"A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa." Irene Lisboa (Solidão)

04
Set 18

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Acreditem-me ou não, tanto faz, mas isto passou-se assim:

Estava eu ao pé da costureira e pedi-lhe uma agulha. Não, ela é que ma pediu a mim e eu levantei-me e fui buscar o meu agulheiro. Ofereci-lho, dizendo: olhe que está aí um cento de agulhas, que tal?

É uma riqueza, foi como ela me respondeu.

Salta logo dali o meu irmão: é mentira!

É mentira? — pergunto-lhe eu indignada.

É mentira e é mentira e é mentira!

Meu grande malcriado!

Não são agulhas, são soldados, diz-me ele.

Desatei a rir e desenrosquei o meu agulheiro. Eu a tirar as agulhas e o João a gritar: ena, tanto soldado! Não fiz caso do que ele dizia e volto-me para a mu­lher.

Conta-me uma história?

Ainda é menina de história? respondeu-me ela. E eu corei.

Então cante-me uma cantiga.

Uma cantiga?

Tornei a corar. A costureira troçava-me, já se sabe. Disfarcei então e pus-me a falar de fatos. Gostava de ter um muito lindo e muito comprido...

Para ir ao baile? diz-me ela.

Isso mesmo, para ir ao baile, respondo-lhe eu. Faz-me um assim?

Porque não hei de fazer? E riu-se. Eu ri-me também.

Passaram naquele momento dois rapazes a cavalo e eu fui vê-los à janela, Vai um, atira-me uma flor que trazia na boca. Apanhei-a no ar. Volto-me para a mulher, en­vergonhada. Ela riu-se outra vez.

Estou noiva, disse-lhe eu.

Parece-me que sim. E desatamos ambas à gargalhada.

Conhece-os? perguntei-lhe eu.

Muito bem. Um é Julião e o outro Jerónimo.

O meu noivo é o Jerónimo. Casaremos para o ano. A senhora quer fazer o meu enxoval?

Então não havia de querer? respondeu-me a costu­reira.

Um enxoval lindo, que eu tudo mereço!

Pois...

Mal sabia ela!

Isto foi num dia, num dia... de Abril ou de Maio. Havia já muitas rosas. Depois, quantas vezes tornou Jerónimo a passar, a pé e a cavalo?

O certo é que nos vamos casar. Dizem que ainda sou muito nova, mas se eu gosto tanto dele!

 

Irene Lisboa, 

Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma

publicado por Jorge da Cunha às 11:54

24
Ago 18

 

publicado por Jorge da Cunha às 14:58

23
Ago 18

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Agulhas e Alfinetes

Irene Lisboa

Eu estava a um canto... Quem assim fala é uma pena de escrever. Naquela casa tinham-me dado por serviço assentar algarismos. Haverá pior serviço neste mundo? E então com uma tinta envinagrada...

O trabalho não me matava, valha a verdade, mas era aborrecido. Derreava-me por onde calhava. Por felici­dade não me faltavam parceiras para o cavaco, e ouvia também muita coisa. Naquela casa tudo falava: agulhas e alfinetes, botões e cadeiras...

De uma vez, uma agulha muito esbelta, longa, toda vestida de linhas, mas sem ter nada que fazer, uma rica mandriona! — falou que se fartou, pelos cotovelos, como se costuma dizer.

A vaidosa! Sim, senhores, o fôlego que uma agulhinha pode ter! Ainda me parece estar a ouvi-la: Vocês não sabem e vocês não viram... toda virada para uma banda de alfinetes, feitos basbaques. Eram uns simples.

O tempo, fazem lá uma ideia! Estava uma lindeza! (Eles, calados, e ela: truz, truz, truz...) Bem se vê que vocês ainda nunca saíram desse papel! Pois as minhas ami­gas disseram-me assim: vamos passear? Eu respondi logo: e é já! Mal disse isto, saltámos todas da janela abaixo, Ou, por outra, como todos nós estávamos enfiadas em seda, escorregámos pelos nossos fios abaixo. E caímos num jardim. Os nossos namorados, que eram uns elegantíssi­mos alfinetes, armaram pulo atrás de nós e caíram-nos também aos pés. Esses, oh! esses, sim.

Vamos, o tempo é de oiro! — disse eu, regalada e orgulhosa.

É de oiro e é de prata e é de cristal... era a ver quem sabia dizer mais finas coisas.

Rosas e abelhas por todos os lados, vocês não fazem uma ideia! Passarinhos a cantar, a brisa a soprar, os repu­xos do jardim a saltar... só lindezas.

Esta hora é única! — torno eu. E todos me felicita­ram, repetindo: única!

As agulhas iam à frente, os alfinetes atrás. Eles chama­vam-nos rainhas e deusas. Nós sentíamo-nos tontas. Parece que o cheiro dos cravos e das rosas nos subia à cabeça. Os nossos namorados, cada vez mais excitados, diziam muitas tolices, muitas coisas engraçadas. Nós já íamos da cor das papoilas. Pudera! Então eu, que tenho sempre ideias, lembrei-me de segredar às outras: e se agora fugíssemos?

