinha de sombra para só pôr no prato da balança a luz restante...

- Era por vezes tirânica! – exclamou um de nós.

- Pois sim. Mas de uma maneira diferente da tirania vulgar. Sabes o que lhe disse uma vez cara a cara, o Pitum, filho do Chico Keil? Isto que a deslumbrou: "Ó Irene! Você é uma tirana esclarecida.

 

José Gomes Ferreira,

Dias Comuns VII. Rasto Cinzento,

Ed. D. Quixote, 2015, pp. 52, 53.

publicado por Jorge da Cunha às 16:12

26
Fev 18

    Uma pata saiu do seu charco e andava a esfregar o bico pelas ervas, quando dá com um pedacinho de lata a luzir. Parece-lhe coisa de muita valia e põe-no na cabeça. Depois foi-se mostrar às outras patas.

    - Eu sou a rainha, eu sou a rainha! - grasna ela. Mas logo achou mesquinho o charco e as companheiras que tinha e resolveu ir correr mundo.

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    De coroazinha na cabeça foi andando, foi andando... até que encontrou um cão.

     - Pareço-te bem? - perguntou-lhe ela. - Olha que estás em presença de uma rainha!

     - Muito bem! - respondeu-lhe imediatamente o cão.

     - Achas, achas? E tu gostarias de ser meu mordomo?

     - Decerto. Nem maior honra eu podia esperar!

     O cão era coxo, o que o não impediu de seguir a pata. Demais a mais o andar desta era vagaroso e solene.       Puseram-se ambos a caminho.

     A pata, como rainha que se supunha, ou era, tratou logo de lançar tributos a todos os bicos que encontrava. Galos, perus, galinhas e patos, tudo vivia subordinado à senhora pata. E ela ociosa e regalada.

     Estava a real pata muito bem agachada a uma sombra, em certo dia, quando dá à passarada para se pôr a chalrar.

    E diz ela assim lá de baixo:

    - Caluda, que me incomodam!

     Mas os pássaros continuaram.

     - Caluda, que a rainha quer descansar!

     Os pássaros, que estavam numa hora de folia, sentiram-se agravados. E com eles todo o povo de penas se amotinou.

     - Há de se saber se a pata é ou não é rainha! - diziam de um lado.

     E do outro:

     - Que venha a pata! Que venha a pata!

     Sai do seu remanso a pata, com toda a majestade, e apresenta-se.

     Bradam-lhe os pássaros:

     - Canta, que se tu és rainha hás de saber cantar.

     A pata abre o bico e grasna.

     Foi uma risota geral.

    - Então voa, já que não sabes cantar; voar talvez saibas e se és nossa rainha voarás melhor que nós.

     A pata vai para voar mas só bate as asas.

     - Fora a rainha! Fora a rainha! - gritam-lhe os pássaros de mil modos.

     - Nada, deves saber nadar. - dizem-lhe então os cisnes - nada aqui à nossa frente, belo galeão...

    A pata, felicíssima, entra pela água dentro e começa a nadar, mas depressa fica para trás dos cisnes, que nunca mais olham para ela.

     Torna a pata para terra.

     - E o monco, tu não tens monco? - bradam-lhe os perus - E a crista e os esporões? - saltam de lá os galos.

     - Fora, fora, fora, que não é rainha! - bradam todos a um tempo - Não sabe cantar nem voar e até nada mal! E não possui monco nem crista nem esporões, fora, fora!

     A pata é expulsa do reino dos bicos à bicada. Desaparece com o seu cão sem deixar saudades. Nem rasto...

     Muito murchos, muito humildes, onde haviam os dois de ir parar?

     À porta de um moinho. A moleira chama-os para dentro e oferece-lhes de comer. A pata é para a engorda e o cão, apesar de coxo, para guarda. Já a pata estava como um texugo, nédia, pesada, vem-lhe o cão com um recadinho:

     - O patrão faz anos, tu sabes? E a patroa não fala noutra coisa.

     - Deixa-os lá! - respondia-lhe a pata - Quero que tenham muita saúde!

     E o cão:

     - Mas olha que eles já convidaram o compadre e a comadre...

     Andava o cão sempre fora e dentro com recadinhos e a pata enfastiava-se:

     - Deixa-os lá!

     Até que ele um dia lhe participou que a patroa andava a amolar as facas.

     - Isso agora já é outra coisa! - exclamou ela - Triste vida! Ala, que já aqui não estamos bem!

    Lá partiram os dois. Ela aos balanços e ele a coxear, esconderam-se nuns pedregais, onde curtiram muita fome. Catavam as pedras e lamuriavam.

   Torna a pata a achar um pedacinho de lata. E diz logo assim para o cão:

   - Mordomo, lembra-te que estás em presença de uma rainha! - E de latinha no toutiço entra a dar ao rabo e a grasnar.

   Passam uns saltimbancos. Veem-na com aqueles propósitos e tanta graça lhe acham que a levam e mais o cão.          

  Ensinam-na a marchar ao som de música, com uma verdadeira coroa na cabeça. E ao cão a receber as ofertas.

   Ambos se dão bem no ofício.

   O tempo que ambos assim viveram é que não reza a história.

 

Irene Lisboa

Queres ouvir? Eu Conto

 

publicado por Jorge da Cunha às 20:49

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