"A Alma é um pássaro, está sempre a querer cantar, mas tudo a atordoa." Irene Lisboa

27
Ago 17

José Gomes Ferreira foi um dos maiores admiradores da obra de Irene Lisboa. Aqui ficam alguns excertos da obra deste escritor sobre a autora de Solidão.

 

Casa Virgílio Ferreira 1950:5.jpeg

Irene Lisboa irrompe também nessa década (em 1936) com uma poesia de rigor novo que alguns míopes logo classificaram de prosa, porque despedaçava inclemente as velhas metáforas além dos fatais sonetos apodrecidos por anos e anos de uso pelas raras mulheres que, de dicionário de rimas em punho, ousavam pôr as panelas e a costura das lidas diárias em segundo lugar. Isto para não falar dos lugares-comuns mais pequeno-burgueses, então em plena moda feminil, da espera à janela ou perto do telefone do vulto ao longe ou da voz do bem-querido, tão cantado por Virgínia Vitorino nos seus versos.

“Vem? Não vem? Virá? Talvez venha.” Etc.

 

José Gomes Ferreira,

“Breve introdução à poesia de Irene Lisboa”,

Vol. 1 (Poesia I, 1991), de Irene Lisboa,

Editorial Presença, 1978, pp. 21-22.

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Como quase sempre que me encontro com a Maria da Graça, evocamos a nossa querida Irene Lisboa – não escondendo o que ela tinha de sombra para só pôr no prato da balança a luz restante...

- Era por vezes tirânica! – exclamou um de nós.

- Pois sim. Mas de uma maneira diferente da tirania vulgar. Sabes o que lhe disse uma vez cara a cara, o Pitum, filho do Chico Keil? Isto que a deslumbrou: "Ó Irene! Você é uma tirana esclarecida.

 

José Gomes Ferreira,

Dias Comuns VII. Rasto Cinzento,

Ed. D. Quixote, 2015, pp. 52, 53.

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O Luís Amaro a evocar a Irene Lisboa – de que foi admirador fervoroso:

- Coitada! O que ela sofria com o êxito dos outros – êxito que nunca a bafejou. Sobretudo com o êxito das mulheres. Não podia com as Natércias, nem com a Bessa-Luís – a quem chamava a Bessa! Uma vez quando já estava doente anunciaram-lhe a possível visita da autora da Sibila. Quê, a Bessa? – berrou. – A Bessa? Não quero! E a sua voz estridente varava o mundo de raiva: A Bessa? A Bessa? Só me faltava a Bessa!

 

José Gomes Ferreira,

Dias Comuns VII. Rasto Cinzento,

Ed. D. Quixote, 2015, pp. 55, 56.

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Luto. 26 de novembro de 1958.

Enterro de Irene Lisboa. Cemitério da Ajuda. Poucos acompanhantes, mas todos imersos nessa profunda cerimónia religiosa do Silêncio, onde os ateus e os agnósticos tanto sentem o princípio do tudo e do nada.

Nenhuma necessidade de provarmos que estávamos vivos, com palavras ou lágrimas.

Só o rasto do ruído dos pés na terra atrás do caixão. O pequeno e discreto choro da Terra...

 

Ferreira, José Gomes,

Imitação dos dias: Diário inventado,

Lisboa: Portugália Editora, 1970, p. 97.

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Descansa, Irene, a dos “olhos vigilantes”. Hão de ler-te até ao fim da língua portuguesa, cada vez mais viva e alargada pelo mundo em pátrias novas.

 

José Gomes Ferreira,

“Breve introdução à poesia de Irene Lisboa”,

Vol. 1 (Poesia I, 1991), de Irene Lisboa,

Editorial Presença, 1978, p. 30.

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E boa eternidade, Irene Lisboa.

 

Ferreira, José Gomes,

Relatório de sombras ou a memória das palavras II,

Moraes Editores, 1980, p. 55.

publicado por Jorge da Cunha às 14:41

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