Vamos lá fugir, repetiram todas elas baixinho. Eles, atrás de nós, sempre naquelas murmurações de amor, não desconfiaram de nada.

Eu volto-me então para o meu e digo-lhe:

Ó fulano, vai-me já, já buscar uma gota de orvalho.

Ó fulano, diz outra, traz-me umas folhinhas de jasmim.

E cada qual se desembaraçou do seu pajem como pôde.

Eles a correr só pareciam uns sopros.

Carros, minhas amigas, carros! Precisamos de carros... gritei eu.

Por encanto apareceram-nos logo ali os carros. Lem­bro-me tão bem do meu! Era muito leve e tinha rodas de malmequeres. Atrelei-lhe um gafanhoto e eu pró­pria o guiava. Ia pelos ares, só visto!

Houve algumas que se demoravam, não havia meio de se decidirem, e deram tempo a que os alfinetes voltas­sem. As tolas só queriam carros pesados, para fazerem mais vista, puxados por muitas parelhas de vespas... Os namorados apanharam-nas, pudera não! Os alfinetes, lá garbosos eram, montaram então em espigas Zzzzzzz... era o que se ouvia por aqueles prados fora.

Na praia encontrámo-nos todos e tratámos de nos apear. Os nossos namorados riam muito e inventavam gracejos para nós nos rirmos também. Estavam inspira­dos. Parece que é um efeito do mar.

Nós, já muito chegadinhas a eles, íamos trocando o sentido a tudo. Até o mar, que tem urna voz triste, nos parecia alegre. A espuma vinha-nos saltar aos pés. Foi um dia maravilhoso! O meu alfinete a falar só parecia um livro aberto. Dizia coisas tão belas!

Eu admirava-o em silêncio.

Pérolas, pérolas... não querem lá ver?

Foi o que me valeu porque já ia transtornada.

Andavam pérolas a passear à babugem das águas e nós parámos para as contemplar.
Minhas senhoras e meus senhores, disseram-nos então elas, não querem vir dar uma volta nas nossas conchas?

Que amabilidade!

Agradecemos-lhes muito, mas desculpámo-nos: era perigoso, podíamos enferrujar...

Os alfinetes consultavam-se uns aos outros, pesarosos. Se ao menos houvesse por ali palhas, cascas de nozes, embarcações secas! Mas nada daquilo havia nas imedia­ções e tivemos de nos conformar.

Foram-se embora as pérolas e os nossos namorados deitaram-se de bruços na areia. Iam fazer versos. Vai eu, de que me hei-de lembrar? Ofereço ao meu uma porção de conchinhas nacaradas. Ele beija-as e começa logo a escrever nelas:

Eu era quem não era... Silfo e estrela e rosa... A inveja do mar, do Sol e da Lua... Mas a minha alma era de aço. Etc.

Depois das conchinhas cheias, roja-mas aos pés. Eu apanho-as e sorrindo começo a cantar. Os versos que lá estavam escritos, já se sabe.

Foi quando as minhas companheiras, para ver se eu me calava, propuseram a subida a um monte.

Porque não? É já!

Tornaram as damas a formar uma carreira com os cava­lheiros atrás. Com o sol na garganta, que é de todas as notas a mais brilhante e vigorosa, rompo a marcha. Eles e elas faziam coro. As ervilhas do chão até suspiravam. Subir sempre deu glória, e é de bom agoiro.

Chegámos, brada o meu alfinete.

Que frescura, que delícia, é o Evereste! — exclamam várias vozes. Abraçámo-nos, gritámos...
Olha que escorregas, ai que me partes, isto está a pedir uma dança... Ninguém já se entendia. Elas corriam, eles perseguiam-nas. Até o meu alfinete me quis tomar pela cinta. Eu defendi-me: lá isso não, pela cinta só no baile...

E o baile logo ali se armou. Dançar foi sempre a minha paixão.

Que lindo par! — diziam os outros alfinetes. E o meu namorado, ao meu ouvido: não hás-de ser costu­reira, minha flor, meu ideal, sejam-no as outras mais grossas.

Que lhe havia de eu responder? Serei rainha se tu fores rei e escrava se... mas calei-me aqui, receosa de o ofender.

A pena, cansada já de tanto escrevinhar, rematou assim: era uma agulha tão vaidosa,

tão vaidosa, que por fim até eu lhe cortei o discurso.

 

Uma Mão Cheia de Nada

Outra de Coisa Nenhuma

(1955)

 

publicado por Jorge da Cunha às 11:32

22
Ago 18

Textos publicados no Jornal Chafariz de Arruda, junho e agosto de 2018

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Irene Lisboa

Parte 1: Vida

Por Jorge da Cunha

 

Durante o presente ano, e depois quando for oportuno, a começar já com este texto e o seguinte, que servirão de introdução, o tema a abordar será Irene Lisboa, uma vez que, este ano, se assinalam os 60 anos da sua morte.

Assim, começaremos por apresentar umas breves notas bioblibliográficas desta autora, que foi considerada pelos grandes escritores, poetas e académicos portugueses como uma das maiores escritoras do século XX. José Gomes Ferreira, em 1978, na “Breve introdução à poesia de Irene Lisboa”, referiu em letras maiúscula, como se gritasse: “PARA MIM É A MAIOR ESCRITORA DE TODOS OS TEMPOS PORTUGUESES”. Também Manuel Poppe, jornalista do Diário Popular, em 23 de novembro de 1973, escreveu: “Lembro-me muitíssimo bem de ouvir a José Régio o seguinte comentário acerca de Voltar atrás para quê?: ‘Se esta mulher se chamasse Tchekhov, o seu livro impunha-se em qualquer parte do mundo!’ Se esta mulher se chamasse Tchekhov...” Ora, não se chama Tchekhov, mas Irene Lisboa. Por isso, convido-vos a conhecê-la um pouco melhor.

Irene do Céu Vieira Lisboa nasceu no dia de Natal de 1892, no casal da Murzinheira, Arranhó, concelho de Arruda dos Vinhos. Este casal e a Quinta de Monfalim eram propriedade da sua madrinha, D. Maria Guilhermina. Ali viveu com a sua mãe, Maria Joaquina (17 anos) até aos três anos. Depois, foi levada para Monfalim, com a irmã Rita, onde vivia a madrinha e o pai, Luís Emílio Vieira Lisboa (62 anos). Aos seis anos entra no Convento do Sacramento, em Lisboa. Da mãe, pouco mais se soube, apenas que deixou mais 4 filhos: Romana, Vitória, José Mateus e António. No Colégio do Sacramento, esteve Irene até ao 11 anos, frequentando depois, até aos 13, o Colégio Inglês. Em 1905, o pai juntou-se com D. Maria da Saudade, de quem teve 6 filhos. Os dois anos seguinte foram dramáticos para Irene Lisboa. Foi tirada do colégio e levada para Monfalim. Esteve quase ao abandono. Aos 15 anos, foi viver com a madrinha para Lisboa e entrou no Liceu Maria Pia. Aqui conheceu Ilda Moreira, de quem foi amiga o resto da vida. Em 1911, ingressou na Escola Normal Primária de Lisboa, onde tirou o curso de professora. Em 1915, terminou o curso da Escola Normal. Em 1920, Irene e Ilda tomaram posse de duas turmas de ensino infantil na Escola da Tapada na Ajuda. Os alunos, muito pobres, tinham entre 5 e 7 anos. Estas duas classes, pioneiras do ensino pré-primário público em Portugal, serviam de modelo a um ensino moderno e inovador. Entretanto, em 1929, Irene Lisboa foi, como bolseira, para Genebra estudar psicologia e pedagogia. Esteve ainda em Bruxelas e Paris a estudar metodologias pedagógicas. Regressou a Lisboa em 1932. Em virtude de terem sido extintas as secções infantis, em 1936, Irene concorreu ao lugar de Inspetora para o Ensino Infantil, tendo ficado com o lugar de Inspetora-Orientadora em itinerância. Por ter sido demasiado inovadora para as mentes pequenas de então, Irene Lisboa foi, primeiro, transferida para um lugar administrativo na Junta de Educação Nacional; depois, em 1940, com 48 anos, deram-lhe duas opções: ficar com um lugar como professora na Escola Normal de Braga, ou reformar-se. Optou pela segunda situação, recusando o degredo e negando dobrar-se perante um sistema acéfalo, ou não fosse ela Irene Lisboa. Em 1940 visitou a terra da sua infância e adolescência (Arruda e Sobral), ficando numa casa alugada em Monfalim. Foi então que começou a escrever Voltar a trás para quê? Nessas férias, percorreu os lugares, serras e festas e recolheu fragmentos, depois utilizados em muitos dos seus textos. Leia-se, por exemplo, “Férias no campo”, em que a autora nos apresenta um relato de lugares, pessoas e costumes.

E era a este campo da sua infância, trazido pelo “vento da Murzinheira”, que ela regressava constantemente.

 

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Irene Lisboa

Parte 2: Vida (cont.) e obra

 

Uma procissão é afinal um ato grave, lento e doloroso! Na Arruda, como a procissão saísse pelo entardecer e as ruas fossem estreitas, a multidão soturna e recolhida, subindo devagar, ainda me impressionava mais (Irene Lisboa, Apontamentos, 1943).

 

No anterior texto, tínhamos ficado no momento da vida de Irene Lisboa em que, passados muitos anos, regressou, de férias, a estas terras encantadas entre Arruda e Sobral.

Este início dos anos 40 do século XX, já reformada sem ainda ter 50 anos, foi de grande produção literária. Foi nestes anos 40 que visitou a Serra da Estrela pela primeira vez, local bastante frequentado pela autora a partir daí. Também os anos 50 foram bastante produtivos a nível literário e o prenúncio do fim desta escritora arrudense. No início desta década, Irene foi operada, pela segunda vez, a um cancro no duodeno no Hospital de São José em Lisboa, nunca deixando de escrever.

A serra, o campo, a cidade e tudo o que os envolve por dentro, tudo o que é quotidiano, insignificante, nada... foi motivo e reflexão e autorreflexão por parte da autora. Irene Lisboa morreu então numa quarta-feira, no dia 25 de novembro de 1958.

Nos fins dos anos 80 e inícios dos anos 90, do séc. XX, Paula Morão começou a estudar a obra de Irene. Iniciou-se então a reedição da sua obra pela Editorial Presença, com prefácios de Paula Morão.

No dia 13 de janeiro de 2013, os restos mortais de Irene Lisboa foram trasladados do Cemitério da Ajuda (Lisboa) para o Cemitério de Santo António (Arruda dos Vinhos).

Em 2014, a obra de Irene Lisboa passa a ser estudada por todos os alunos do Município de Arruda dos Vinhos, desde o pré-escolar ao ensino secundário (com protocolo assinado entre a Câmara Municipal, o Agrupamento de Escolas e Jardins de Infância de Arruda e o Externato João Alberto Faria).

Em 2018, 60 anos depois da sua morte, a Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos deu inicio à publicação de uma coleção de 6 livros para a infância e juventude com textos, alguns inéditos, de Irene Lisboa. Chamou a esta coleção Contarelos, afinal é o nome da sua primeira obra editada em 1926.

 

Bibliografia:

Literatura, poesia, crónica...

  1. Treze contarelos (1926)
  2. Um dia e outro dia... Diário de uma mulher (1936)*
  3. Outono havias de vir latente triste (1937)*
  4. Solidão: Notas do punho de uma mulher (1939)*
  5. Folhas volantes (1940)
  6. Começa uma vida (1940)*
  7. Lisboa e quem cá vive (1940)
  8. Esta cidade! (1942) *
  9. Apontamentos (1943)*
  10. Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma (1955)**
  11. Voltar atrás para quê? (1956)*
  12. O pouco e o muito – Crónica urbana (1956)*
  13. Título qualquer serve (1958)*
  14. Queres ouvir? Eu conto (1958)**
  15. Crónicas da serra (1959)*
  16. A vidinha da Lita (1971)
  17. Solidão II (1974)*
  18. Folhas soltas da Seara Nova, 1929/1955 – Antologia (Paula Morão)
  19. Rosalina (2018)
  20. O peru voador e Pesadelo de uma manhã de agosto... (2018)
  21. Dizia o rio e Soldado de chumbo... cavalo de pau (2018)

Nota:

Os títulos assinalados com 1 asterisco encontram-se publicados na Presença, com organização e prefácios de Paula Morão; os assinalados com 2 asteriscos também se encontram publicados nesta editora. Os 3 últimos são edições da Câmara Municipal de Arruda e pertencem à coleção Contarelos. Noutra altura, apresentaremos a bibliografia pedagógica da autora.

 

Estes são apenas alguns pormenores da vida desta mulher invulgar, injustamente esquecida por este confuso tempo cheio de equívocos: uma autora com uma admirável, rara e humanitária obra literária e pedagógica que incomodou o Estado Novo.

Dando já o mote para o próximo texto, diríamos que a sua obra pedagógica, se fosse estudada, ou apenas lida, continuaria a incomodar as estruturas educacionais nacionais: “A escola não pode ser um meio artificial, conhecendo a vida apenas por meio de livros. A escola deve ser uma parte verdadeira do mundo, em que a criança se possa descobrir a si mesma” (Irene Lisboa (1942), Modernas tendências da educação).

publicado por Jorge da Cunha às 13:33

21
Jul 18

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Esta história tem várias variantes, a mais antiga é chinesa e remonta a 860 a.C. A versão mais conhecida é a de Charles Perrault. Este autor francês do séc. XVII pegou numa história tradicional italiana La gatta cenerentola ("A gata borralheira") e reescreveu-a. No séc. XVIII, os irmãos Grimm fizeram a sua versão a partir da de Perrault, mas substituindo a fada madrinha por pombas e uma árvore. Irene Lisboa apresenta-nos esta versão cheia de ironia, como aliás é habitual na sua escrita. Este texto permanece inédito no espólio guardado pela Arq.ª Inês Gouveia.

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Era uma vez uma enjeitadinha que foi viver para casa de um lavrador rico.

A rapariga era bonita, mas como não tinha família todos a desprezavam.

O patrão tinha três filhas que nunca punham os pés na cozinha. Mal elas viam a enjeitada lá fora, entravam a gritar:

- Já para a cozinha, tição negro, gata borralheira!

E a pobrezinha, com as lágrimas nos olhos, ia-se esconder ao canto da chaminé.

Mas quando as toleironas estreavam fatos novos ou iam às festas, mandavam-na chamar.

- Calça-me! Veste-me! Penteia-me!

E todas três a ocupavam.

A enjeitadinha não era nada invejosa. Calçava, vestia e penteava as amas e por cima ainda as gabava.

Numa noite em que as foi ajudar, disse-lhe uma delas:

- Gata borralheira, tu sabes onde nós vamos hoje?

- Eu... não, senhora!

- Vamos ao baile do príncipe. Há de lá cair o poder do mundo.

E disse-lhe outra:

- Gostavas de ir, gata borralheira?

- Eu gostava, sim, senhora.

- Não querias mais nada? Ora a paspalhona! Borralho, borralho, minha rica, para ti borralho.

E disse a terceira:

- Hoje é que o príncipe vai escolher noiva.

- Estou bonita? Olha, põe-me o laço de oiro.

Saiu toda a gente de casa e só a gata borralheira, muito triste, se deixou ficar ao pé do lume. As lágrimas caíam-lhe pela cara a baixo. Sentia-se a pessoa mais triste deste mundo.

Tanto chorou, tanto chorou que duas lágrimas lhe saltaram para as brasas.

Subiu ao ar um fumozinho e ouviu-se assim uma voz:

- Dá-me cá a mão... dá-me cá a mão...

A rapariga levantou os olhos e viu uma figurita ao de cima das brasas. Deu-lhe logo a mão. A figurita saltou para o sobrado e perguntou-lhe:

- Sabes quem eu sou?

- Não sei.

- Sou a fada da alegria. Sim, tu estás sozinha, e eu venho acompanhar-te. Porque é que estás triste?

A gata borralheira contou-lhe a sua vida. E a fada da alegria consolou-a.

- Deixa lá – disse-lhe ela. – Também tu hás de ir ao baile.

- Eu, ao baile?!

- Sim, tu, e ninguém te há de conhecer.

A fada da alegria foi com a gata borralheira para o quintal e bateu com o pé num carrinho de mão todo escangalhado.

- Pois esta carruagem é que te há de levar – disse ela.

Chegou ao pé da coelheira e soltou os coelhos, dizendo:

- Cavalos já nós temos. E aquele galo pode ser o cocheiro.

A gata borralheira não abria a boca.

- Estás vestida? – perguntou-lhe a fada.

- Outro fato não tenho – suspirou a rapariga.

- Mas esse está bem. Penteia-te.

A gata borralheira alisou os cabelos, e a fada deu com a varinha de condão no carro, nos coelhos, no galo e no fato velho.

E tudo apareceu transformado.

Que linda carruagem puxada por três parelhas de cavalos brancos! O cocheiro, de libré, fazia um vistão.

O vestido da gata borralheira, todo semeado de estrelas, parecia um céu aberto; os chapins eram de oiro.

Quando ela ia a subir para o carro quis dizer adeus à fada, mas esta já ia a fugir e só lhe disse:

- Não fiques para depois da meia noite, é para teu bem...

 

Entrou no baile uma princesa que ninguém sabia quem era, nem de onde vinha.

O fato dela luzia como o Sol.

E que lindos modos que tinha! Era tão formosa, tão agradável...

O príncipe só com ela é que quis dançar.

Mas antes de dar a meia-noite, a bela princesa desapareceu.

O baile pouco mais durou. O príncipe ficou tão triste que se retirou logo, e todos os convidados voltaram para suas casas.

Estava a gata borralheira ao pé do lume quando chegaram as amas.

- Anda, despacha-te! – gritaram elas.

- Gostaram do baile? – atreveu-se a perguntar a gata borralheira.

- Muito! Pudera não! Estava lá uma princesa mais linda que os amores. E tão dada! Mas tu não precisas de saber destas coisas. Para ti, borralho, borralho...

- Amanhã há outro baile.

“Eu já sabia”, ia dizer a gata borralheira, mas calou-se a tempo.

Vem o dia seguinte e tornou a gata borralheira a ir preparar as amas.

- Enfeita-me bem! – dizia uma.

- Enche-me de colares! – dizia a outra.

- E para mim o regador de brilhantes! – dizia a terceira.

Saíram todos de casa, e a gata borralheira, coitadinha, foi chorar para o pé do lume.

Saltaram-lhe duas lágrimas para as brasas e apareceu-lhe logo a fada da alegria.

A gata borralheira deu-lhe a mão e a fada perguntou-lhe:

- Queres ir ao baile, não queres?

A rapariga fez com a cabeça que sim.

- Então, anda.

Encaminharam-se as duas para o quintal e a fada soltou os coelhos e o galo, mais adiante encontrou o carro. Deu com a varinha de condão nestas coisas todas e no fato da gata borralheira e disse:

- Vê lá se ficas para depois da meia-noite...

A gata borralheira entrou para a carruagem e partiu.

 

Desta vez é que a princesa parecia linda! Todos a admiraram. O fato dela era como um jardim. Tinha flores de todas as qualidades.

E que bem que ela cumprimentava e fazia as vénias!

Estava talhada para rainha, ninguém o duvidava.

O príncipe só com ela é que dançou.

Mas ao dar da meia-noite a princesa desapareceu.

O baile pouco mais durou.

As amas da gata borralheira chegaram a casa e começaram logo:

- Que é do tição negro? Que é da gata borralheira?

A gata borralheira foi despi-las, e disse-lhe uma:

- Se tu a visses hoje!

- Levava um vestido de flores – disse-lhe a outra.

- Até cheirava – acrescentou a terceira.

- Quem me dera vê-la! – disse a gata borralheira.

E as três amas puseram-se à gargalhada.

- Borralho, borralho, minha rica, para ti borralho... e estás com sorte.

No terceiro dia ainda havia de haver outro baile.

A gata borralheira foi vestir as amas.

- Lava-me essas mãos – gritou uma delas. – Ontem mascarraste-me.

A rapariga demorou-se um bocadinho e quando apareceu levou uma bofetada.

Pôs-se logo a tremer e a chorar.

- Olha que me picas!

E, zumba, outra bofetada.

Quando as amas saíram, a pobrezinha foi a soluçar para o pé do lume. Deixou cair duas lágrimas nas brasas e a fada da alegria apareceu-lhe.

- Dá-me cá a mão... dá-me cá a mão... e não chores.

A gata borralheira deu-lhe a mão, e as duas foram para o quintal.

A fada soltou logo os coelhos e o galo e pôs-se à procura do carrinho. Deu com a varinha de condão em tudo isto e no fato da rapariga e foi-se embora. Mas antes disse:

- Não fiques para depois da meia-noite, vê lá o que fazes...

A gata borralheira riu-se e subiu para a carruagem.

Entrou a princesa no baile e todos ficaram de boca aberta. Assim é que ainda ninguém tinha visto nada! O fato dela fazia ondas como o mar e estava todo salpicado de peixes, mas eram de prata e de oiro.

Onde seria o reino de uma princesa tão rica e tão bela?

Até o príncipe estava intrigado. Toda a noite dançou com ela e, por fim, ia a falar-lhe em casamento.

Nisto começou a dar as badaladas da meia-noite.

A princesa fugiu de repente. Mas com a pressa deixou cair um dos chapins.

Pobre dela! Chegou ao pátio e já não viu a sua bela carruagem. Só viu os coelhos a fugir e o galo a dar às asas. Tropeçou numa coisa... era o carrinho de mãos. Pôs a mão na saia e sentiu que era a sua saia velha.

Ainda ela ia pela estrada fora, quando viu passar as amas.

- Que é que tu por aqui fazes? De onde é que tu vens? – perguntaram-lhe elas, muito admiradas.

- Venho do baile...

- Do baile? Ó rapariga, tu estás doida?! Que é que tu tinha que fazer no baile?

- Fui espreitar a tal princesa... gostava de a ver nem que fosse uma só vez.

- Ela já saiu, não penses nisso. E perdeu um chapim, coitada. Hoje é que ela ia linda! Mas não é para olhos como os teus se lhe porem em cima...

Voltou a gata borralheira para a sua vida de borralho. Lavava tachos em todo o santo dia, partia as vides e espevitava o lume! Parecia uma carvoeira, de enfarruscada que andava.

Mas de uma vez apareceu à entrada da cozinha um criado do rei. Olhou para dentro e perguntou assim:

- Há ainda mais alguma mulher nesta casa?

- Há ali a moça do borralho – responderam as amas –, mas nem vale a pena chamá-la.

- O meu senhor ordenou que nem novas nem velhas eu deixasse de convidar. – E o criado do rei encaminhou-se para a gata borralheira.

- A menina experimente lá este chapim.

- À gata borralheira é que ele há de servir! – exclamam as três amas, mortas de riso.

- Anda, calça-o, que tu é que deves ser a princesa...

A gata borralheira sentou-se no chão e calçou o chapim, depois tirou outro igual da algibeira e calçou-o também.

O criado do rei cumprimentou-a com muito respeito e convidou-a para o acompanhar ao palácio.

Mas as donas da casa entraram em dar gritos e a opor-se e a gata borralheira começou a chorar.

Saltaram-lhe duas lágrimas para o lume e a fada da alegria apareceu.

A rapariga deu-lhe logo a mão, e ela disse-lhe:

- Minha querida, se tu entrasses assim no palácio, o príncipe não deixava de te receber bem. Ele só de ti é que gosta e não é nada vaidoso. Mas eu quero que tu lhe apareças vestida de noiva.

E deu-lhe com a varinha de condão.

A gata borralheira apareceu logo toda coberta de branco desde a cabeça até aos pés.

Só parecia metida numa nuvem.

E como ainda tinha os olhos marejados de água, dizia toda a gente:

- Tão linda! Coitadinha... E ali a viver com aquelas mulheres tão más...

- Onde é que elas a teriam metido, que nunca ninguém a via?

O príncipe cheio de satisfação por ter achado, enfim, a sua querida noiva, casou logo com ela.

E as amas, que tanto a tinham maltratado, com a vergonha, nunca mais saíram à rua.

 

Fim

publicado por Jorge da Cunha às 21:10

15
Jul 18

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"A vida dela é que continua misteriosa...

"Como bem diz a autora da tese [Maria Helena Ribeiro da Cunha], “a personalidade introvertida de Irene Lisboa dificultou um conhecimento mais amplo da sua vida particular, e até mesmo de conhecimentos ligados à sua atividade”.

"Que sei eu, por exemplo, que fui amigo dela, da vida de Irene Lisboa? E que sabe a Rosalia – para além de lhe ter passado livros à máquina?

"Nada. Talvez vagamente, como toda a gente, que teve amores com José Osório de Oliveira [filho de Ana de Castro Osório] – história que muito a envergonhava sobretudo nos últimos anos da existência.

"Nesse capítulo também o José Rodrigues Miguéis me contou uma vez que, entre ele e a Irene, teria havido o esboço de um pequenino romance de amor irrealizado. – Resisti – dizia, feliz. – Estive quase a cair durante uma viagem de comboio (para a Suíça, suponho) mas resisti. E tornaram-se grandes amigos.

"Pouco antes da Irene morrer, o Zé Miguéis foi visitá-la e choraram, a olhar um para o outro, como dois anjos.

“A personalidade introvertida de Irene Lisboa” – escreveu Maria Helena Ribeiro da Cunha.

"Não. Irene Lisboa não era propriamente uma introvertida no sentido vulgar desta palavra... Só ocultava dos outros o que poderia humilhá-la. E a condição de mulher em 1920-40 ainda era uma fonte de humilhações doces.

"Daí o “protesto viril” de certas páginas de Irene Lisboa."

 

José Gomes Ferreira (2018).

Dias Comuns IX – Derrota pairante.

D. Quixote, pp. 126 e 127.

publicado por Jorge da Cunha às 11:35

15
Mai 18

Vamos lá... é só um cheirinho do maravilhoso texto Dizia o rio, de Irene Lisboa, recentemente editado pela Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos:

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(Excerto)

"Levei anos, pacientemente, a abrir galerias subterrâneas. Toda a minha ambição era romper até à luz! E aí me punha eu dia e noite em teimosas lutas com a terra e com as rochas que me tolhiam a passagem.

Ai, que alegria tamanha senti no dia primeiro em que descobri o céu por entre os últimos grãos de terra que tinha a vencer! Começava a anoitecer e eu, receoso e cheio de respeito por tudo aquilo tão estranho para mim, deitei-me a correr muito devagarinho, abafando a voz, com mil cautelas, não fosse dar nas vista e provocar algum desagrado."

 

Irene Lisboa (2018). Dizia o rio e Soldado de chumbo... cavalo de pau. Arruda dos Vinhos: Edições CMAV.

publicado por Jorge da Cunha às 15:47

01
Mai 18

Vale a pena ler estes textos intemporais de Irene Lisboa para a infância e juventude (com cerca de 80 anos), magnificamente atualizados através das imagens e edição. Contarelos é uma coleção de 6 livros com textos desta importante escritora portuguesa, nascida no concelho de Arruda dos Vinhos. Três foram lançados no Dia Mundial do Livro, no mês de abril, os outros três saírão em 2019. Encontram-se à venda no Centro Cultural do Morgado, em Arruda dos Vinhos. Os preços encontram-se entre 2,50 e 3,50 euros, com desconto de 0,50 cêntimos para alunos do concelho. Magnífica iniciatica do setor cultural da CMAV, neste ano em que se assinala os 60 anos da morte da autora.

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publicado por Jorge da Cunha às 12:28

30
Abr 18

            Havia um coração (ou muitos) que pagava, que pagava sempre...

Era o coração de um rapaz. Estava ele na idade de amar e a luz dos seus olhos era uma linda rapariga, que também o amava.

Porém os pais dela opunham-se a este amor e o rapaz andava triste como a triste noite. Espreitava a namorada de todas as bandas e não comia nem bebia.

Um dia os pais dela pregam-lhe a partida de a levarem para muito longe. Para onde, ninguém o soube. E o moço, a chorar pelos campos, entrou a invetivar a sua boa fortuna que assim o desamparava.

Andava ele nestes clamores quando vê vir pelos ares uma ave estranha. Era tão grande que sombreava toda uma eira. Vinha descendo. O seu bico, igual a uma fateixa, parecia recurvo e enorme. Descia, sem o largar de vista. Com o pasmo, o moço nem arredava pé.

Levo-te! rouquejou a ave. Levo-te!

Para junto dela? murmurou impercetivelmente o moço.

Levo-te! E poisou as pontas das enormes asas no chão. O moço cavalgou a ave sem hesitações. E num abrir e fechar de olhos se viu em terra nova, ao pé da namorada. Choraram ambos de felicidade.

Paga-me! rouquejou a ave.

Sim, sim, eu te pagarei, respondeu-lhe alegremente o moço. Mas antes disso não nos quererás levar daqui a ambos?

Seja! rouquejou ela.

E os dois cavalgaram o avejão, indo ter tão longe que diferente do conhecido lhes pareceu o céu, a terra e todas as mais coisas.

Assim que saltaram da estranha montanha, passaram os braços pela cinta um do outro e tomaram por uma vereda rescendente. Só se viam borboletas e flores: era a primavera. Imediatamente o resto do mundo lhes esqueceu e até o monstro que ali os depusera.

Um dia, porém, quando mais tarde o moço sozinho torna a passar pela mesma vereda, já despojada de verdura e de flores, vê a terrível ave direita a ele.

Paga-me! rouquejou ela.

Pago-te, sim, mas como?

Abre-me o peito!

O moço regaça então a camisa e aparta os braços.

E a ave, com gula, enterra-lhe o bico no coração. Ele cambaleia, mas logo se compõe e volta pelo mesmo caminho. Tudo se lhe afigura pálido. Até a ideia de chegar à sua própria casa o aborrece. A mulher iria salteá-lo de perguntas: porque se demorara, por onde andara... Era enfadonha a vida!

E o tempo foi passando. Nasceu-lhe um filho, o primeiro. Voltou-lhe a alegria ao coração. Andava sempre desejoso de se despachar. Tinha um entusiasmo novo. Não havia filho como o seu! Se ele pudesse... até o mundo, com todas as suas lindezas e bens lhe havia de pôr no berço.

A trabalhar e mesmo a dormir só tinha pensamentos de amor. Mas um dia a criança adoeceu gravemente.

O pai, a estalar de angústia, vai para o campo desabafar. Chora e arrepela-se. Nisto vê vir no ar, direita a ele, a estranha ave.

Só tu me podes valer! grita-lhe.

E ela rouqueja: vem.

Logo os dois fenderam os ares. Poisaram longe, entre medonhas fragas. O moço salta abaixo e o avejão grasna: colhe-as, colhe-as, colhe-as...

Eram as ervas da salvação.

Feita a colheita, o moço ouve: paga-me!

Não tenhas pressa, leva-me ao meu filho quanto antes.

Seja! — rouquejou o avejão.

Só muito mais tarde, quando o moço, já homem de barbas, esquecido de velhos pesares, andava lavrando, é que dá com umas asas enormes, ruças e estranhas, poisadas na terra.

Paga-me! ouve ele logo rouquejar.

É verdade que te fiquei em dívida. E escancara o peito à terrível ave. Esta enterra-lhe o bico no coração e some-se nos ares.

O homem, porque a bela mocidade já se lhe fora, olha à roda de si atordoado. Aborrece-lhe a vida, mas não pensa em morte. Que é que lhe poderia ainda dar gosto? A sua junta de bois está velha, tem de a trocar ou vender. A terra também já lhe anda a pagar mal. E já é pai de uma caterva de filhos. Mas ainda há de ser rico!

Esta ideia nunca mais o larga. Deixou de rir como antigamente, anda sempre aos brados. Dispara de umas fazendas para as outras sem descanso. É insofrido com os homens da jorna. Pelos caminhos pragueja e espanca muros e troncos com as verdascas que apanha. Não poder eu estar em toda a parte... grita. E tanto gritou de uma vez que o avejão lhe desceu à frente, rouquejando: levo-te.

Para toda a parte! implora-lhe ele.

E assim foi. A cavalo no seu monstro de asas ele está presente em todos os campos. Tornou-se extraordinariamente rico e temido. Mas teve de pagar os favores que recebeu. A derradeira bicada do avejão foi tal que o seu coração se desencantou de tudo... Nem mais gostos nem cobiças... E, por fim, até a morte o veio procurar. Achou-o na soleira da porta, à vista das primeiras árvores que ali pusera e de um rebanho de netos que cabriolavam. A morte fechou-lhe os olhos sem ele soltar um ai.

No outro dia, quando o levaram para a cova, todos viram com espanto, no ar, um avejão, coisa extraordinária, que fazia grandes círculos sem nunca poisar.

Está farta! — diziam os do enterro.

Mas o pior é que a sorte dos vivos nunca viria a ser muito diferente da do morto. O coração tem sempre de pagar... Ou o vão matando aos poucos ou ele se gasta.

 

Irene Lisboa

Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

publicado por Jorge da Cunha às 18:36

04
Abr 18

A Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos vai dar início à publicação de seis obras com textos escritos por Irene Lisboa para a infância e juventude, que constituirão a coleção Contarelos. Em 2018 serão publicadas três e em 2019 outras três. Os textos incluídos nestas primeiras três publicações foram ilustrados por alunos de artes do Externato João Alberto Faria, com a orientação do Professor José Duarte, e pela Professora Teresa Domingos. Os textos foram gentilmente cedidos pela Arq.ª Inês Gouveia, herdeira do espólio de Irene Lisboa.

Para outras informações sobre esta iniciativa, consultar o setor da cultura da Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos ou a agenda n.º 2, do Centro Cultural do Morgado, p. 11.

Contarelos1.jpg

publicado por Jorge da Cunha às 11:22

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